sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Moleskine

Luz. Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Fulano diz-me de Beltrano: está a vestir uma pele que não é a dele. Esqueço o caso em apreço, que a particularidade não é para aqui chamada. O que significa, na realidade, vestir uma espécie de pele alheia? Será claro, para cada um, qual é exactamente a sua pele? É aquela com que viemos ao mundo, fruto da genética, do alinhamento dos astros ou de outro factor qualquer, ou é aquela que a educação e a circunstância foram colocando com diligência? Se eu tenho uma característica forte com que nasci e acho que devo mudá-la, significa que tento vestir uma pele que não é a minha? E isso é bom ou mau? E devemos ajudar a pessoa em questão a vestir outra pele, ou devemos alertá-la para o facto de que, na realidade, está a vestir outra pele?  

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Apanho, num livro que terminei de ler, um conceito  (porque a frase já se esvaiu): quando um homem está incomodado (ou fragilizado, ou diminuído, ou magoado…) refugia-se nas suas memórias de infância. Dei por mim a pensar no que eram as minhas memórias de infância: quais são os locais, quem está lá, o que sinto, o que vejo ou oiço. Até onde recuo para sentir o conforto dos dias negros? Talvez algumas das minhas nostalgias estejam relacionadas com esse desejo de infância, e não sejam apenas um feitio de velho carregado de um saudosimo pateta e neurasténico. 

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Numa das aulas da pós-graduação, o Gonçalo M Tavares propôs aos seus alunos o seguinte exercício: caracterizar, em dez palavras, o que para nós era uma bicicleta. O meu espírito algo quadrado simplificou mentalmente o esquema: cinco palavras referiam-se a componentes do objecto (raios, travões, etc.) e as outras cinco a sensações (aventura, rua, etc.). Houve quem apresentasse dez palavras 'mecânicas', houve quem não apresentasse nenhuma, só revelando 'sensações', como por exemplo 'vento', 'pai', 'liberdade'. O exercício é curioso e prende-se, de alguma forma, com o que referi anteriormente. O que são as nossas memórias de infância onde nos enroscamos quando a caminhada é mais agreste? Que dez palavras usaríamos para descrever a 'nossa' bicicleta? E o que diz isso de nós?

JdB  

1 comentário:

Anónimo disse...

Bicicleta:

"um automóvel cansado sonhando em silêncio com a sua infância?"

Um abraço,

Gi.

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