17 abril 2017

Vai um gin do Peter’s?

Almada Negreiros também ajuda a celebrar a Páscoa, com o seu vanguardismo, beleza imensa e gosto insaciável pela vida. Até Junho, tem uma parte substantiva da obra exposta na Gulbenkian(1). São obras assombrosas, pois a criatividade e a sofisticação artística de Almada atingiram níveis de génio.

Nos recuados anos 30 do século passado, o Arqtº. Pardal Monteiro fez parceria com o pintor para responder a encomendas do Patriarcado, que queria modernismo nas novas Igrejas da capital. O primeiro trabalho da dupla situa-se na av. de Berna (curiosamente, veio a ficar perto da Gulbenkian) e foi inaugurado a 13 de Outubro de 1938 com o nome das Aparições que começavam a ter relevância oficial: «Nossa Senhora de Fátima». Em murais, no ferro e sobretudo nos vitrais lindos, que revestem a parte superior da Igreja, Almada deixou a sua marca luminosa. A representação da Santíssima Trindade é toda uma súmula teológica da Páscoa, iniciada no Bebé das palhinhas de Belém, passando pela Paixão e a abrir-se para o esplendor da Vida que renasce na madrugada do Domingo Pascal. A presença omnipotente e marcante do Pai glorioso, juntamente com a pomba do Espírito Santo, não deixam ensombrar a hora escura da crucifixão do Filho. Pelo olhar de Almada, a Luz prevalece sempre e contagia todo o ambiente:

Vitral da Igreja de Nossa Senhora de Fátima - Lisboa, 1938.

Até a sua Pietá possui um brilho e uma vitalidade, onde a morte não pontifica, limitando-se a ser uma breve passagem, que desaguará na eternidade e recuperará a Vida para sempre. O corpo tenso do inanimado, de uma brancura fulgurante, está mais próximo da ressurreição do que do reino da inexistência. O morto sobressai, em cor nívea amansada pelos tons quentes dos laivos dourados. Sobressai ainda por ter a Mãe em fundo, com vestes azuis e em tonalidades de roxo solenes, porque o momento é difícil, mas não deixa de ser grande. Vislumbra-se o renascimento do Crucificado, depois de despontar de um sono curto. Jaz adormecido, em nada destruído, podendo mesmo contar-se-lhe os ossos ou descobrir-se-lhe a anatomia de homem adulto, antes vigoroso e potente. Poderia também corresponder à pose rigorosa de um bailarino a representar um morto, mas sem conseguir esconder a ossatura fantástica de um corpo esguio e atlético, esculpido pelos músculos e despojado, temporariamente, do sopro vital. Percebe-se quanto Almada era um apaixonado pela dança e pela coreografia, tendo-se desdobrado numa profusão de expressões artísticas, que convocava amiúde – umas e outras – nas suas obras. Até a Sétima Arte se pressente neste vitral: no suspense de um instantâneo capturado ainda inerte, mas concebido para viver. Não pertence ao submundo dos que jazem sem vida:

Vitral da capela de Nossa Senhora da Piedade,  na Igreja de Nossa Senhora de Fátima. 

Naquela hora de suprema dor, a figura maternal de Maria guarda a última réstia de energia para amparar o corpo dilacerado do filho querido, voltando-o para nós, em oferecimento. No mesmo abraço com que o enche de ternura, deixa-o também a descoberto, por nós. A Mãe do condenado começa logo a estender a maternidade a todos os humanos, segundo a missão que Jesus lhe confiara, minutos antes. As lágrimas ter-se-ão confundido com o «sim» mais sofrido e generoso dos muitos que lhe foram sendo pedidos, até ao fim. Inteiramente debruçada sobre Ele, parece também homenageá-lo. Sem saber, antecipa uma homenagem à magna obra da Criação, pois o Filho irá, finalmente, resgatar a condição humana dos grilhões da morte. Na Pietá de Almada, Cristo está pronto a reerguer-se e, com Ele, toda a humanidade. 

Pardal Monteiro elogiou o contributo brilhante do pintor modernista: «No vitral, no mosaico, na pintura mural e até no ferro, o seu talento produziu obras que o colocam definitivamente no primeiro plano dos renovadores e dos impulsionadores da arte nacional (...) Pela colaboração que me deu, pelo muito que enobreceu e valorizou a minha obra, eu testemunho mais uma vez a minha admiração e o meu reconhecimento àquele a quem o meu colega Cottinelli Telmo chamou o mais arquitecto dos pintores portugueses, o pintor Almada Negreiros».

Em Almada, a vida é para ser celebrada, como convida a Páscoa. Não é por acaso que não há figuras horrendas na sua obra, nem feios repugnantes, nem aleixões desagradáveis ou quaisquer seres que perturbem a festa da existência, num artista que não se esquivou a representar toda a sorte de gentes. Ricos e pobres, esculturais e desfavorecidos, ninguém quebra a harmonia incrível que transborda dos seus trabalhos. Mas para lá da beleza daquela arte, chega-nos uma realidade vista por um olhar refrescante e vitamínico. Até por isso é imperdível a exposição (que merecerá um gin mais detalhado). Um bom exemplo desta positividade está no descritivo cinematográfico do naufrágio, algures por Moledo e exposto na segunda área de exposição, no andar abaixo. Não houve susto nem desgosto que não provocasse nova alegria. Não houve personagem ridícula ou irritante que não acabasse por fazer sentido na história. Para os múltiplos dilemas desencantou sempre uma óptima solução, pelo que todos adoraram rever o malfadado desastre através da brincadeira tão saudável que Almada lhes preparou, desintoxicando uma memória pesada. 

Voltando à Páscoa: outra perspectiva forte e lúcida da ressurreição vem de Rembrandt, quase científico na sua abordagem. Segue à risca os Evangelhos, relatando a partir dos testemunhos da época. Para representar o regresso à vida – uma mensagem, já de si, bem arrojada – percebe-se que fazer luz sobre o mundo invisível se tornou incontornável. O ciclo natural dos acontecimentos não chega para reproduzir aquele episódio de desfecho insólito. O estranho terramoto, à hora exacta da morte do Crucificado, emitiu um primeiro sinal, reconhecido logo pelos soldados romanos. O excesso de familiaridade com condenações brutais não lhes permitia iludirem-se sobre a estranheza do que ali viram e ouviram, pelo que o centurião foi peremptório: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!» (Mt.27, 54). Talvez por isso, o pintor flamengo não tenha hesitado em centrar-se nos anjos que participaram na explosão de vida que irrompeu da mortalha de Cristo, como um segundo big bang do Cosmos, incontrolável para os soldados dos fariseus e príncipes dos sacerdotes, que se limitaram a presenciar, estarrecidos, uma realidade desconhecida:

Rembrandt, «Ressurreição de Cristo», 1639. 
No museu de pintura de Munique – Alte Pinakothek. 

Nada mais revelador e interpelativo do que percorrer a História pelo olhar dos artistas. Boa Páscoa a todos! 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

__________________
     
Título da mostra: «José de Almada Negreiros: Uma Maneira De Ser Moderno».


16 abril 2017

1º Domingo de Páscoa

EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

15 abril 2017

Pensamentos Impensados

Por ser altura de recato, hoje não se publicam os Pensamentos Impensados. Desejo a todos os leitores uma Santa Páscoa.

SdB (I)

14 abril 2017

Sexta-feira Santa



Pietà 


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.


Sobre o golpe sem fundo do meu lado 
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.


Depois, a noite de uma outra vida 
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;


Mas o teu pranto, pela noite além, 
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

Miguel Torga


Nota: imagem enviada por mão amiga

13 abril 2017

Desterro

(...)
Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 


***


Florentino pousou o livro sobre as pernas e sorriu. Não o fez para ninguém em especial, porque estava sozinho no alpendre. Talvez tenha sorrido para si próprio, ou, quem sabe, tenha devolvido o sorriso com que o destino lhe pregara esta partida. De facto era uma partida: logo ele, um homem tão voltado para a cidade, para o espaço urbano, para as praças e para a circulação frenética das pessoas, para a vida de bairro e das lojas pequenas, herdar uma propriedade no meio do Alentejo. Mas que raio vou eu fazer aqui?, perguntou-se o engenheiro civil com um doutoramento em estruturas anti-sísmicas e coleccionador de boquilhas.

Florentino tinha passado o primeiro fim de semana na quinta. Passara a chamar-lhe desterro, não em homenagem ao bairro lisboeta, mas em sinal de pessimismo militante, como se fosse um político anti-regime condenado à extradição para ambientes inóspitos. Para ele havia o comércio local e as sedes do partido; para ele, também, havia o correio da manhã e os jornais chamados de referência. Tudo estava ligado - havia uma linha ténue, invisível, imperceptível para a maioria das pessoas, que unia a loja das revistas, a relojoaria de segunda mão e a padaria regional ao correio da manhã. Como? Como algo que veicula - talvez mesmo que é - o país real. Nas sedes dos partidos, no jornais de referência, nos restaurantes de autor e nos grandes hotéis a via era feita de artificialidade, de existências pintadas a blush e a botox, de cores que não são as existentes na natureza. Olhou em volta e não viu comércio local nem vida bairrista. Olhou em volta e não viu, simplesmente... Era um cego, de olhos lucidamente abertos, ou um esperto que olha para o vazio. 

Florentino olhava para o sobreiro, para a giesta, para a secura, para o pastor e para o eucalipto com o mesmo desespero com que se olha para a declaração do iva, para uma multa de trânsito ou para uma análise de sangue que revela excessos. E quedava-se mudo, imaginando uma venda ao desbarato, como quem despacha uma loja de gelados herdada de um tio louco e emigrante no Alasca. Decidiu-se pela venda, tendo partilhado a decisão com Veronika, uma namorada alemã muito recente, em Portugal a fazer um trabalho sobre a comida dos ganhões nos anos 60, e que cozinhava com primor e arrojo. Tomada a decisão, sentaram-se a jantar. Veronika apresentou-lhe um prato que cheirava divinamente. Perguntou-lhe o que era mas a rapariga, a dominar ainda mal o português, respondera-lhe apenas: roter gabeldorsh. E Florentino comeu e repetiu e sentiu-se bem. E só percebeu que comera um prato que toda a vida detestara quando Veronika lhe perguntou:

- O que quer dizer fui até ao campo com grandes propósitos?

Talvez não fosse tempo de vender.

JdB        


12 abril 2017

Duas Últimas

Ontem fui sozinho ouvir dois requiem - o de Fauré e o de Mozart. Há quem ache que um requiem é violento, quanto mais dois...

A música não me provoca sentimentos depressivos, como já devo ter escrito por aqui várias vezes. Oiço música triste quando estou alegre, sendo que a inversa também é verdadeira. Se estiver muito triste não fico mais por ouvir música triste, nem recorro a música alegre para puxar por mim acima. Ouvir dois requiem é, portanto, um exercício inócuo do ponto de vista do ânimo, sendo que não é do ponto de vista da elevação do espírito.

Conhecia partes do Requiem de Fauré. Acheio-o bonito, talvez muito triste. O Requiem de Mozart é bonito, triste, inspirador, espectacular, lindíssimo, comovente. Talvez seja, para mim, uma das três obras de arte mais fantásticas da história da música - são quase 60 minutos de beleza.

Deixo-vos com dois excertos de cada um dos requiem.

In Paradisum:

Que os anjos te recebam no paraíso;
e que os mártires te esperem
e te levem até à cidade Santa, Jerusalém.
Que o coro dos anjos te receba
e com Lázaro, que foi pobre,
tenhas repouso eterno

JdB



11 abril 2017

Textos dos dias que correm

Basílica da Sagrada Família, Barcelona, Espanha | PlusONE/Bigstock.com
Ao longo dos tempos, a Igreja teve uma preocupação especial pela beleza, arte, arquitetura e liturgia, por serem formas muito poderosas de acompanhar pessoas no seu caminho de fé. O próprio conceito de fé é de que vai para além da realidade visível e concreta do dia a dia. O ser humano foi criado com vontade, intelecto e alma, ensina S. Tomás. Todas precisam de ser tratadas se queremos ajudar as pessoas a avançar na sua compreensão de Deus. Neste contexto, a palavra "compreensão" vai para além do puramente intelectual, envolvendo também o nosso lado mais emotivo. Só as palavras, ou só a lógica intelectual, ou só experiências emocionantes não são suficientes para colher algo do próprio ser de Deus. Por um lado, Deus não pode ser plenamente explicado e descrito através do nosso intelecto ou raciocínio intelectual. Ele permanece sempre um mistério inefável para nós, porque Deus é sempre maior, como Santo Anselmo nos recordou. Por outro lado, há modalidades através das quais nos podemos aproximar do coração desse mistério. Ao fazê-lo, avançamos no nosso caminho de fé em direção a Deus.

A beleza, arte, arquitetura e liturgia não são apenas poesia para os iletrados. São meios poderosos em que a presença e essência de Deus se exprimem e experienciam, ainda que Ele seja basicamente o ser inefável que é. Neste sentido, também há "ferramentas" poderosas para os responsáveis pelo acompanhamento de pessoas. Isto inclui os jovens de hoje, porque apesar de o número de visitas a museus e teatros poder estar em declínio, a beleza, arte, arquitetura e até a liturgia falam uma linguagem poderosa que pode ser compreendida sem muita explicação anterior. Estas "ferramentas" existem para serem experienciadas, e assim ajudam a pessoa a avançar no seu caminho para Deus. Isto corresponde-se com um importante elemento do acompanhamento, em que a pessoa que acompanha deve retirar-se de tempos a tempos e «deixar que o Criador lide diretamente com a criatura», como dizia Santo Inácio de Loyola. Obviamente isto não significa que quem acompanha só deve ir atrás e responder ao que é experienciado. Há ocasiões onde é precisa uma liderança clara. Acompanhamento quer igualmente dizer orientação espiritual no sentido de ajudar a ver mais além, caminhar à frente onde necessário. Quando aos jovens são dados apenas alguns elementos fundamentais para melhor lerem e compreenderem a beleza, a arte, a arquitetura e a liturgia, podem apreciar melhor a sua mensagem mais profunda, deixando essas "ferramentas" ajudarem-nos a aproximarem-se do mistério de Deus.

A liturgia tem uma função de ponte entre o ser humano e Deus. Ainda que a forma da liturgia seja feita pelo homem, a sua essência vem diretamente de Deus. Por exemplo, a maneira como celebramos a Eucaristia é o produto de um desenvolvimento ao longo dos tempos, mas a essência do que Jesus disse aos discípulos para fazerem em sua memória nunca mudou. A liturgia é um momento precioso onde Céu e Terra estão muito perto, como poderosamente se expressa no canto do Santo. A liturgia fala a todos os sentidos humanos: por exemplo, a escuta de palavras e música, o cheiro do incenso e do óleo perfumado, a visão da beleza e dos símbolos, o tocar e o beijar da cruz ou das relíquias, o gosto do pão e do vinho. A liturgia dirige-se a todo o ser humano, tal como fomos criados por Deus. Ele sabe melhor que nós o que precisamos e o que é importante nas nossas vidas. Na liturgia, arte e arquitetura desempenham o seu papel mais elevado: as ideias que transpiram são canalizadas para uma só mensagem, o amor de Deus por cada ser humano e o seu desejo de que todos respondam positivamente ao seu convite.

No desenho para a basílica da Sagrada Família [Barcelona], o arquiteto espanhol Antoni Gaudí pretendeu criar uma construção que honrasse Deus em cada detalhe, e ao mesmo tempo expressasse a grandeza do seu plano amoroso de salvação para todos os que a visitassem. Ao fazê-lo, Gaudí criou uma monumental estrutura de evangelização. Sendo ele próprio um devoto cristão, desejou que outros encontrassem o amor de Deus e quis que o seu trabalho contribuísse para tal. Por isso, ainda hoje, o turista que olhe para uma das torres da basílica inadvertidamente louva Deus quando lê "Sanctus, Sanctus". O visitante que leve tempo a contemplar uma das fachadas reconhecerá que a história que narra vai para além do seu ou da sua experiência na Terra. E quem entrar na nave será atingido pela luz, pelas formas orgânicas, a grandeza e a naturalidade com que o olhar é dirigido para o espaço central da igreja, o altar onde a liturgia é celebrada.

A modalidade mais forte em que beleza, arte e arquitetura se juntam nesta obra-prima de Gaudí é aquando da participação numa das grandes liturgias celebradas na basílica. Nesse momento tudo se reúne: enquanto cada um dos sentidos está a ser abordado e ajuda a reconhecer a presença de Deus, a arquitetura como um todo aponta apenas para uma direção, a do amor do próprio Deus. Neste sentido, a basílica da Sagrada Família é um grande exemplo de como beleza, arte, arquitetura e liturgia podem ser hoje poderosos aliados no acompanhamento de jovens no seu caminho com Deus.


Fr. Michel Remery
In "Simpósio sobre acompanhamento de jovens (Conselho das Conferências Episcopais da Europa)"
Trad.: SNPC
Publicado em 31.03.2017

10 abril 2017

O filósofo

Eva sentou-se num lugar discreto daquela mesa rectangular onde tudo se passaria. Do lado esquerdo dela, uma rapariga feia, vagamente gótica - ou apenas excêntrica - alheia a tudo, excepto a imagens da internet que lhe pareciam substancialmente sado-masoquistas. Rapariga que intervinha com frequência errática para dizer inutilidades rebeldes, como se o seu cérebro fosse uma dormência enfeitada de graffitis inestéticos. Do seu lado direito, uma senhora já idosa, a sorrir quando os outros sorriam, a concentrar-se quando os outros se concentravam, a rir muito quando os outros riam muito. Intuiu-lhe a surdez e a necessidade de parecer atenta, integrada, moderna, actualizada ao nível do momento imediato, porque o futuro é matéria incerta para todos.

Eva apanhou o cabelo frondoso no alto da cabeça com um lápis por afiar - uma pequena barra de grafite envolta em madeira gravada com um nome comercial. Abriu os olhos para ver, a boca para manifestar o espanto, as mãos para receber a energia que transitava naquela sala de aula. E preparou-se para ter duas horas de êxtase perante aquele professor que falava do filósofo - um substantivo que não carecia de nome, pois o filósofo era o filósofo, não um filósofo. E aquele professor sabia tudo - o enquadramento histórico, o pensamento pioneiro, a originalidade da construção frásica, a estrutura dual do raciocínio transformado em sistema vedado aos desatentos. À medida que o professor deambulava pelo tempo e pela circunstância, o fascínio de Eva crescia de forma abundante e enérgica. Na sua mente já se misturavam sentimentos - o filósofo e o professor, o pensamento de quem cria e a voz de quem comunica, como se fosse impossível discernir se o fascínio está em Mozart, se na orquestra que interpreta o seu Requiem inacabado. Quando deu por si, confundia a mensagem e o mensageiro, e não porque houvesse um nexo causal entre ambos, uma vez que entre carta e carteiro existe uma relação contratual apenas, e um professor poder ser apenas isso - o prestador de um serviço imaginado por outros. Talvez pelo tal filósofo.

Quando deu por si, supôs que o professor fixara o lápis, o nariz aquilino, as sobrancelhas talvez demasiado finas, a boca aberta de desejo e necessidade de oxigénio, as mãos que anseiam percorrer terrenos alheios, uma camisola decotada e umas pernas magras e pequenas que ele imaginava nervosas por baixo de uma mesa que já não tinha marca FOC. Quando deu por si, imaginou que o professor lhe tiraria o lápis para apreciar o cabelo a cair em cascata nuns ombros desnudos. E Eva, no seu máximo discernimento possível, sentiu-o a desejá-la, percebeu-lhe o fetiche pelo lápis que seria uma espécie de abre-te sésamo para tudo o que viria a seguir - uma estudante e um professor, a sensação excitante de perverter uma ordem institucional e saudavelmente pedagógica, o gozo antecipado de se imaginar alvo da inveja de colegas que a imaginariam a conviver, no mesmo instante, com uma barba eroticamente rala e uma inteligência fulgurante e criativa. Já passara da fase ingénua de achar que a noite prometia. A noite confirmava-se!

A faculdade estava quase abandonada quando Eva assomou ao gabinete do professor. Percorreu o corredor largo e minado de informações académicas - defesas de tese, mostras de teatro de vanguarda, lutas pelos direitos dos animais em locais onde as crianças crescem mal nutridas, disponibilidades de explicações sobre esperanto ou chinês da época azul. Tinha posto uma saia curta e tirara mentalmente as medidas da secretária de fórmica onde se sentaria para conversar sobre o filósofo, para, sabe-se lá, acabar por deitar-se não conversando sobre nada, porque há alturas em que um gemido é superior a uma frase eloquente. Toda ela tremeu ao ouvir o professor encetar um monólogo dentro do gabinete: este filósofo? Um pateta sobrevalorizado, sem uma pensamento alinhado com outro, um homem que só pertence aos cânones americanos porque quem faz as listas agora são os hispânicos e os negros. Na Europa não se falaria dele. Só faço seminários sobre ele porque faz parte do contrato. Uma bela estopada, digo-te... 

Eva imaginou um equívoco qualquer, uma partida, uma ensaio de auto-contradição, um teste para aprender a contra-argumentar. Ninguém falaria assim do seu filósofo! Empurrou a porta de mansinho... Lá dentro, o seu professor, de costas para a entrada, revelava umas algemas que lhe apertavam os pulsos e quatro marcas de vergastadas numas nádegas pálidas raiadas de vermelho. As calças, enrodilhadas de volta dos tornozelos, tolhiam-lhe os movimentos, como se fossem umas grilhetas todas feitas de terylene. Ao lado, a rapariga gótica, de olhos maquilhados de muito negro a revelarem uma dormência mental toda feita de vácuo, dizia-lhe de forma agreste: se falas outra vez nele levas uma vergastada... É isso que queres?  E o professor falava e musculava as nádegas, para receber mais outro castigo...

JdB         
   

09 abril 2017

Domingo de Ramos

LEITURA II – Fil 2,6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

***

Abrem-se, com a leitura da Paixão do Senhor (Mateus 26, 14 - 27, 66), os dias supremos, os dias de que derivam e a que conduzem toda a nossa fé. Dias que fazem ainda apaixonar.

Quereis saber algo de vós e de mim? - pergunta o Senhor. - Dou-vos um encontro: um homem na cruz. A cruz é a imagem mais pura e mais alta que Deus deu de si mesmo. E todavia é uma pergunta permanentemente aberta.

E ainda antes do encontro de Jesus houve outro, mas em baixo. Que cinge uma toalha e se inclina para lavar os pés aos seus. Quem é Deus? O meu lava-pés. De joelhos diante de mim. As suas mãos sobre os meus pés.

Verdadeiramente, como Pedro, gostaria de dizer: deixa, para, não faças assim, é demasiado. E Ele: sou como o escravo que te espera, e no teu regresso te leva os pés. Paulo tem razão: o cristianismo é escândalo e loucura.

Deus é assim: é beijo a quem o trai, não quebra ninguém, quebra-se a si próprio. Não derrama o sangue de ninguém, derrama o próprio sangue. Não pede mais sacrifícios, sacrifica-se a si mesmo. É invertida toda a imagem, todo o medo de Deus. E é isso que nos permite voltar a amá-lo como apaixonados, e não como submissos.

A suprema beleza da história aconteceu fora de Jerusalém, sobre a colina, onde o Filho de Deus se deixa pregar, pobre e nu, a um lenho para morrer de amor. Pedra angular da fé cristã é a coisa mais bela do mundo: belo é quem ama, belíssimo quem ama até ao fim.

Compreendeu-o primeiro não um discípulo mas um estrangeiro, o centurião pagão: verdadeiramente este era filho de Deus. Não de um sepulcro que se abre, não de uma fulguração de luz, mas na nudez daquela sexta-feira, vendo aquele homem na cruz, no patíbulo, no trono da infâmia, um verme ao vento, um soldado experimentado na morte diz: verdadeiramente este era filho de Deus. Viu alguém morrer de amor, compreendeu que é coisa de Deus.

Havia por lá muitas mulheres que observavam ao longe. Naquele olhar, luzente de amor e de lágrimas, naquele agarrar-se com os olhos à cruz, nasceu a Igreja. E renasce a cada dia em quem tem para Cristo, ainda crucificado nos seus irmãos, o mesmo olhar de amor e de dor. Que circula nas veias do mundo como uma poderosa energia de Páscoa.

"Do fim", de Jan Twardowski: «Começa da Ressurreição/ Do sepulcro vazio/ Da Nossa Senhora da Alegria/ Então até a cruz se alegrará.../ Não façais de mim uma choramingas/ Diz Nossa Senhora/ Foi assim uma vez/ Agora é diferente/ Começa do sepulcro vazio/ Do sol/ O Evangelho lê-se como as letras hebraicas/ Do fim».


Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad. / edição: SNPC

Publicado em 06.04.2017

08 abril 2017

Pensamentos Impensados

Frieiras
Sou capaz de suportar temperaturas muito baixas, principalmente quando como gelados.

Capilaridades
Champô para carecas com instruções para seguir à risca.

Jornalices
Hoje em dia, os jornalistas escreveriam “Jesus Cristo, alegadamente, ressuscitou Lázaro”.

SdB (I)

Textos dos dias que correm

Falar de silêncio pode parecer (ou talvez seja) contraditório. Mas se se pensar que o silêncio é o contrário do ruído, do estrondo, da conversa e do desperdício de palavras, da comunicação compulsiva e ininterrupta, das músicas a tocar sempre e em todo o lado, então tem-se a impressão que só ao pronunciar a palavra "silêncio" o coração se distende e a mente se abre.

Direi por isso que se do silêncio já não se fala, se é temido, se é excluído, se é exorcizado, então no nosso mundo de viver e pensar talvez haja alguma coisa que não está bem e alguma coisa se perdeu.

Prestar atenção exclusiva e prolongada a qualquer coisa fá-la existir, torna mais real a realidade, submersa pelo ruído de fundo da nossa imparável tendência para a distração múltipla interativa.

Os artistas, os filósofos, os cientistas, quem acredita em Deus ou simplesmente quer pensar, todos, para focalizarem uma ideia ou uma imagem mental, têm de calar, pelo menos algum tempo, a fastidiosa e devorante tentação de pensar ao mesmo tempo noutra, ou em duas ou três ou dez outras coisas. Desligar, "silenciar", por exemplo, os telemóveis e dispositivos informáticos comunicativos cria um contacto inédito consigo próprio.

Sobre tudo isto o norueguês Erling Kagge, editor, viajante, explorador (Polo Sul, cabo Horn, Ásia Central, etc.), escreveu um pequeno, útil e estimulante livro cujo título é precisamente "O silêncio", e o subtítulo, na edição em italiano, abre um mundo que se está a tornar inexplorado: "Um espaço da alma".

«Em média perdemos a concentração a cada oito segundos: a distração é atualmente um estilo de vida, o entretenimento perpétuo um hábito. E quanto encontramos o silêncio, vivemo-lo como uma anomalia; em vez de o apreciar, ficamos incomodados. Erling Kagge, ao contrário, do silêncio fez uma escolha», lê-se no resumo da obra.

Em lugares isolados do planeta «aprendeu a tornar seus os espaços e os ritmos da natureza, e a imergir num silêncio interior, mais do que exterior: um imenso tesouro e uma fonte de regeneração que todos possuímos mas que é difícil atingir, imersos como estamos no barulho da vida diária».

Desde as primeiras linhas o tema é assim enunciado: «Só quando percebi que tenho uma íntima necessidade de silêncio, pude colocar-me à sua procura: nos meus mais íntimos recantos, sob a cacofonia do ruído do trânsito e dos pensamentos, da música e das máquinas, dos iPhone e dos limpa-neves, esperava-me o silêncio».

Uma vez que lhe tinha sido pedida uma conferência, decidiu escolher o silêncio como tema, mas percebeu que defini-lo requeria algum trabalho. Trinta e três capítulos oferecem outras tantas definições, histórias e recordações pessoais. A conclusão é esta: «É possível encontrar o silêncio em todo o lado. Trata-se de proceder por subtração». A experiência será surpreendente. O silêncio obtém-se omitindo e evitando tudo o que não o é.


Alfonso Berardinelli
In "Avvenire"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 07.04.2017

07 abril 2017

Viagens dos dias que correm


Tinha estado em Marrocos, pela primeira e única vez, em 2000, numas férias de família no Club Med de Smir. Nessa estadia fomos a uma terra próxima, não me lembro do nome, que me deixou as piores impressões - porcaria, mau cheiro, pobreza, talvez demasiada gente a pedir. Foi com algum temor, por isso, que fui a Marraqueche.



A surpresa não pode ter sido melhor nem maior. Marraqueche é uma cidade limpa, desafogada, com um trânsito moderadamente caótico, com avenidas largas e bonitas e centros comerciais pejados de lojas razoavelmente boas, que não deslustram. Não se vê miséria, pobreza, pedintes, lixo espalhado. As pessoas são simpáticas e educadas, faltando-lhes apenas um módico de civismo que os levaria a parar nas passadeiras ou a não enganar o próximo, por vezes, como nos táxis, de forma tão infantil. Marraqueche tem, além disso, belíssimos restaurantes, com um serviço esmerado e qualidade inexcedível. Lembro, a propósito, um restaurante onde fomos, e que serviu uma tagine de borrego e uma tagine de galinha com cebola caramelizada de se ir aos céus. E há praças arranjadas com esplanadas onde apetece estar. 



Em suma, Marraqueche é um destino muito convidativo, tendo um argumento fortemente a favor: a viagem de avião demora cerca de 1 hora e 10 minutos, talvez um pouco mais. 




JdB

06 abril 2017

Daquilo que me comove

Nestes encontros da comunidade que, nas diversas frentes, luta contra o cancro pediátrico, há sempre alguma coisa que me comove. Já foram as histórias de crianças que lutaram e venceram ou lutaram e perderam; já foram as histórias dos Pais que nunca baixaram os braços ou que encontraram um sentido para a sua vida; já foram as histórias das fragilidades das pessoas, como daquela médica que, treinada para curar, não sabia como dizer a um adolescente ou a uma criança que iriam morrer.  

Jardins de Majorelle, Marraqueche, onde era a casa de Yves St. Laurent (Abril 2017) 

Ontem, no fim da cerimónia de abertura do encontro - uma cerimónia demasiado longa e menos animado do que poderia ser - realizou-se um cocktail nos jardins do hotel.

(E tenho de fazer um parêntesis para contar uma história breve: à saída da sala, um senhor idoso e de bengala aproxima-se de mim com um sorriso franco e aberto, dizendo-me em francês: professeur blablabla? Eu digo que não, que deve ter confundido. Ah! Bien sur, je m'excuse...  No decorrer do beberete dirijo-me à presidente do SIOP -África (Societé International d'Oncologie Pédiatrique) para lhe fazer uma pergunta. Abre-me um sorriso franco, estende-me a mão e diz-me. Steve? Enfim, ontem não era ninguém, apenas pessoas que se parecem vagamente comigo...) 


Jardins de Majorelle, Marraqueche, onde era a casa de Yves St. Laurent (Abril 2017) 

Retomo o texto. Já no fim da noite, colega sul-africano apresenta-me a um médico inglês que, após 30 anos como médico de família em Inglaterra, decide ir viver para os Camarões como oncologista pediátrico voluntário, o que já de si parece ser extraordinário. Falamos sobre os Camarões, sobre a religião do país, a influência inglesa ou francesa, a curiosidade dos norte dos países africanos, mesmo os do sul, terem uma influência muçulmana. Não resisto a fazer-lhe uma pergunta particular: o que o motivou a ir? Foi a ciência, o dinheiro, ou houve qualquer coisa de mais transcendente, de cariz religioso, missionário ou outro? E falei-lhe no médico de Lampedusa (cuja entrevista ao Observador vale muito a pena ser lida, pelo que lá está e pelo que se deduz) da angústia dos sacos onde estavam os cadáveres, da vocação pelo mar. E falei-lhe dos sinais e das coincidências e do serendipismo e da minha filha e de se ser oncologista pediátrico com netos ou filhos pequenos... 

O médico sorriu, meio envergonhado, quase, e falou que sim, que era também isso, que a igreja que o apoia nos Camarões, veio ele a saber, tinha a mesma génese que a igreja dele, e que nascera na sua terra natal. E eu dei por mim mais envergonhado que ele, a fugir, quase, da conversa, para não lhe falar no sentido da vida, no Viktor Frankl, no Céu ou nos anjos, nos sinais e nas coincidências significativas, em tudo aquilo que nos vai comovendo durante uma vida inteira e que só nós, ou outros muito raros, conseguem decifrar. Despediu-se de mim simpaticamente, perguntando-me o nome, dizendo que sim que tudo o que eu dizia fazia muito sentido. Mas eu já estava de esguelha, de lenço na mão, feito pateta, perante um homem que nunca vira, e que se calhar não verei jamais.

Há-de haver quem me entenda, mas África tem um je ne sais quoi...

JdB     

05 abril 2017

Das pequenas ingenuidades

Depois de ter sido eleito para o Conselho de Curadores ou Conselho de Administração (Board of Trustees) da Childhood Cancer International, encetei algumas conversas com colegas com quem tinha mais confiança, com quem havia uma empatia mais acentuada. O objectivo era simples: ter informações mais ou menos privilegiadas, de quem estava por dentro da organização; saber o que corre bem, o que pode ser melhorado; o que são as sensibilidades das várias pessoas, como se articulam, de volta da mesma mesa, realidades tão distintas como EUA, Chile, Índia, Espanha, África do Sul, Nova Zelândia ou Austrália; por último, mas não menos importante, tentar saber porque me convidaram para o lugar, uma pessoa que intervém pouco nestas conferências internacionais, mas cuja presença se destaca pelo tamanho.

Tenho 20 anos de cultura de multinacional. Sei o que são os jogos de poder, as estratégias pessoais, as pequenas ou grandes traições, as lutas por uma promoção ou por uma notoriedade. Vivi essa realidade, fui vítima ingénua dessa realidade. O meu mindset mudou bastante quando entrei no mundo das IPSS, onde não havia razão para essas trapalhices. Afinal, todos lutávamos pelo mesmo: o bem-estar do nosso semelhante, no meu caso crianças indefesas. Qual não é o meu espanto, portanto, quando no decorrer de uma conversa com um colega com quem / por quem tenho à-vontade, confiança e simpatia e respeito, ele me diz de fulano: tem uma agenda pessoal. E depois me diz de beltrano: tem uma agenda pessoal. E em conversa com outro colega ele me diz de sicrano: tem muito poder nos bastidores.  O que são as agendas pessoais? Simplesmente ambicionar um lugar mais importante na organização, tantas vezes à custa de mais trabalho, nem mais dinheiro nem mais estatuto que lhe valha. 

Sou um ingénuo. Dei por mim esquecido de que onde há Homens há fragilidades ou desejos ou motivações. Achei que o mundo era mais perfeito (e não deixa de ser por causa destas pessoas específicas) e que, quando se trata de solidariedade, todos damos a camisa pelo nosso próximo, nem que para isso tenhamos de ver outro mortal com a sua camisa vestida. A minha ingenuidade talvez advenha do facto de não ter qualquer agenda pessoal - não quero, na realidade, ser mais do que aquilo que sou, porque a minha vida e a minha vontade, diga-se em bom rigor, também não o solicitam. Estou bem em ser presidente de x e membro da direcção de y, mas também estou bem se deixar de ser. A minha vaidade é outra, as minhas aspirações são outras. Levo a mal as ambições dos outros? Não, se isso não implicar falta de ética.


Ontem jantámos - éramos cerca de 50 pessoas - como parte da conferência que juntará, nos próximos dias, associações de pais, sobreviventes, médicos, profissionais de saúde e outros para falar sobre a oncologia pediátrica em África. Olhei para todos, até para aqueles de quem me disseram ter uma agenda pessoal ou muito poder nos bastidores. Não vi nada. Vi apenas, juntamente com os outros companheiros de guerra, uma vontade e uma dedicação à causa. Vi apenas espírito de serviço, vontade de ajudar quem sofre num hospital quando devia brincar numa escola. Talvez a agenda pessoal dessas pessoas seja essa, temperada por uma saudável ambição que nunca matou ninguém.

JdB     

04 abril 2017

Vai um gin do Peter’s?

Em entrevista recente, o historiador Rui Ramos considerava Fátima o maior epifenómeno de massas do século XX, em Portugal. No espaço de décadas, ultrapassou fronteiras, internacionalizando-se amplamente. Observava ainda a estranha omissão na análise histórica, comparando-o ao elefante na sala que se teima em ignorar. Talvez o silêncio se deva à sua natureza tão atípica para os manuais de história, que se cingem aos grandes acontecimentos militares, às alterações do regime político e questões afins, além das mega turbulências económico-financeiras. Ora, Fátima não é catalogável em nenhum deles, apesar das tentativas de ingerência política sem impacto relevante.

Basta chegar à Cova de Iria para perceber que naquele lugar as regras são outras. Um pequeno sintoma disso está no comportamento dos próprios peregrinos. Os milhares de pessoas – de todas as idades, raças e as mais remotas proveniências – que ali procuram paz e protecção vêm e permanecem numa atitude de humildade e escuta, que não se encontra em nenhum outro sítio. Aliás, não é desse modo que a maioria das mesmas pessoas se comporta nos sítios de onde vem. A confusão de gentes num espaço tão apertado, em vez de aumentar a tensão e gerar conflitos abertos, inspira antes boa vontade, para lá das incontáveis desorganizações e aselhices. Mesmo nos dias de grande afluência, onde superabundam os encontrões e atropelos, respira-se uma paz profunda. Não há memória de cenas de pancadaria em Fátima, apesar do desconforto que se pode viver nas alturas de enchente, como durante as cerimónias das 6 Aparições aos Pastorinhos.

Há uns anos, recuando às suas memórias de militante comunista do núcleo duro do PCP, Zita Seabra contou a sua experiência in loco, quando Álvaro Cunhal a escalonou para ir até lá investigar o assunto. Algures, entre 1974 e 1977, teve de ir passar o dia à povoação, onde se cruzou com muita gente mas não percebeu nada. Passou um dia chatíssimo sem conseguir extrair elações interessantes, excepto de que ali – embora houvesse quem interessasse, e muito, ao PCP – não havia condições para nenhuma acção política capaz. Era um território perdido do ponto de vista “operativo”. Aquelas gentes teriam, antes, de ser abordadas nas terras de origem, pois em Fátima tornavam-se impermeáveis a outras vozes, para lá da única que ecoa dentro da alma, inconfundível como é sempre a voz da mãe. Rematou Zita: o PCP deu o dossier Fátima por encerrado, concluindo que era para ignorar olimpicamente. Contou  apenas que ficasse confinado à Serra d’Aire. Foi um azar que, passado um par de anos, ganhasse proeminência internacional, precisamente pelo voluntarismo desastrado da URSS. Estávamos a 13 de Maio de 1981, logo após os tiros mortíferos disparados no Vaticano contra o Papa João Paulo II… A história é conhecida, como conhecidas são as ligações do homicida turco à polícia secreta búlgara, obedecendo às ordens do Kremlin.


Às 17h17, dois estampidos ensurdecedores ecoaram no Vaticano. No relato da Rádio Vaticano: «os fiéis aterrorizados choram, ajoelham-se, rezam o terço». A 17 de Maio de 1981, falando para a televisão, a partir da sua cama na Clínica Gemelli, o Papa disse: «Peço pelo irmão que me feriu, a quem perdoei sinceramente». Ao longo do seu pontificado, São João Paulo II repetiu: uma mão disparou a bala e outra a desviou, «Nossa Senhora de Fátima salvou-me a vida».


Segundo um vaticanista italiano: o processo mais extenso escrito sobre Fátima pertence aos arquivos do Kremlin. Fala do que viu, registado em dossiers pousados na secretária de um ministro russo, nos anos 80. Mal se iniciou a Glasnost tentou consultá-los, mas já não estavam acessíveis. A estranha afinidade de datas, entre as Aparições e a Revolução de Outubro, ajudarão a explicar o interesse da URSS pela história de Fátima. Quando, em 2007, a RTP pediu acesso ao arquivo soviético para uma reportagem noticiosa, o pedido foi indeferido, tendo sido adaptado o conteúdo do programa a um conjunto de entrevistas a ex-prisioneiros vítimas de perseguição religiosa, assim como ao testemunho de russos sobre o efeito da mensagem da Cova de Iria durante o tempo da repressão, que perdurou até 1985. O documentário, da autoria da vaticanista portuguesa Aura Miguel, intitulou-se «Fátima na Rússia» e incluiu também os depoimentos da jornalista do Washington Post –  Anne Applebaum, do Cardeal Kasper responsável pela unidade dos cristãos e do ex-director da agência noticiosa soviética Tass.


A 25 de Outubro dá-se a segunda fase da Revolução Russa, iniciada em Fevereiro, quando Lenine destitui pela força o governo provisório, que tinha sido eleito. 


Desde o minuto zero que todo o fenómeno de Fátima foi surpreendente e inusitado, para dizer o menos. Por exemplo, no episódio da prisão, planeado pelo presidente da Câmara de Ourém para acabar com o estranho sururu causado por três criancinhas ignorantes e umas alegadas aparições do Céu, tudo lhe correu da pior maneira. Nem sequer vergou os pequeninos, apesar da violenta pressão exercida sobre eles, com interrogatórios um a um, ameaças de torturas terríveis como fritá-los em óleo a ferver. Também não demoveu as multidões, que continuaram a afluir ao local, apesar de os Pastorinhos faltarem a 13 de Agosto, por estarem encarcerados.  Mas, pior de tudo: em vez de erradicar aquela devoção popular, angariou, inadvertidamente, mais devotos. E logo os mais improváveis e à margem da sociedade em todos os sentidos: os presos. Conseguiu esse inédito de, pela primeira vez na história das múltiplas aparições marianas, os pobres presos receberem a notícia em primeira mão, dada pelos videntes. Um privilégio, por erro de cálculo do tal presidente anti-clerical, conhecido pela sua virulência sem limites. Ao fim da tarde, na cadeia, instituiu-se o hábito de se congregarem junto aos miúdos e, de joelhos, rezarem o terço conduzido pela voz mansa dos 3 mini-prisioneiros. Entretanto, em redor dos Pastorinhos, instalou-se um rodopio na cadeia: uns a chorar de arrependimento, outros a querer aprender a rezar, outros apenas a consolá-los. O ambiente punitivo e repressivo eclipsou-se em favor de uma relação fraternal. Volvida uma semana, a força dos factos não deixou margem para mais veleidades, pelo que as crianças foram rapidamente retiradas da prisão. No dia 19 deu-se a Aparição de Agosto, assistida por uma multidão que crescia de dia para dia. 

Num flash-back bem narrado sobre o «dossier Fátima», segue um excerto de um artigo de 26 de Março, gentilmente cedido pelo autor: 



«Este ano do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima é uma boa ocasião para perceber o que aconteceu. Uma fonte são as «memórias da Irmã Lúcia», uns cadernos que ela escreveu, cada vez que o Bispo lhe pedia um relatório mais específico sobre algum aspecto. Em geral, não lhe apetecia pegar na caneta, mas acabava sempre por escrever páginas cheias de pormenor. Encarava aquele exercício como longas cartas de resposta ao Bispo ou ao Reitor do Santuário, sem pensar que, no final, poderiam ser publicadas. Talvez porque as comunicações não eram fáceis naquele tempo, as «memórias» saíram em livro antes de lhe pedirem a opinião. Paciência! Não era bem a intenção da autora, mas já não havia nada a fazer.

Um dos pontos notáveis da história de Fátima é a reacção dos dois pastorinhos. Sendo ainda tão novos (a Jacinta tinha 7 anos e o Francisco 9), eles confiaram totalmente em Deus, com uma intensidade heróica. Fizeram-nos sofrer muito, suportaram ameaças gravíssimas, mas, em vez de ficarem abatidos, cada vez confiavam mais, com uma serenidade que contagiou multidões.

Um dia, o Administrador de Ourém, anti-clerical furioso, fechou as crianças num quarto prometendo que, a seguir, as ia queimar vivas. No momento em que estavam à espera do destino fatal, umas lágrimas correram pelas faces da Jacinta, de 7 anos: «Eu queria sequer ver a minha mãe!». «Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão dos pecadores?», pergunta-lhe a prima. «Quero, quero!» e, com as lágrimas ainda a banharem-lhe as faces, faz o oferecimento. Os outros presos, que presenciaram a cena, comoveram-se. Quando os três pastorinhos começam a rezar o Terço, todos ajoelharam e alguns, que sabiam a oração, rezaram também. No final, para distrair as crianças ameaçadas de morte, os presos começaram a tocar harmónica, a cantar e a dançar. A Jacinta foi então o par de um pobre ladrão que, vendo-a tão pequenina, terminou a bailar com ela ao colo. A história de Fátima é um nunca mais acabar de emoções e de ternura.

A propósito de ajoelhar, ouvi várias testemunhas presenciais contarem que, em Outubro (de 1917), quando se deu o milagre, os mais devotos fecharam os guarda-chuvas e ajoelharam, apesar de o chão estar coberto de lama. No final, os que tinham ajoelhado estavam limpos e enxutos e os que se tinham protegido da chuva estavam encharcados…

Fotografia tirada em Fátima, a 13 de Outubro de 1917

Graças a Fátima, ajoelharam os peregrinos com fé, os ladrões de Ourém e até os intelectuais ateus. Quando se deu o milagre do Sol, Afonso Lopes Vieira saboreava o vento e o mar em S. Pedro de Moel, sem o mínimo interesse pelo que pudesse acontecer na Cova da Iria, a 40 km de distância. De repente, viu o Sol mudar de cor e mexer-se. Depois, veio a saber que o mesmo tinha acontecido em Fátima e converteu-se. Foi ele quem escreveu a letra do conhecido hino de Fátima.»
José Maria C.S. André

Publicado a 26-III-2017 in ABC Portuguese Canadian Newspaper, 
Correio dos Açores, Verdadeiro Olhar, Spe Deus, Clarim, O Alcoa


 Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Hino de Fátima composto por Afonso Lopes Vieira:



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