quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Crónicas de um mestrando tardio*



Vale a pena começar por referir o que Strawson diz de MacIntyre:
“Alasdair MacIntyre é talvez a figura fundadora no campo da moderna Narratividade... ‘A unidade de uma vida individual’, diz ele, ‘é a unidade de uma narrativa incorporada numa vida única. Perguntar “o que é o bem para mim?” é perguntar quão melhor eu poderia ter vivido essa unidade e tê-la levado até ao fim... ‘A unidade de uma vida humana’, continua ele, ‘é a unidade de uma demanda narrativa... [e] o único critério de sucesso ou de falhanço numa vida humana como um todo é o critério de sucesso ou de falhanço numa demanda narrada ou narrável... Uma demanda de quê? ... uma demanda do bem ... a vida boa para o homem é uma vida despendida na procura de uma vida boa para o homem”.
***
Retomemos então o enunciado do problema – a observação de um rebanho de gado a pastar (na apreciação de Nietzsche) e a sua relação com a “tese da narratividade ética”. Apesar do simplismo da frase, como conseguimos relacionar uma ovelha que rumina num campo com a demanda de um homem por uma vida boa?
Segundo o filósofo alemão, a ovelha esquece-se (ou não tem capacidade de memorizar?), não leva nada consigo quando regressa ao aprisco. Vive sem passado, totalmente contido no presente. Vive a-historicamente. Além disso, não tem qualquer capacidade de dissimular ou de esconder o que quer que seja – é honesta. Aqui, nesta incapacidade de lembrança e de fingimento, reside aquilo que no animal provoca inveja ao homem, aquilo que parece ser a felicidade cobiçável de uma vida vivida momento a momento.
Como se relaciona esta ideia com a “tese da narratividade ética”? Relaciona-se, porventura, pelo contraste. A ideia subjacente à existência de uma ovelha está mais próxima do conceito de vida Episódica defendida por Strawson. Os Episódicos não se consideram como algo que existiu num [outro] passado e que existirá num [outro] futuro.  De uma forma radical, poderíamos dizer que a ovelha é o Episódico irracional.
Ora, MacIntyre defende exactamente o oposto. “E a unidade de uma virtude na vida de alguém só é inteligível como característica de uma vida unitária, uma vida que pode ser concebida e avaliada como um todo”. MacIntyre é o Diacrónico ético. Não o diacrónico que sabe que existiu no passado e que existirá no futuro, mas o diacrónico que entende que “a unidade de uma vida humana é a unidade de uma  demanda narrativa”.  Demanda de quê? Uma demanda do bem.  
Para MacIntyre, uma vida mal vivida, isto é, sem narrativa, como episódios desligados, não vale a pena ser vivida. Não comparamos esta ideia com a de um rebanho, porque seria perda de tempo, mas comparamo-la com uma espécie de ideal de felicidade de que a ovelha é detentora, porque é desprovida de lembranças, de aborrecimento e de dor.
MacIntyre, pelo contrário, não fala de felicidade no capítulo 15 do seu livro After Virtue. Em momento algum é referido o que faz um homem feliz. Mas, mesmo correndo o risco do despropósito, poderia fazer-se aqui um jogo de palavras com uma expressão usada várias vezes por MacIntyre: good life, que poderia ser traduzida como vida boa, mas também como boa vida. As mesmas duas palavras, invertidas, transmitem conceitos completamente diferentes.
O que goza a ovelha, desprovida da tal lembrança, aborrecimento e dor? Em havendo pasto e um aprisco decente, goza uma boa vida, na sua existência feita de momentos presentes - “como um número sem resto” - sem dissimulações e detentora de uma aparente e louvável honestidade. Ora, a narratividade ética que MacIntyre defende é a que garante ao homem uma vida boa, porque despendida na procura do bem.  
A ovelha tem uma existência passada. Mas o homem nasce com passado. Além disso, o que distingue ambos, no sentido deste ensaio, é a capacidade de o homem perceber que, antes de perguntar: “o que devo fazer?”, se deve questionar: “de que história faço parte?” E esta história tem de ser composta, não por episódios soltos, mas por uma coerência unitária que lhe confira um sentido. A ovelha não a tem. Assim como não tem quem quiser viver como a ovelha – sem memória, sem aborrecimento, sem dissimulação ou fingimento. A ovelha não vive feliz, porque a ovelha, em bom rigor não vive. A ovelha existe.
Quanto à demanda, diz MacIntyre: “é no decurso da demanda, e pelo facto, apenas, de encontrarmos e lidarmos com os vários males, perigos, tentações e distracções que proporcionam a qualquer demanda os seus episódios e incidentes, que o objectivo da demanda é finalmente entendido. “
A demanda encerra em si duas vertentes: um telos, isto é, uma finalidade, um propósito, e aquilo que refere MacIntyre: “... uma educação, quer quanto à natureza do que é procurado, quer em termos de autoconhecimento”.
Uma ovelha não procura nada, para além de um pasto que lhe satisfaça a necessidade básica. Não existe nela a dimensão de demanda, no sentido medieval do termo, com todas as suas vantagens e desafios. Invejarmos a ovelha na sua a-historicidade é invejarmos uma espécie de ser humano episódico levado ao extremo, concebendo um dia vivido de cada vez, sem noção de antes nem depois. Por outro lado, um homem semelhante ao animal de Nietzsche não deve ser invejado por uma pretensa honestidade,  porque nele não há valores morais ou éticos, apenas abulia. 
Não chega sermos diacrónicos, num certo sentido de Strawson. Temos de acrescentar-lhe o ético, para que tudo na nossa vida possa ser ligado por um fio onde estão os dias da nossa existência, mesmo que esse fio incorpore as fraquezas, os desvios, as memórias, os aborrecimentos, as dores ou as falhas. Um fio, para que a nossa vida seja uma unidade, na procura da vida boa. A ovelha – ou aquilo que ela representa - não tem esse fio. Falta-lhe o passado e o futuro éticos.

JdB

* Quinto e último ensaio deste seminário

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