15 dezembro 2013

3º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mt 11,2-11
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo
e mandou-Lhe dizer pelos discípulos:
«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»
Jesus respondeu-lhes:
«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.
E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».
Quando os mensageiros partiram,
Jesus começou a falar de João às multidões:
«Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento?
Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas?
Mas aqueles que usam roupas delicadas
encontram-se nos palácios dos reis.
Que fostes ver então? Um profeta?
Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta.
É dele que está escrito:
‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
para te preparar o caminho’.
Em verdade vos digo:
Entre os filhos de mulher,
não apareceu ninguém maior do que João Baptista.
Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».

14 dezembro 2013

Pensamentos impensados

Falências
Os primeiro bancos a abrir falência foram os que Jesus Cristo derrubou quando expulsou os vendilhões do templo.
 
Burrices
Ouvi e li, no canal TV do Correio da Manhã, PAIS NATAIS.
Se alguém vir um presépio sem burro, é porque foi para redactor do Correio da Manhã.
 
Paternidade
O Menino Jesus adoptou S.José como seu Pai.
 
Nojo
Um toiro que parta um corno, põe luto; fica a meia haste.
 
Anatomias
A veia é uma artéria onde circula o sangue.
 
Ditados
Se não fosse o amarelo, o que seria do mau gosto.
Se não fosse o dedo médio, o que seria do mau gesto.
 
Modas
Odeio a barba por fazer e os jeans rasgados.
É o nivelar por baixo.

SdB (I)

13 dezembro 2013

Das dúvidas

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão


As minhas dúvidas formam um sistema.

No seu livro Atlas do Corpo Humano e da Imaginação (Caminho, 2013), Gonçalo M Tavares cita Wittgenstein na frase que encima este texto. O assunto interessa-me. Vivemos, metaforicamente, numa época de pontos de exclamação, não de pontos de interrogação. Nas reuniões, nos encontros sociais, nas conversas, parece não haver lugar para a pergunta ou para a dúvida. Não parecemos interessar-nos muito, nem pela vida dos outros, nem pelas grandes questões que nos poderiam interpelar interiormente. Optamos por afirmar, como se perguntar encerrasse uma dimensão de fragilidade intelectual que nos envergonha exibir. Ou uma coscuvilhice pelas vidas alheias que fingimos não ter, sei lá eu...

Escreve Steiner, ainda referido por Gonçalo M Tavares: não há, na verdade, muito a ganhar por perguntar, mais uma vez, qual a quilometragem até à lua ou qual é a fórmula para fazer ácido clorídrico. Nós sabemos as respostas. (…) Não há respostas terminais, resolubilidades últimas e formais para a questão do sentido da existência humana ou do significado de uma sonata de Mozart ou do conflito entre consciência individual e condicionamentos sociais.

O que pode ainda descobrir aquele que sabe sempre as respostas? Não falo de informação, mas de conhecimento. Não interessa tanto o nosso produto interno bruto ou que propostas se fazem para baixar o iva da restauração, por mais importantes que sejam estes temas. Saber isso é saber o que sabem todos os outros, é saber o que está disponível nas enciclopédias ou nos jornais da especialidade. O essencial, afirma ainda GMT, é o que nunca termina de ser respondido. Por isso temos de continuar a perguntar, como uma actividade que tende para o infinito.

Noutro plano da nossa existência, estou ingenuamente certo do que digo: a grande partilha entre as pessoas faz-se por via da pergunta, da dúvida, da inquirição, da reflexão em voz alta. Perguntar e ouvir são actividades emocionais, mais do que cerebrais porque, em vez de indicarem um caminho, convidam o outro para uma caminhada conjunta. Mais do que saber todas as respostas, é importante fazer todas as perguntas. E só o sábio (ou aquele que a isso aspira) pergunta, porque só o sábio reconhece a sua ignorância.

Hesitar é um sinal de fraqueza nos dias que correm. Precisamos de afirmar à saciedade (e também à sociedade) que sabemos o que queremos e para onde vamos. Não pedimos ajuda, não queremos uma opinião, não desejamos uma parcela ínfima do coração ou da inteligência alheia para nos indicar uma luz. Afirmar é, talvez, uma das palavras do ano. Ou da década. Ou, quem sabe, da geração. Porque não há quem não o faça, sem saber que afirmar por sistema é não sair do mesmo sítio, é não circular em redor do que não tem resposta, do que não está ainda decidido, do que ainda nos confronta (…).

GMT cita Steiner que explica uma ideia fundamental de Heidegger: a errância, a peregrinação em direcção ao que é digno de ser questionado, não é aventura e sim voltar-a-casa.

JdB

PS: alertam-me que a profusão de citações (quatro…) pode conferir ao texto uma presunção bacoca. Em minha defesa alego que estou a ler o livro do GMT e que, no espaço de duas ou três páginas, ele cita estes filósofos. Optei por inclui-los porque as frases compunham o meu texto. Em bom rigor, nunca li Heidegger ou Wittgenstein.
   

12 dezembro 2013

Colar de pérolas (1)*



Naquele dia, não lhe apetecia ver ninguém. O espelho, em dias maus, pode ser a pior coisa com que um tipo se pode deparar, logo pela manhã. Apesar de tudo, o café continuava a levar açúcar, como nos outros dias. E a mulher do talho a soltar piropos pouco envergonhados. "Quem não nos conhece que nos compre", pensava em voz baixa. E a verdade é que eles compravam. Discos, entre outras coisas menos simples.

gi.

(* Com base nas 20 músicas, editadas em 2013, que mais lhe agradaram, quaisquer que sejam os motivos, o meu querido amigo gi. escreveu vinte textos acompanhantes. A sair rotineiramente neste estabelecimento.) 

11 dezembro 2013

Concurso de escrita criativa



Segue abaixo, para os que mantêm uma inexplicável persistência em ler-me, a minha segunda contribuição para o concurso de Escrita Criativa em que me inscrevi. De um 61º lugar ex aequo na primeira semana, passei para um decente 21º lugar, também ex aequo (entre 150 concorrentes), com este texto. O desafio era: escreva uma narrativa sobre o medo, em que uma das personagens se chame Andreia e tenha 35 anos.  

***

O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos.
Para que precisamos dos olhos, se o essencial se vê com o coração?
Porque não assumimos o tacto como a extensão privilegiada da mente para identificar as coisas materiais e os contornos humanos?
Porque não escutamos com atenção, decifrando os ruídos que identificam os pássaros, as emoções audíveis, os movimentos da terra e das pessoas?
Porque não usamos o olfacto como o usam os animais que tudo identificam pelo cheiro, como se mais nada fizesse falta para deambularem pelo mundo na sua felicidade sem fingimento nem dissimulação?
O mundo é feito de excessos: dinheiro, comida, prazeres carnais, obras de arte, amigos, livros, publicidade, telenovelas, enganos da realidade, carros em circulação, níveis de radioactividade, fotografias digitais. Dentro de nós são os sentidos e os seus descomedimentos. Nada parece chegar para esta voragem colectora de bens e sentimentos.
Como conseguimos abarcar tudo isto num cérebro que definha sem retorno, numa memória que se esgota como bem precioso, numa alma cuja existência suscita dúvidas? Como arrumamos os cheiros, as texturas e as formas, os sons da natureza e dos gatos, dos motores potentes e das conversas? Como guardamos o contorno de umas costas ou de uma mão calejada se não for de olhos fechados? O que fazemos com esta panóplia de sensações que nos invade e ocupa os espaços livres de uma máquina envelhecida? Porque não conseguimos fechar uma assoalhada do cérebro, viver num espaço diminuto, alcançar tudo com uma mão aberta?
Cresci sem medo. Talvez um destemor, uma indiferença aos perigos que espreitam em cada esquina, em cada pessoa, em cada circunstância. Talvez uma ousadia no desafio à vida. ‘Uma imprudência’, dizem-me. Talvez.  
Toco, cheiro, oiço. Desenho imagens, adivinho sinuosidades do outro, encosto os barulhos a quem os produz, ligo os risos a uma boca bem desenhada, a uns dentes brancos com uma assimetria elegante. Passo os dedos por um corpo esculpido de humores e cheiros. Sinto-lhe o peito, as coxas musculadas, adivinho-lhe tudo.
Não tenho medo de nada. Não receio voar, nadar na imensidão do oceano, correr na direcção do precipício, parar um instante antes da queda.  
O meu nome é Andreia, e tenho 35 anos. Cega de nascença, a técnica devolve-me hoje, quando o sol se puser no fio do horizonte, a visão que nunca tive. Nada receio, nem sequer o meu destemor. Só tenho medo da desilusão. Ou do excesso.

JdB

10 dezembro 2013

Duas últimas

Fui ver/ouvir Júlio Resende ao vivo, a desafio do Gonçalo M Tavares, no Clube do Fado. Nunca o tinha ouvido e, confesso, voltei a ouvi-lo pouco, não fosse ter aparecido no meu iPod e terem tornado a falar-me dele.

Ainda não consigo dizer que gosto muito ou que detesto, porque estou a habituar-me. Menos ainda ajuizarei da qualidade do cavalheiro, porque não tenho ciência para o avaliar. Por aquilo que tenho ouvido dizer é bom. Talvez mesmo muito bom.

Deixo-vos com Júlio Resende a tocar e Amália a cantar "Medo", um fado com música de Alain Oulman e letra de Reinaldo Ferreira.

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

JdB


09 dezembro 2013

Vai um gin do Peter’s?

Na contagem decrescente para o Natal, os tempos de crise têm a pequena vantagem de puxar menos pelo frenesim dos presentes e dos preparativos consumistas, dando-nos mais folga para saborear a magia da quadra, onde a solidariedade entra na ordem do dia.

No Porto, a Câmara lançou-se numa iniciativa bem original, abrindo o Museu Soares dos Reis para um encontro (a 6 de Dez.) onde os oradores foram os sem-abrigo. A ideia partiu da réplica de dois participantes, num Seminário realizado a 20 de Abril, sobre interajuda, em que sugeriram a uma das funcionárias municipais presentes que ouvisse os sem-abrigos, se queria intervenções realistas e compreensíveis!

A partir da queixa, indirecta, a Câmara resolveu levar o desafio a sério e organizar um evento que desse voz aos mais desfavorecidos. Curiosamente, estes preferiram focar-se na arte, e nem tanto no rol de reivindicações e protestos que, legitimamente, poderiam ter acumulado! Até nisso, deram uma grande lição ao país, onde tantos – com muito menos motivos – quase só sabem usar os microfones para reclamar e exigir financiamentos (do erário público, claro).

O principal Museu portuense era o local certo para reunir toda a cidade. O mote foi «Uma vida como a arte: existimos, somos pessoas». O convite foi distribuído pelos sem-abrigo, nos dias antes, oferecendo flores de papel a quem passava! Muito poético, corajoso e comovente, vindo de quem sobrevive a custo!

Seguindo o percurso interior que os 3 Tempos ensinaram ao forreta do velhinho Scrooge, na noite de Natal, também a humildade e a urgência em reavaliar a nossa vida entram na ordem do dia.

Desta vez, a lição chega-nos pelo sr. nespresso, George Clooney, no filme do mexicano Alfonso Cuarón –  «GRAVIDADE»(1).


Contracenando com Sandra Bullock, somos atirados para a estratosfera, mergulhando na escuridão silenciosa e avassaladora da galáxia. Operários de luxo, os dois astronautas-mecânicos de naves e sondas, entregam a sua vida (mesmo!) para concertar um equipamento com falhas técnicas chatas. O mais pequeno esforço para apertar um parafuso ou, simplesmente, respirar a milhares de kms da terra, vira uma façanha.

O realizador faz-nos acompanhar cada segundo de toda aquela acrobacia espacial, partilhando a tenacidade e bravura dos dois, que Clooney tenta aliviar com piadas de esplanada, mas sem perder o fito da sua vigilância exigentíssima. Tornando simples e, aparentemente, comezinha, a grandeza do seu cargo de sentinela, em local tão inóspito, George vela pela sobrevivência dos dois com o rigor de um militar, mas a pureza cândida das crianças que se contentam em viver intensamente o presente saboreando a vida, além da enorme humildade de quem se limita a cumprir a sua obrigação. Ainda que seja uma questão de vida ou de morte… Mas nada de poses melodramáticas ou sequer heróicas! Nenhuma bravata nos gestos mais radicais e magnânimos. Nenhuma voz dura ou punitiva, por as suas ordens não terem sido devidamente acatadas, com consequências trágicas. Nenhuma intervenção mais acalorada nas investidas titânicas para transmitir ânimo e gosto pela vida à pessoa que lhe estava confiada. Nenhum desabafo pesado, na hora derradeira, para além de meras observações sobre a paisagem soberba, embora letal, nas profundezas da via láctea, a uma altitude irrespirável.




Tudo prosaico e despojado, como se a missão fosse de somenos e ele até fosse um rapaz desengraçado, a quem fizessem falta olhos azúis e outros atributos que lhe permitissem distinguir-se no meio de uma multidão (e das grandes; nada abaixo da escala chinesa, s.f.f.)…

Em cenário de ficção científica, a história trata, afinal, da mais elementar, embora prioritária, das preocupações humanas: o sentido da existência e o lugar de cada um no universo afectivo, antes mesmo de o localizar na geografia do cosmos. Por isso, ninguém ali é suposto armar em herói ou extravasar a circunstância do comum dos mortais, valendo as personagens enquanto porta-vozes de qualquer um de nós. Daí o papel atribuído a Clooney, um habitué neste perfil das gentes mais anónimas do planeta, “apenas” ávido de passar boas dicas ao próximo, sobretudo por um testemunho magnânimo e modesto. Numa das tiradas transmitidas à recém estreada médica espacial, exasperada de lutar pela vida, consegue incutir-lhe fôlego para tentar sobreviver: «I get it, it's nice up here. You could just shut down all the systems, turn down all the lights, just close your eyes and tune out everyone. There's nobody up here that can hurt you. It's safe. What's the point of going on? What's the point of living? Your kid died, it doesn't get any rougher than that. It's still a matter of what you do now. If you decide to go then you just gotta get on with it. Sit back, enjoy the ride, you gotta plant both your feet on the ground and start living life. Hey, Ryan, it's time to go home.» Aliás, a presença de um par de vozes, naquele cenário de silêncio petrificante, resultou no melhor estímulo para a astronauta recusar o circuito de desespero a que tinha cedido e bater-se pelo regresso a casa. A chegada ao areal que se cola à pele de Bullock, depois de mergulhar no magnífico lago Powell, lembra o gosto especial da vida humana, testemunhada por um dos anjos, no filme soberbo de Wim Wenders – «Asas do Desejo».

Como assume o realizador de GRAVIDADE, em resposta às observações de um astrofísico americano sobre as pequenas incorrecções visuais do filme: «Tentámos ser tão precisos quanto podíamos, no âmbito da nossa ficção. Mas, no fundo, esta ficção é uma viagem emocional, mais do que qualquer outra coisa».



No Porto, os preparativos do Natal foram ainda mais longe, procurando chegar a todos, bem ao modo do convite que chegou aos párias da sociedade judaica, que pastoreavam junto a um povoado das franjas do Império Romano – Belém.
Em Lisboa, a Via da Alegria promete ajudar-nos a entrar no espírito da época, na tarde do Sábado, 21 de Dezembro, descendo do Príncipe Real (concentração às 15h45) para o Chiado (www.presepionacidade.org). 
Algures no espaço, George Clooney é inspirador, até mesmo por causa do desafio interior que o Natal nos lança.  

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
GRAVITY
Título traduzido em Portugal:
GRAVIDADE

Realização:
Alfonson Cuarón (mexicano)
Argumento:
Alfonso Cuarón e Jonas Cuarón
Produzido por:
Warner Bros. Pictures
Director de Fotografia: 
Emannuel Lubezki
Banda sonora:
Steven Price (que colaborou no “Senhor dos Anéis”)
Duração:
91 min.
Ano:      
2013
País:
EUA

        Elenco:

Sandra Bullock  (astronaut-médica Ryan Stone)
George Clooney (astronauta Matt Kowaski)
Ed Harris   (posto de controle da Nasa, em voz-off) 
Orto Ignatiussen (voz de chinês interceptada no rádio de uma das naves)
Phaldut Sharma e Amy Warren (mais vozes apanhadas no rádio)   
Sasher Savage (voz do comandante da estação espacial russa)

Locais das filmagens:

Lago Powell, Arizona, abóbada celeste.

Site oficial:

http://www. /


Um dos 3 filmes mais vistos do ano.



08 dezembro 2013

Nossa Senhora da Conceição

Nossa Senhora da Conceição, André Gonçalves, 1752 (Palácio Nacional de Queluz)

Consagração a Nossa Senhora


Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.

2º Domingo do Advento - Solenidade da Imaculada Conceição

EVANGELHO – Lc 1, 26-38
 
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
 
Naquele tempo,
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José.
O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo:
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo:
«Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
reinará eternamente sobre a casa de Jacob
e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?».
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».
 

07 dezembro 2013

Pensamentos impensados

Lema dos casinos
No melhor pano cai a nota.
 
Privilegiados
Os primeiros e os segundos estão sempre safos; só se causam prejuízos a terceiros.
 
Politiquinhos
Os jotinhas, dos partidos, são implícita geração ou explícita geração?
 
Politiquês
O que é que ele disse?
Apenas nada.
 
Aluados
Não percebo por que é que os astronautas desceram na Lua tão agasalhados.
Lá não há correntes de ar.
 
Fedores
Mário Soares decano; de esgoto.

SdB (I)

06 dezembro 2013

Rostos dos dias que correm


Moleskine

Luz. Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Fulano diz-me de Beltrano: está a vestir uma pele que não é a dele. Esqueço o caso em apreço, que a particularidade não é para aqui chamada. O que significa, na realidade, vestir uma espécie de pele alheia? Será claro, para cada um, qual é exactamente a sua pele? É aquela com que viemos ao mundo, fruto da genética, do alinhamento dos astros ou de outro factor qualquer, ou é aquela que a educação e a circunstância foram colocando com diligência? Se eu tenho uma característica forte com que nasci e acho que devo mudá-la, significa que tento vestir uma pele que não é a minha? E isso é bom ou mau? E devemos ajudar a pessoa em questão a vestir outra pele, ou devemos alertá-la para o facto de que, na realidade, está a vestir outra pele?  

***

Apanho, num livro que terminei de ler, um conceito  (porque a frase já se esvaiu): quando um homem está incomodado (ou fragilizado, ou diminuído, ou magoado…) refugia-se nas suas memórias de infância. Dei por mim a pensar no que eram as minhas memórias de infância: quais são os locais, quem está lá, o que sinto, o que vejo ou oiço. Até onde recuo para sentir o conforto dos dias negros? Talvez algumas das minhas nostalgias estejam relacionadas com esse desejo de infância, e não sejam apenas um feitio de velho carregado de um saudosimo pateta e neurasténico. 

***

Numa das aulas da pós-graduação, o Gonçalo M Tavares propôs aos seus alunos o seguinte exercício: caracterizar, em dez palavras, o que para nós era uma bicicleta. O meu espírito algo quadrado simplificou mentalmente o esquema: cinco palavras referiam-se a componentes do objecto (raios, travões, etc.) e as outras cinco a sensações (aventura, rua, etc.). Houve quem apresentasse dez palavras 'mecânicas', houve quem não apresentasse nenhuma, só revelando 'sensações', como por exemplo 'vento', 'pai', 'liberdade'. O exercício é curioso e prende-se, de alguma forma, com o que referi anteriormente. O que são as nossas memórias de infância onde nos enroscamos quando a caminhada é mais agreste? Que dez palavras usaríamos para descrever a 'nossa' bicicleta? E o que diz isso de nós?

JdB  

05 dezembro 2013

Crónicas de um mestrando tardio*



Vale a pena começar por referir o que Strawson diz de MacIntyre:
“Alasdair MacIntyre é talvez a figura fundadora no campo da moderna Narratividade... ‘A unidade de uma vida individual’, diz ele, ‘é a unidade de uma narrativa incorporada numa vida única. Perguntar “o que é o bem para mim?” é perguntar quão melhor eu poderia ter vivido essa unidade e tê-la levado até ao fim... ‘A unidade de uma vida humana’, continua ele, ‘é a unidade de uma demanda narrativa... [e] o único critério de sucesso ou de falhanço numa vida humana como um todo é o critério de sucesso ou de falhanço numa demanda narrada ou narrável... Uma demanda de quê? ... uma demanda do bem ... a vida boa para o homem é uma vida despendida na procura de uma vida boa para o homem”.
***
Retomemos então o enunciado do problema – a observação de um rebanho de gado a pastar (na apreciação de Nietzsche) e a sua relação com a “tese da narratividade ética”. Apesar do simplismo da frase, como conseguimos relacionar uma ovelha que rumina num campo com a demanda de um homem por uma vida boa?
Segundo o filósofo alemão, a ovelha esquece-se (ou não tem capacidade de memorizar?), não leva nada consigo quando regressa ao aprisco. Vive sem passado, totalmente contido no presente. Vive a-historicamente. Além disso, não tem qualquer capacidade de dissimular ou de esconder o que quer que seja – é honesta. Aqui, nesta incapacidade de lembrança e de fingimento, reside aquilo que no animal provoca inveja ao homem, aquilo que parece ser a felicidade cobiçável de uma vida vivida momento a momento.
Como se relaciona esta ideia com a “tese da narratividade ética”? Relaciona-se, porventura, pelo contraste. A ideia subjacente à existência de uma ovelha está mais próxima do conceito de vida Episódica defendida por Strawson. Os Episódicos não se consideram como algo que existiu num [outro] passado e que existirá num [outro] futuro.  De uma forma radical, poderíamos dizer que a ovelha é o Episódico irracional.
Ora, MacIntyre defende exactamente o oposto. “E a unidade de uma virtude na vida de alguém só é inteligível como característica de uma vida unitária, uma vida que pode ser concebida e avaliada como um todo”. MacIntyre é o Diacrónico ético. Não o diacrónico que sabe que existiu no passado e que existirá no futuro, mas o diacrónico que entende que “a unidade de uma vida humana é a unidade de uma  demanda narrativa”.  Demanda de quê? Uma demanda do bem.  
Para MacIntyre, uma vida mal vivida, isto é, sem narrativa, como episódios desligados, não vale a pena ser vivida. Não comparamos esta ideia com a de um rebanho, porque seria perda de tempo, mas comparamo-la com uma espécie de ideal de felicidade de que a ovelha é detentora, porque é desprovida de lembranças, de aborrecimento e de dor.
MacIntyre, pelo contrário, não fala de felicidade no capítulo 15 do seu livro After Virtue. Em momento algum é referido o que faz um homem feliz. Mas, mesmo correndo o risco do despropósito, poderia fazer-se aqui um jogo de palavras com uma expressão usada várias vezes por MacIntyre: good life, que poderia ser traduzida como vida boa, mas também como boa vida. As mesmas duas palavras, invertidas, transmitem conceitos completamente diferentes.
O que goza a ovelha, desprovida da tal lembrança, aborrecimento e dor? Em havendo pasto e um aprisco decente, goza uma boa vida, na sua existência feita de momentos presentes - “como um número sem resto” - sem dissimulações e detentora de uma aparente e louvável honestidade. Ora, a narratividade ética que MacIntyre defende é a que garante ao homem uma vida boa, porque despendida na procura do bem.  
A ovelha tem uma existência passada. Mas o homem nasce com passado. Além disso, o que distingue ambos, no sentido deste ensaio, é a capacidade de o homem perceber que, antes de perguntar: “o que devo fazer?”, se deve questionar: “de que história faço parte?” E esta história tem de ser composta, não por episódios soltos, mas por uma coerência unitária que lhe confira um sentido. A ovelha não a tem. Assim como não tem quem quiser viver como a ovelha – sem memória, sem aborrecimento, sem dissimulação ou fingimento. A ovelha não vive feliz, porque a ovelha, em bom rigor não vive. A ovelha existe.
Quanto à demanda, diz MacIntyre: “é no decurso da demanda, e pelo facto, apenas, de encontrarmos e lidarmos com os vários males, perigos, tentações e distracções que proporcionam a qualquer demanda os seus episódios e incidentes, que o objectivo da demanda é finalmente entendido. “
A demanda encerra em si duas vertentes: um telos, isto é, uma finalidade, um propósito, e aquilo que refere MacIntyre: “... uma educação, quer quanto à natureza do que é procurado, quer em termos de autoconhecimento”.
Uma ovelha não procura nada, para além de um pasto que lhe satisfaça a necessidade básica. Não existe nela a dimensão de demanda, no sentido medieval do termo, com todas as suas vantagens e desafios. Invejarmos a ovelha na sua a-historicidade é invejarmos uma espécie de ser humano episódico levado ao extremo, concebendo um dia vivido de cada vez, sem noção de antes nem depois. Por outro lado, um homem semelhante ao animal de Nietzsche não deve ser invejado por uma pretensa honestidade,  porque nele não há valores morais ou éticos, apenas abulia. 
Não chega sermos diacrónicos, num certo sentido de Strawson. Temos de acrescentar-lhe o ético, para que tudo na nossa vida possa ser ligado por um fio onde estão os dias da nossa existência, mesmo que esse fio incorpore as fraquezas, os desvios, as memórias, os aborrecimentos, as dores ou as falhas. Um fio, para que a nossa vida seja uma unidade, na procura da vida boa. A ovelha – ou aquilo que ela representa - não tem esse fio. Falta-lhe o passado e o futuro éticos.

JdB

* Quinto e último ensaio deste seminário

04 dezembro 2013

Diário de uma astróloga - [66] - 4 de Dezembro de 2013

O longo trânsito de Marte em Balança – Parte I - Saúde

Marte é o planeta da força vital; representa a capacidade e a vontade de sobreviver, assim como o princípio da acção, da afirmação e agressividade. Competição, desporto e sexo são assuntos ligados a Marte. É o planeta da força, da conquista, da luta. O metal que lhe está associado é o ferro. O planeta vermelho, com o nome do deus da guerra, está arquetipalmente relacionado à cor vermelha e ao sangue. Marte representa também o que nos faz ficar zangados, o que nos irrita. 

Marte por trânsito passa normalmente dois meses em cada signo. De dois em dois anos tem um movimento retrógrado e nessas épocas permanece durante um período mas longo no signo em que ficou retrógrado. Quando o início do movimento retrógrado acontece no fim de um signo, a estadia de Marte nesse signo prolonga-se. E é exactamente isto que acontece agora. No dia 7 de Dezembro às 20.42 GMT Marte entra em Balança, signo onde fica até 26 de Julho.


Marte em Balança … durante 7+ meses!



É um acontecimento relativamente raro: no século passado, Marte esteve em Balança durante períodos comparáveis só em 1934/1935 e em 1981/1982.

O ciclo de Marte (23 meses) é o grande regulador de energia e, por isso, os seus trânsitos têm implicações na forma como sentimos o corpo, isto é, na nossa saúde.

Quando Marte em trânsito está perto do Marte natal, a força vital está no seu máximo, a energia é maior do que o habitual, há vontade de fazer desporto, de estar activo, nada nos cansa. Quando Marte em trânsito está por signo em oposição ao Marte natal, a energia está no seu mínimo. É como se os dois lutadores estivessem a puxar uma corda para lados opostos. Durante esse período, que varia entre 45 a 60 dias, sentimo-nos mais moles, precisamos de descansar, e notamos que as constipações não se curam facilmente, que aquela tosse chata não se vai embora.

Nesta próxima conjuntura, Marte por trânsito passa 231 dias em Balança, e as pessoas com o Marte natal em Balança vão sentir esse fluxo extra de energia. Fico satisfeita pelo Papa Francisco e  pelo Dalai Lama, dois grandes homens que lutam (Marte) pela paz e equidade entre os seres humanos (Balança). Creio que esta dose extra de força vai ser benéfica também para a humanidade.

Atenção a quem tem Marte natal em Carneiro, pois vão sentir durante mais de 7 meses a oposição por signo de Marte em trânsito. A vossa energia vai estar enfraquecida. DEVEM DESCANSAR. Normalmente possuidores de um alto nível de energia, são mais susceptíveis do que todos os outros a não ligar nenhuma aos sinais de cansaço. “Cansaço não conheço”. Sem consciência desta falta de energia, a sua habitual atitude “just do it” impede-as de se concederem uma pausa para recarregar baterias, o corpo fica mais débil e as doenças oportunísticas aparecem. O sistema imunitário fica mais fraco e ficam mais susceptíveis a contágios. 

Estou absolutamente segura dos efeitos debilitantes do trânsito de Marte em oposição ao Marte natal por já os ter comprovado “n” vezes comigo própria e com clientes.  

A explicação médica dos efeitos da oposição de Marte em trânsito ao Marte natal é uma mera hipótese. Não tenho forma de a comprovar cientificamente, mas não posso deixar de fazer uma analogia com o metal regido por Marte. O ferro, apesar de estar presente no corpo humano numa percentagem mínima, é um elemento chave do nosso organismo e necessário para o bom funcionamento do sistema imunitário. 65% do ferro do nosso corpo está presente na hemoglobina que faz parte dos glóbulos vermelhos, os quais são essenciais no transporte do oxigénio dos pulmões, via sangue, para os tecidos. Níveis baixos de hemoglobina indicam anemia cuja causa mais frequente é a falta de ferro. 

Que fique bem claro que não considero que Marte provoque doenças!

Amigos, clientes, leitores com Marte em Carneiro: nestes próximos 7 meses, se quiserem, controlem o vosso nível de ferro mas, sobretudo, ouçam o vosso corpo para não ficarem doentes. Evidentemente que não podem parar de fazer a vossa vida mas, quando sentirem sensações de fadiga ,DESCANSEM. Uma sesta não mata ninguém. Não minimizem as informações que o vosso corpo vos dá. 

A mecânica celeste concede-vos este período de menos actividade para recarregarem as vossas energias e não para despenderem energias. Poupem-se agora e retirarão os benefícios com força para dar e vender quando Marte entrar em Carneiro a 20 de Fevereiro de 2015.

Na Parte II falarei sobre o impacto de Marte em Balança nos relacionamentos.

Luiza Azancot

03 dezembro 2013

Duas Últimas

Quase no final de 2013, um ano muito difícil para tanta e tanta gente, mas em que também muita gente desconhecida, muito português, ajudou e ajuda o outro numa dimensão que ela própria desconhecia, apetece perguntar como foi possível Portugal deixar-se chegar até aqui.

Naturalmente que a resposta não é fácil nem óbvia. Mas uma coisa é certa, a crise nacional vem de longe, muito longe. Diria que desde finais do século XVIII, desde a célebre tríade igualdade, liberdade, fraternidade importada da revolucionarite regicida francesa, foi sempre a piorar. Fomos jogando cada vez mais o jogo dos fracos, dos direitos com poucos deveres, das pequenas e grandes traições, das negações das raízes da nossa Nação milenar, até à situação actual em que nos colocámos, de total dependência e subserviência daqueles que pouco se importam connosco, excepto quando o nosso mal estar os puder de alguma forma afectar.

Só por má fé se pode porém dizer que os actuais governantes deveriam ser, eles especificamente, julgados pelos seus actos. Se revisitássemos a história, não sendo preciso ir muito longe, e se semelhante regra aplicássemos, rapidamente verificaríamos que a justiça ainda mais entupida ficaria se chamasse a prestar contas tantas incompetências e traições de que essa mesma história mais ou menos recente sobejamente dá provas.

Períodos houve de algum bem-estar, designadamente após a adesão à então CEE, todavia fruto sobretudo de bens e riquezas não gerados por nós. Emprestados, portanto, com hipoteca da soberania nacional. Sendo certo que por definição os empréstimos são para pagar, assim alguns aprendem logo desde pequeninos, o momento inevitável da reversão haveria de chegar. Apressado pela crise de contornos mais ou menos idênticos que alguns próximos também não evitaram.

A culpa da “medonha situação”, essa é dos outros, sobretudo dos que fizeram o que tinham de fazer e trataram de se acautelar, nossa é que não.

Pena que pouco se tenha aprendido de grandes escritores como Herculano, Eça, ou Torga, para só referir alguns, que descreveram e impiedosamente malharam nos enormes vícios endémicos das governações, pois os mesmos perduram e nalguns casos até se agravaram.     

Aqui vos deixo com uma música de Sérgio Godinho, compositor e intérprete de referência a nível nacional, de finais dos anos 60 do século passado para cá (autor de vasta obra, o nosso Bob Dylan), para tentar demonstrar que, em áreas diferentes, sou no mínimo tão multifacetado como ele……

Espero que apreciem.

fq




02 dezembro 2013

Fórmula para o caos

A Europa e a Realidade*
Em meados de 2005, que para o assunto em questão, foi há muito tempo atrás, Mark Leonard, especialista inglês em política internacional, publicou um livro chamado Século XXI – A Europa em Mudança. Livro esse que, ironicamente, previa a liderança do mundo por parte da Europa nos tempos vindouros. Leonard, imprimindo um evidente idealismo, considerava que o Modus Vivendi do velho continente, com destaque para o seu património cultural e intelectual, bem como pela relativa coesão social, seria adoptado, num futuro não muito longínquo, pela maioria dos países do mundo.
Contudo, apesar das benignas previsões do jovem inglês, nada se concretizou. Com o despertar da crise financeira de 2008, fortemente induzidos pelas diretrizes de Bruxelas, os governos europeus incorreram em doses maciças de despesa pública para fazer face ao ciclo económico recessivo. Porém, os gastos governamentais em muito superaram a receita fiscal, tendo como consequência a criação de elevados défices e inevitável incremento da dívida pública. No caso português, de 2005 a 2011, a dívida duplicou. Refira-se que, já muito antes do apogeu da crise, a despesa estatal era considerada elevada relativamente ao produzido pela economia.
No começo do ano de 2010, os investidores entraram numa espiral de desconfiança quanto às reais capacidades de estados como Grécia, Irlanda e Portugal em pagarem a dívida acumulada. A partir desse período, sempre que os tesouros nacionais emitam dívida no mercado, apenas em troca de incomportáveis taxas de juro a mesma era colocada. A situação tornou-se insustentável e os demais países que integram a união monetária, fazendo as vezes dos mercados, contribuíram para um plano de resgate aos estados em apuros. Em troca do auxilio, os governos de Grécia, Portugal e Irlanda comprometeram-se a aplicar exigentes programas de equilíbrio das contas públicas. Como seria expectável, dado a suspensão do sonho europeu em matéria de criação de emprego e estímulos ao investimento e consumo, o palco para o surgimento de partidos populistas, de esquerda e de direita, estava montado. Por um lado, nos países onde foi aplicado a inevitável austeridade, os movimentos políticos de esquerda reclamam medidas que favoreçam o crescimento e combate ao desemprego. Já nos países a cujos cofres públicos foram retiradas consideráveis somas para ajudar os estados endividados, pularam para a ribalta partidos euro-cépticos que, num tenebroso desvario demagógico, aliciam as populações com discursos nacionalistas.
Por tudo o que a realidade demonstra, o auspicioso futuro da humanidade, com centro na Europa, previsto por Mark Leonard, não passa de uma valente utopia.
Pedro Castelo Branco

* artigo inicialmente publicado no site portugueseindependetnews.com

Textos dos dias que correm

Peregrinação de Advento
Primeira semana do Advento, segunda-feira: O que levar
Um presente para pedir a Deus

Peço pelo dom de ser capaz de distinguir entre o que posso querer e o que realmente preciso, pela graça de ser capaz de viajar com pouco peso na minha viagem ao longo da vida.

Uma reflexão para o caminho
Já alguma vez se sentou em cima de uma mala a abarrotar, para a tentar fechar? Ou já alguma vez voltou de férias e só então percebeu que não usou metade do que levou consigo? Tenho sempre a tentação, quando preparo uma viagem, de levar muito mais do que preciso, numa tentativa de ser capaz de responder a qualquer eventualidade. É uma das maneiras de lidar com algum do stress causado por sair de casa, abandonando (mesmo que temporariamente) tudo o que é familiar e confortável.
Porém, especialmente quando se faz uma peregrinação a pé, levar muitas coisas vai tornar-me mais lento e cansar-me mais rapidamente. Por isso é importante verificar cada coisa que me proponho levar. Preciso realmente disto ou passo sem ela? Poderei encontrar ao longo do caminho muito do que vou precisar? Viajar com esta disposição exige uma certa confiança. Mas se eu conseguir essa confiança, a viagem será provavelmente mais fácil e mais aprazível.
Pense na sua viagem entre hoje e o Natal, ou, de maneira mais abrangente, no momento da sua vida em que se encontra neste momento. Do que é que verdadeiramente precisa de transportar consigo? Haverá coisas, pessoas, situações que será melhor deixar para trás? Haverá alguma coisa a ser dita para viajar um pouco mais leve?

Uma passagem bíblica para o caminho
No capítulo 9 do Evangelho segundo Lucas, vemos como Jesus envia alguns dos seus seguidores mais próximos na sua primeira viagem missionária. Ele instrui-os a levar poucas coisas, assegurando-lhes que tudo o que precisarem lhes será providenciado:
«Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. Em qualquer casa em que entrardes, ficai lá até ao vosso regresso.» (Lucas 9, 3-4).
Parece algo impraticável, idealista? É. No entanto, quando pensa na sua própria viagem, como é que esta passagem o pode ajudar a conter a muito humana tendência de tentar levar demasiadas coisas consigo?

Palavras para a viagem
Bom Deus,
pediste aos teus seguidores para viajarem com poucas coisas,
confiando que o que precisassem ser-lhes-ia dado no caminho.
Ajuda-me a pousar alguns dos pesos a que me agarro,
confiando que nada me faltará
na minha viagem para ti e contigo.

P. Paul Nicholson
In An Advent pilgrimage, KM Publishing
Trad.: SNPC

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