11 janeiro 2017

Da semelhança entre coisas aparentemente distintas

Imaginemos dois cenários:

(i) Wilhelm Roentgen olhado por mim, nascido em 1958;
(ii) Mário Soares olhado por um jovem português, nascido em 1987.

O que distingue os dois cenários? Aparentemente tudo. Qual a relação entre ambos? Aparentemente nenhuma. No entanto, parece-me que é exactamente o contrário. Não há qualquer diferença entre ambos os cenários, mesmo sabendo que o físico era alemão e nasceu em 1845 e Mário Soares, português, 80 anos depois.  

Wilhelm Roentgen, primeiro prémio Nobel da Física, é considerado o descobridor dos Raios X, acontecimento que levou ao estabelecimento de um novo ramo da ciência, a Radiologia (para além de ter dado início à era eletrónica na Física). Em termos de saúde, as vantagens desta descoberta são inegáveis e mundiais. Eu fui beneficiário deste facto, pese embora nunca ter vivido na era pré-Raios X. Quando nasci eles já existiam.

Nascer em 1987 é nascer 13 anos depois da revolução do 25 de Abril. É já viver com a realidade das eleições, das campanhas eleitorais, da liberdade de expressão, dos partidos políticos, da democracia participativa, do serviço nacional de saúde, do voto como arma do povo, do PREC como um conjunto de letras e um frenesim para as gerações acima. É conhecer a ditadura de Salazar por via dos livros, dos programas de televisão, dos discursos inflamados, das opiniões isentas. Quando o jovem nasceu a democracia já existia.

Consideremos sem grande alarido, e para benefício da discussão, que Mário Soares teve um papel determinante na consolidação da democracia portuguesa. Qual a diferença entre ter-se 30 anos e admirar-se o ex-Presidente da República, e ter-se 59 anos e admirar-se Roentgen? Nenhuma, não só porque nenhum dos dois protagonistas deste raciocínio (o jovem de 29 anos e o menos jovem de 59) conheceram o socialista lutador da liberdade e o físico investigador, mas porque ambos são coevos de uma época pós-qualquer coisa. Os Raios X são, para mim, um dado adquirido. A democracia é, para a geração dos meus filhos, um dado adquirido. Os Raios X são a democracia do jovem. 

Não se trata de saber se Mário Soares é merecedor ou não de admiração, se a sua intervenção política produziu x ou y resultados. Trata-se de pensar o que leva um(a) jovem de 30 anos a fazer um discurso inflamado, de cravo na mão, sobre a importância determinante do falecido. O que é a liberdade para uma pessoa que nunca conheceu o oposto em Portugal? O que são os Raios X para um adulto que nunca conheceu o oposto? E o que são, para nós, os (co-)obreiros dessas duas realidades já firmes quando nascemos?

JdB

10 janeiro 2017

Pensamento Impensado

Pérolas de incultura
A propósito do funeral de Mário Soares, as calinadas na televisão são mais do que muitas.
Ontem, cerca das 12.30h, oiço / vejo na SIC uma reporter dizer que um armão é uma charrete a cavalo. Fiquei estarrecido.
Um armão é um veículo de quatro rodas, puxado por dois ou mais cavalos, que transporta uma urna com um morto.
Uma charrete tem duas rodas, é puxada por um cavalo, leva quatro passageiros, vivos...

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

Das melhores personificações da Bela Adormecida é a música, no sentido em que toda a obra musical só ganha vida quando é executada. Até lá corresponde a letra morta, na pura acepção.

Exemplo de uma Belíssima maravilhosamente acordada, em 2015, foi a obra de Igor Stravinskiy (1882 Rússia -1971, EUA), composta em 1908 para homenagear o seu mentor e mestre – Nicolai Rimsky-Korsakov, após a morte deste, a 21 de Junho de 1908. Intitulada «Cântico Fúnebre» (Funeral Song), a op.5 teve estreia absoluta a 17 de Janeiro de 1909. À época, mereceu críticas variadas, entre elogios e ironia. Enquanto um a apreciava reconhecendo «the lament and moaning of a heart against the backdrop of a somber landscape», outro enjeitava a sua frieza observando que fora pena ter quebrado o silêncio: «Better keep silence if losing a friend and teacher leaves us cold.» 

Fruto de vicissitudes várias, a op.5 sumiu-se sem deixar rasto, para além da vaga notícia da sua audição, cem anos antes. A turbulência devastadora após a Revolução de 10917 a que se seguiu a Guerra Civil, depois as purgas estalinistas, intercaladas da invasão nazi em 1941, não deram descanso à população. Muita sorte, ou melhor, enorme sensibilidade e requinte cultural ter-se guardado memória da sua existência. 

Logo após a derrocada da União Soviética, intensificou-se a busca da célebre partitura. Das incansáveis pesquisadoras foi a académica Natalia Braginskaya, da Universidade de Musicologia de S.Petersburgo – continuando a obsessão dos seus professores. Resultou em mais uma a vasculhar o arquivo do Conservatório da cidade, em vão, à parte de se ter tornado conhecida dos arquivistas. Curiosamente, a suspeita de que estaria por ali esquecida veio a revelar-se certeira, tapada entre papelada burocrática. Pode imaginar-se a alegria da musicóloga quando, no Verão de 2015, a bibliotecária do Conservatório, Irina Sidorenko, lhe telefonou a perguntar se a obra procurada se chamaria Cântico Fúnebre! Acabara de ser desencantada, por mero acaso.

Composta aos 26 anos, merecera referência especial nas memórias de Stravinski, escritas em 1935. Considerou-a a obra mais importante do ciclo que antecedeu a composição das famosas peças para ballet, antes de se ter transplantado para o Ocidente. Com tonalidades do «Pássaro do Fogo» e influências de Wagner (só tardiamente assumidas pelo russo), o compositor recorda-a poeticamente como uma homenagem de cada instrumento musical ao seu grande professor R.-K.: 
«Unfortunately, the score of this work disappeared during the revolution... I no longer remember the music, but I recall very well my idea for the work. It was like a procession of all the soli instruments of the orchestra, coming in turns to each leave a melody in the form of a crown on the master's tomb, all the while with a low background of murmuring tremolos, like the vibrations of bass voices singing in a choir.» 

Igor Stravinsky, compositor e maestro

Ao longo de doze minutos, chega-nos o horizonte imenso das planuras brancas e espelhadas da neve sobre as estepes russas, como se o chão estivesse lacado, cobertas por um céu prateado e glaciar, que amplia a infinitude da paisagem. Ouve-se também a musicalidade das lágrimas e a dor de um coração apertado pela saudade. Faltarão as palavras, mas não a música, que é a sonoridade com sentido quando se mergulha no mistério da vida, quase sempre em fases de sofrimento. Felizmente que Stravinski ousou romper o silêncio:  



A segunda estreia ocorreu mesmo antes do ano fechar, a 2 de Dezembro de 2016, na Sala de Concertos do Mariinsky, em S.Petersburgo, sob a batuta do maestro Valery Gergiev. Este concerto memorável (aqui http://ow.ly/yUSg306TFPC em versão integral) incluiu também a execução do «Pássaro de Fogo» e suite da ópera de Rimsky-Korsakov «A Lenda da Cidade Invisível de Kitej».  

A descoberta da partitura perdida tem sido anunciada na imprensa internacional como milagre, por ter sido «miraculosamente preservada» durante mais de um século, «miraculosamente encontrada», ou até miraculosamente lembrada e pesquisada, resistindo ao expectável esquecimento. A invulgar preferência por aquela palavra dá bem nota da surpresa geral perante a recuperação de uma frágil pauta com fortíssimos motivos para ter sucumbido aos múltiplos furacões destrutivos que assolaram a Rússia no século XX.  

Assemelha-se, assim, a um presente da Festa de Reis, daqueles que só a candura das crianças se atreve a pedir, por confiar que é possível. 

Um segundo presente, também de valor incalculável, vem condensado no slogan da marca de relógios Breitling – «The greatest luxury in life is time. Savour every second».  Embora se tenda a banalizar o tempo, corresponde à coordenada mais importante da nossa vida. Por isso, é o grito que ecoa desde o alvor da criação, quando o primeiro humano foi insuflado de vida e convidado a gozar esse dom único, que fica ofuscado pela outra coordenada mais óbvia e de maior impacto, onde se concentra toda a materialidade – o espaço. O mesmo convite lançou-nos o Bebé nascido nas palhinhas de Belém, que insiste em oferecer-nos um presente de luxo (a Breitling tem razão), como só Ele pode: um Novo Ano! Lembro-O para desejar a todos um Feliz 2017 .

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

09 janeiro 2017

Duas Últimas

Embora os dois youtubes que agora divulgue estejam relacionados com o José Pracana, que morreu há pouco tempo, o post de hoje não pretende ser uma homenagem ao fadista. Já muito foi dito nos últimos dias, e eu não saberia acrescentar nada mais. Cruzei-me com ele meia dúzia de meses, se tanto, fruto da amizade que o ligava ao meu Pai. Tocaram juntos inúmeras vezes no estrangeiro, em eventos organizados (patrocinados? com a colaboração de?) pela TAP, onde eram ambos funcionários. 

Ouvi o fado A Rua Que Foi Nossa há muitos anos (muitos mesmo, embora não saiba exactamente quantos) provavelmente aquando da sua gravação. E deixei de o ouvir há igual número de anos porque o José Pracana não terá gravado muito (pelo que não passava na rádio, como agora se diz) e, pese embora o seu enorme conhecimento de fado, não fez grande carreira como cantor. Voltei a ouvir o fado há poucos dias, divulgado pela Teresa Lopes Alves no seu programa semanal da Rádio Amália. Quando dei por mim conhecia a letra toda de cor e salteado. Curiosamente, vim a saber que a letra tinha sido escrita por alguém bem conhecido de uma certa época, cujo nome artístico era Maria (de?) Castro.  

Por que motivo haveria eu de fixar uma letra de um fado com tantos anos e que não ouvia ao mesmo número de anos? Que processo mental se desenvolve dentro da nossa memória para retermos uma música e não retermos outra? 

Enfim. Fica José Pracana, para deleite de quem gosta de o ouvir cantar e tocar e para quem gosta de ouvir versos bonitos escritos para fado.

JdB (I)



08 janeiro 2017

Solenidade da Epifania do Senhor

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
n&atil
de;o és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, caindo de joelhos,
prostraram-se e adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

07 janeiro 2017

Pensamentos Impensados

Galardões
- Sabes que o arquitecto Niemeyer ganhou um Oscar?
- Como?
- Quando os pais o registaram.

Traduções à letra
The later the best - O leiteiro é uma besta.

Azias
Depois de comer o fruto proibido, Adão realizou que não há almoços grátis.

Quem tem calos não se mete em apertos
Já apertei a mão a Donald Trump, mas não quero que se saiba.

Desafinações
Tocava viola tão mal que parecia estar a violar o instrumento.

Apetites
Caruncho comeu cadeira, alegando que fazia parte da cadeira alimentar.

Doenças crónicas
As Finanças, em Portugal, estão com prognóstico reservado.

Gadgets
- O João comprou um daqueles telemóveis caros.
- Mas ele não pode!
- I POD, POD.

SdB (I)

06 janeiro 2017

"Quem me dera não saber ler"

Já aqui escrevi, breve e desinteressadamente, sobre os provérbios portugueses, tão cheios de contradições. Ontem, na ressaca de um almoço com um amigo recente mas com quem partilho conversas várias, ocorreu-me uma frase que papagueei tantas vezes, cheio de um engano todo feito de ilusão adulta. A frase é: quem me dera ter 18 anos e saber o que sei hoje. Por trás deste pensamento está a ideia de que viveríamos melhores se fossemos jovens cheios de uma sabedoria de anciãos. Parece-me que o conceito está todo errado, uma vez que me apetece dizer: quem me dera ter a idade que tenho e saber o que sabia aos 18 anos. 

Quando me formei estagiei breves meses na TAP, onde aprendi, sobretudo, o que era uma boa cantina. O resto era vagamente para mim, porque apesar de um curso de engenharia, nunca fiz um curso de engenharia. Mas cruzei-me com um colega do meu Pai que proferira uma frase luminosa, que ainda repetimos amiúde, mesmo que pelos motivos nem sempre certos (até porque não sabemos o que pensava o Dr. Pedro, autor da frase): quem me dera não saber ler.

Estou certo de que o Dr. Pedro não defendia para si próprio a ignorância ou o desconhecimento das coisas. Estou certo, presumidamente, que defenderia a candura do espírito, o enchimento da mente com a sabedoria dos simples, a desintoxicação das informações excedentárias ou obsoletas ou redundantes. No fundo, que soubéssemos o que acrescenta valor à vida, não o que é supérfluo. Que fossemos crianças espantadas com a vida, maravilhadas com a diversidade, não vítimas das rotinas que tudo matam, das frases mal interpretadas ou mal ditas, dos discernimentos adultos que malbaratam muito e aproveitam pouco.

A vida é globalmente difícil, com inúmeras frentes por onde atacar - carreiras, finanças, perdas de estatuto, lutas de poder, preocupações com filhos ou com pais ou consigo próprios. Mas há uma franja da nossa vida que não está sujeita a estas preocupações, que pode ser sempre uma receita simples e eficaz, que nos mostra o sol em dias sombrios. É essa parte da nossa vida relativamente à qual temos de dizer que não queremos saber ler, ou que queremos ter a idade que temos e saber o que sabíamos aos 18 anos, que era pouco e esse pouco cheio de esperança.

JdB

05 janeiro 2017

Poema dos dias que correm

Catedral maronita | Alepo, Síria | 25.12.2016 - foto tirada daqui

De amor

despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,

abandono. despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.

tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,

os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.

Francisco José Viegas (in 366 Poemas que Falam de Amor, antologia de Vasco Graça Moura)



04 janeiro 2017

Duas Últimas

Aqui vos deixo com uma agradável música sobre a palavra mais pronunciada por estes tempos, agora que passou mais um Natal, tornado ano após ano mais agitado e “logisticamente” mais complicado, logo menos espiritual, e se aproxima o Dia de Reis, em que a Sagrada Família recebeu os três magos vindos de longínquas paragens do Oriente carregando presentes.

Surpreende-me o exagerado fervor com que os não crentes vivem o nascimento de Jesus. Como não poderia deixar de ser as contradições são mais que muitas, do “Santo Natal” das mensagens electrónicas à presença anual na Missa do galo, vista como uma curiosidade engraçada. Jesus sufocado e quase desaparecido. Quem sou eu para “atirar a primeira pedra”, mas que haja pelo menos alguma coerência e parcimónia no meio da confusão reinante. 

Quanto a 2017, espero voltar a ele em momento oportuno, se o dono do estabelecimento me suportar até lá. Em resumo, também se me afigura que será confuso, com a geringonça impante. Entretanto, o chefe da mesma prepara-se para viajar até à India, em busca dos ancestrais, desassossegando no caminho quem tamanha empreitada terá de organizar.  

Espero que apreciem esta 1ª escolha anual. 

fq

03 janeiro 2017

Da relação unívoca com os amigos

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu». 

O texto acima é da autoria de Montaigne, retirado do seu célebre ensaio intitulado Da Amizade. 

Um destes dias, ao conversar sobre temas diversos, ocorreu-me pensar porque é que algumas pessoas são mais fechadas e estabelecem amizades facilmente enquanto que outras, mais joviais e abertas, têm mais dificuldade ou, melhor dizendo, não manifestam tanto interesse em. A simpatia não lhes traz mais militância a esse nível.

O que queremos dos amigos, sendo que a resposta das amizades fortes não se resume, nem pouco mais ou menos, à ideia de que era ele, ou de que era eu? Queremos amigos para nos divertirmos, para nos prestarem favores ou ajuda, para nos ouvirem, para nos falarem, para nos tirarem dúvidas, para serem interlocutores ou, nalguns casos mais específicos, para sermos sacos de pancada de irritações várias... É para isso que eles servem, sendo que o verbo "servir" não deve ser lido de forma negativa. Os nossos amigos são fruto de uma relação acima de tudo unívoca. Eu sou amigo de fulano porque fulano me dá algo: ajuda ou escuta ou orientação ou divertimento, etc.  A amizade de fulano por mim deve-se ao mesmo interesse: fulano encontra em mim ajuda ou escuta ou orientação ou divertimento, etc. É por isso que o maior amigo de fulano pode ser beltrano, mas o melhor amigo de beltrano já pode ser sicrano - nem todos queremos e damos sempre o mesmo e com igual intensidade. 

Ora, se eu dos meus amigos precisar só de divertimento, é só isso que vou procurar - e nada mais quero do que isso. Se não quiser / precisar de ajuda, orientação, escuta, mas apenas, repito, divertimento, o meu leque de amizades assenta nesse pressuposto. No limite, se eu quase nunca precisar de me divertir, quase nunca precisarei de amigos. E se eu não precisar de me divertir nem de ter com quem conversar, não preciso de amigos. A intensidade das amizades está, obviamente, relacionada com isto: só temos o que procuramos.

A ideia de Montaigne é bonita, mas pouco verdadeira. Nunca há um apenas porque era ele; porque era eu... Há sempre mais qualquer coisa: um tempo em que o divertimento nos enche a alma, um tempo em que a partilha nos enriquece, um tempo em que a escuta é uma espécie de peregrinação pelo nosso interior. Sei do que falo, passe a presunção: aos 58 anos estabeleci amizades fortes por pessoas que conhecia de forma relativamente superficial. Mas eram pessoas que queriam falar e eu as escutava, ou eram pessoas que queriam escutar o que eu tinha para lhes dizer. Aconteceu-me o mesmo com amizades com 15 ou 16 anos, reputadamente improváveis. Não foram acasos, foram encontros - pessoas que me divertiam quando eu queria divertimento, me orientavam quando a bússola perdia o norte magnético.

JdB 


02 janeiro 2017

Textos dos dias que correm

In my end is my beginning 

Home is where one starts from. As we grow older
The world becomes stranger, the pattern more complicated
Of dead and living. Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album).
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.

T S Eliot , "East Coker", "Four Quartets"

***

«"Os homens avançados em idade devem ser exploradores./ O lugar e a hora não são importantes./ Devemos mover-nos sem cessar para uma outra intensidade,/ para uma união mais completa e uma comunhão mais profunda (...)/ No meu fim está o meu princípio." 

"In my end is my beginning": é o último verso do segundo (1940) dos "Quatro quartetos" desse grande, árduo e fascinante poeta que foi Thomas Stearns Eliot. Era o moto da rainha Maria Stuart da Escócia, e é uma espécie de divisa que podemos assumir para meditar sobre as últimas horas deste ano.

Regressemos aos versos precedentes, dirigidos àqueles que já viveram muitos finais de ano. Não se deve ceder à tentação de que nada mais nos espera, de que já vimos tudo, que tudo já experimentámos suficientemente e, sobretudo, de que só nos espera uma fria lápide funerária sobre a qual estará idealmente gravado "The end".

O poeta, ao contrário, recorda-nos que devemos sempre peregrinar na vida, à procura de um "outro", de "uma união mais completa e de uma comunhão mais profunda". É o que também o islão crente chama ao encontro por excelência com o Criador, que nos aguarda uma vez transposto o umbral da morte.

É igualmente, por excelência, o anúncio cristão que abre uma fenda de luz entre a obscura galeria da agonia: "estaremos sempre com o Senhor", como diz S. Paulo, isto é, no eterno e no infinito do Deus de cujas mãos saímos e cujas mãos, no fim, nos recolherão. Sim, "in my end is my beginning", no meu fim há um novo início.» 

(Card. Gianfranco Ravasi, in "Avvenire")

01 janeiro 2017

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém
e encontraram Maria, José
e o Menino deitado na manjedoura.
Quando O viram, começaram a contar
o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino.
E todos os que ouviam
admiravam-se do que os pastores diziam.
Maria conservava todas estas palavras,
meditando-as em seu coração.
Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus
por tudo o que tinham ouvido e visto,
como lhes tinha sido anunciado.
Quando se completaram os oito dias
para o Menino ser circuncidado,
deram-Lhe o nome de Jesus,
indicado pelo Anjo,
antes de ter sido concebido no seio materno.

31 dezembro 2016

Pensamentos Impensados

Teocracias
Deus auto-proclamou-se Ministro da Administração Eterna.

Marinhagem de quinhentos
Os portugueses dilataram a Fé, o Império e os mulatos.

Refrescos
O duche foi inventado por Mussolini.

Ressaca
Se Natal é quando um homem quiser, eu só quero daqui a 358 dias.

Festividades
O caruncho vai passar o fim do ano à madeira.

Ditos
Há moiro no Costa.

Trabalhos de Hércules
Há advogados que trabalham pro bono; os deputados trabalham pro sono.

Pipulares
Enquanto o pai vai e vem, folga a mãe.

SdB (I)

30 dezembro 2016

Da felicidade como ausência de infelicidade

Penso que terá sido Lili Caneças a afirmar: estar vivo é o contrário de estar morto. Confesso que não sei, e para o caso pouco me interessa saber, onde e em que circunstâncias foi proferida a frase. Aproveito-a, apenas. Um dia, em conversa com um amigo cujas amizade e inteligência me parecem insuspeitas, talvez se tenha falado de felicidade, do que isso era para cada um de nós - tocar a vida dos outros, saltar e sonhar, uma casa branca de um piso só com janelas encarnadas, e por aí em diante. Talvez ele me tenha dito algo que poderia resumir-se à ideia de que ser-se feliz é não ter doenças, zangas, desgostos etc. Achei, na altura, uma visão algo triste da felicidade: faltava-lhe rasgo, audácia, arrojo, impacto na vida do próximo. 

Um destes dias voltei a estar com este meu amigo. Falámos da vida, de um caso específico que magoa, diminui e preocupa os envolvidos. Depois, já de chave na mão para nos despedirmos, falámos a correr de gente à nossa volta, amigos próximos com infâncias muito difíceis, mortes chegadas dolorosas e abruptas, problemas profissionais que deitam abaixo os mais resistentes, futuros muito interrogados, filhos a suscitarem preocupações. Tudo isto se resumiria numa frase demolidora: conheces alguém sem problemas? Olho metaforicamente em meu redor. Conheço poucos, de facto. Talvez um ou outro (ou uma ou outra) a quem a vida correu fagueira. Na generalidade dos casos as vidas são difíceis - aqui e ali muito difíceis.

Estar vivo é o contrário de estar morto? Ser feliz é não ter infelicidade? Repito: gostava de ter uma visão mais arrojada da felicidade. Gostava de imaginar a diferença na vida dos outros, o atingimento dos sonhos, a concretização de projectos, mas olho em meu redor e parece-me que toda a gente deseja apenas uma vida sem problemas. A normalidade da vida, como me disse uma colega atacada por um cancro. Um desejo, não só dos que são vítimas de problemas (alguns dos quais totalmente inesperados e injustos) mas também os que os criam, nem sempre percebendo que a vida pode ser simples, descomplicada, gozosa. 

Em A Conquista da Felicidade, Bertrand Russell disserta sobre nove causas para a infelicidade das pessoas: a infelicidade byroniana, o espírito de competição, o aborrecimento e a agitação, a fadiga, a inveja, o sentimento de culpa, a mania da perseguição, o medo da opinião pública. Na segunda parte do livro  - As Causas da Felicidade – Russel espraia-se sobre aquilo que nos daria felicidade: o gosto de viver, a afeição, a família, o trabalho, os interesses impessoais, o esforço e a resignação. O livro tem quase 90 anos, pelo que muito se poderia juntar às causas que nos provocam felicidade e a sua inversa - o stress, a correria, a caridade, o enriquecimento espiritual ou intelectual, a falta de sentido para a vida ou o sentido para vida. Temo que a maioria das pessoas, por um motivo que, de tão injusto é quase difícil de perceber, me acrescentasse um factor determinante para a conquista da felicidade - não ter nada que nos faça infeliz...

A todos os meus leitores ou colunistas, detentores de vidas fagueiras ou difíceis, vítimas de problemas ou causadores de problemas, um Bom Ano de 2017. Um ano feliz - e não apenas desprovido de infelicidade.

JdB


29 dezembro 2016

Espectáculos (eventualmente tristes) de dias que correrão

Colegas de faculdade desafiaram-me para uma das sessões referidas no poster abaixo. Como pode ver-se, não vou falar de ninguém. O que farei, então, para além de poder segurar um candeeiro? Declamar alguém, neste caso João de Deus. Nunca declamei na vida, aleguei, menos ainda em público. Ambos foram solícitos no elogio: o João tem uma voz óptima... E eu, mais vencido pelo desafio do que pela vaidade, acedi. 

Quando dei por mim, percebi que não conhecia nada de João de Deus. Podia ser como algumas pessoas que afirmam não conhecer nada de Augusto Gil, e contudo, quando se lhes fala no batem leve, levemente / como quem chama por mim..., já o identificam; mas de facto não era: fui ler alguns poemas de João de Deus e nada de nada de nada.  

Ao dia de hoje não faço ideia dos poemas que lerei. Neste momento acho graça ao desafio. Nas vésperas preferiria ter emigrado, pelo que vaidade é apenas uma palavra começada por 'v'... 

Sinopse da Sessão (por Miguel Tamen): 'João de Deus (1830-1896) foi o primeiro de uma longa linhagem de poetas portugueses a quem se poderia aplicar o título, em Portugal inexistente, de Poeta Laureado. Está, como os herdeiros desse título, sepultado no Panteão Nacional. Foi autor de uma Cartilha que representou para várias gerações a ideia de literacia. Fragmentos dessa cartilha e de poemas seus são ainda lembrados, às vezes de forma truncada. Irá ser tratado como poeta por mérito próprio: serão lidos vários poemas seus que mostram esse mérito.'

Alea jact est...

JdB


Melancolia

Oh dôce luz! oh lua! 
Que luz suave a tua, 
E como se insinua 
Em alma que fluctua 
De engano em desengano! 
   Oh creação sublime! 
A tua luz reprime 
As tentações do crime, 
E á dôr que nos opprime 
Abres-lhe um oceano! 

É esse céo um lago, 
E tu, reflexo vago 
D'um sol, como o que eu trago 
No seio, onde o afago, 
No seio, onde o aperto? 
   Oh luz orphã do dia! 
Que mystica harmonia 
Ha n'essa luz tão fria, 
E a sombra que me guia 
N'este areal deserto! 

Embora as nuvens trajem 
De dia outra roupagem, 
O sol, de que és imagem, 
Não tem essa linguagem 
Que encanta, que namora! 
   Fita-te a gente, estuda, 
(Sem mêdo que se illuda) 
Essa linguagem muda... 
O teu olhar ajuda... 
E a gente sente e chora! 

Ah! sempre que descrevas 
A orbita que levas, 
Confia-me o que escrevas 
De quanto vês nas trevas, 
Que a luz do sol encobre! 
   As victimas, que escutas, 
De traças mais astutas 
Que as d'essas féras brutas... 
E as lastimas, as luctas 
Da orphã e do pobre! 

João de Deus, in 'Ramo de Flores' 


28 dezembro 2016

Duas Últimas

Confesso que não conhecia esta música ou, se a conhecia, não a fixara. Ouvi-a no outro dia em casa de amigos e achei-a bonita. Não sei se esta interpretação da Maria João e do Mário Laginha é mais bonita do que o original e, confesso, não tive curiosidade em comprovar. O youtube é algo bizarro - cantora e músico suspensos, o que não é uma metáfora totalmente descabida para a música em questão, cuja beleza e serenidade nos deixam também suspensos.

Há sempre por trás das letras uma certa aura de mistério: quem é Beatriz? Existiu mesmo, ou é apenas um nome que rima com triz e com feliz e com giz e com bis? O que ia na mente do Chico Buarque - ou sobretudo no coração -  quando fez estes versos?  O que seria para ele uma mulher de louça ou de éter?  

Não sei se é perigoso ser feliz. Sei que é perigoso tentar, porque nunca sabemos se tentamos da forma certa. Me leva para sempre Beatriz; me ensina a não andar com os pés no chão.

JdB




Beatriz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

27 dezembro 2016

Vai um gin do Peter’s?

Num gesto inédito de aproximação entre o Papa Francisco e Moscovo, que remonta a 2013, o Museu do Vaticano acordou um intercâmbio para exporem as obras de uns e de outros, ora na Rússia, ora em Itália.  

O primeiro empréstimo fez rumar até um dos principais museus moscovitas – a Galeria de Arte Tretyakov – 42 telas míticas vindas do Sul da Europa, que «representam o melhor do melhor das colecções do Vaticano» – segundo o Director do Museu italiano, Antonio Paolucci. Implicaram, assim, «um grande sacrifício», pois o número de turistas da cidade papal chega a seis milhões, anualmente. O reverso positivo da medalha é animar o longo Inverno das populações das estepes da Ásia Central, a maioria das quais nunca saiu do seu país. Uma vez que cultura e sensibilidade artísticas não lhes faltam (genericamente falando), percebe-se o sucesso da revelação dos tesouros do Vaticano, nas imediações do Kremlin, onde ficarão expostos até 19 de Fevereiro de 2017.

O título da mostra explica bem quanto os anfitriões russos têm a noção de albergar, no coração de Moscovo, um recanto de luxo da cidade eterna. Por isso, lhe chamaram «Roma Aeterna». 

Em Outono de 2017, será a vez de a Rússia emprestar ao Vaticano peças do seu riquíssimo espólio artístico. 

Na óptica do curador da exposição moscovita, Arkady Ippolitov, pertencente ao Hermitage, os dois quadros fundamentais para os russos são a «Lamentação sobre Cristo morto», de Bellini (1471-74) e o «Milagre de S. Vincente Ferrer», de Ercole de'Roberti (1473). A temática dura da morte do crucificado não assusta, minimamente, os russos, pois a beleza da sua representação deixa antever o imenso mistério de amor que aquela dor exposta, afinal, encerra. A ternura que os amigos dedicam ao morto prefigura o rasto de Bondade que o último dos condenados inspira nos que lhe são próximos, demonstrando o alcance da certeza da grande Doutora da cristandade – Teresa de Ávila (1515-1582): «Morro, porque não morro»! De facto, é inusitado, mas significativo, poder fervilhar um certo fulgor de vitalidade junto a um cadáver, a ponto de Bellini não optar por uma Pietá, pois as lágrimas (sempre legítimas) mal têm aqui lugar. Toda a cena é de uma humildade incrível, dominando os tons barrentos de uma terra que volta a ser fecunda. Respira-se a mansidão que emana do Protagonista:

«Lamentação sobre Cristo morto», de Giovanni Bellini (1471-74).  
Peça do Altar Pesaro; óleo sobre madeira. 

A segunda escolha do responsável do Hermitage corresponde a um retábulo longuíssimo, reunindo diversos episódios de uma extensa narrativa, num efeito que veio a ser replicado, na actualidade, pela banda desenhada e até pela sequência de imagens que formam o cinema. Uma solução bem mais comum do que se pensa, já na Idade Média e no Renascimento, em concreto na arte sacra:

«Milagre de S. Vincente Ferrer», de Ercole de'Roberti (1473), concebido para a Capela

Curiosamente, na óptica de Paolucci – as duas telas que considerava com maior potencial para impressionar os russos provinham de dois pintores maiores da arte Ocidental: Rafael e Poussin, que influenciaram artistas da Rússia, em estadias passadas em Roma, metrópole das artes e, por isso, ponto de encontro de artistas, ao longo dos séculos:

Tela de Rafael intitulada «Fé e caridade», mas sem a confirmação de pertença à colecção do Vaticano    


«O Martírio de Santo Erasmo», de Nicolas Poussin (1628-29).
Outra temática exigente, mas cuja extrema beleza evoca uma grandeza, que se eleva acima da violência 
cruenta do flagelo. 
A profusão de personagens de diferentes dimensões é eloquente: 
no topo, os anjos do mundo invisível contrastam com uma estátua tão solene quanto inanimada. 
Monocromática, fixa um horizonte acima e indiferente ao dos humanos, com olhos incapazes de ver.
Por isso, só os anjos podem consolar a vítima e testemunhar a azáfama fugaz dos humanos, 
que parecem ignorar o quanto são iguais perante a morte. Só a hora, sempre breve, variará.    

A concluir, para desejar a todos as Boas-Festas segue uma versão divertida da história do presépio, que transforma a conhecida Bohemian Rhapsody, dos Queen, em Bethlehemian Rhapsody. A letra foi reescrita por Mark Bradford e a curta-metragem realizada por Darla Robinson.  Inspirador também para desejar um Novo Ano cheio de vigor e entusiasmo para apanhar a vida pelo lado melhor, como lembrava a personagem Brian – «Always look on the bright side of life» – tomando-se com liberdade e autenticidade a sugestão dos Monty Python:



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

26 dezembro 2016

Do Natal ser das crianças

À hora a que me leem, as festividades do Natal acabaram para a maioria das pessoas, embora nalguns locais o dia 26 ainda seja tempo de festejo. Muitos de nós queixar-se-ão do excesso de calorias ingeridas mas, como diz a frase em circulação, não culpes o Natal. Já eras gorda em Agosto...  

O primeiro input para o este post, escrito no dealbar de uma ressaca gastronómica toda feita de uma sucessão de bacalhau e de peru, surgiu com o vídeo abaixo, que retirei do Delito de Opinião na minha ronda de blogues na véspera de Natal.



Não sabia bem o que havia de escrever, mas algo me dizia que este vídeo, que via pela primeira vez, não podia passar em branco, mas também não podia passar pela simplicidade da ideia de paz possível quando os Homens querem ser anjos, e não apenas Homens.

O segundo input surgiu quando, numa conversa informal numa cozinha onde se sentiam ainda os aromas de vinho da Madeira, manteiga amolecida e sumo de laranja e limão com que se injectou o peru, alguém afirmou que o Natal era para as crianças. A minha primeira reacção (e foi o meu lado "intelectual" a falar, não o emocional) saiu por via de um pensamento em voz alta: para as crianças? E porque motivo há-de ser para as crianças? E se é para as crianças, o que nos diz isso, de facto?

Em bom rigor, o Natal não é das crianças, mas passou a ser das crianças - talvez elas se tenham apropriado da festa. As crianças gostam daquilo a que se chama a magia do Natal, que mais não é do que um conjunto de luzes brilhantes, árvores de Natal enfeitadas, azáfama consumista, um presépio feito de imagens estilizadas ou populares que vão perdendo o significado cristão, porque já ninguém lhes explica quem é o Menino Jesus. Talvez esta ideia do Natal ser das crianças tenha feito muito mal ao Natal, e ao verdadeiro espírito da festa. E, por isso, o Natal só é das crianças se nós, adultos, nos tornarmos crianças - puras de espírito, abertas ao Amor, simples na gestão das relações. E, por isso, o Natal só é magia se operar uma magia nos nossos corações.

O motivo para a importância do filme que coloco mais acima foi-me dado pela crónica do Pe. Miguel Almeida, de um destes dias no Observador,  que diz esta frase luminosa: Ao contrário, o Natal é esse reconhecimento da necessidade dos outros e do Outro na nossa vida. Naquela noite gelada de há 102 anos, todos aqueles soldados sentiram a necessidade dos outros e do Outro nas suas vidas. Não havia luzes, bolas coloridas, barretes ou meias a enfeitar janelas e a esconder presentes. Não havia crianças a correr, de olhos postos no relógio intuído que permite a destruição do papel colorido que embrulha mais um jogo. Havia uma guerra, dizem que a mais brutal de todas as guerras na história do mundo. E houve Natal, muito mais Natal do que em todos os Natais que se celebraram nesta Europa que viveu tantos anos em paz. 

Olho à volta, penso, oiço, intuo, deduzo. O Natal cristão (há outro?) está condenado se não o tornarmos mais simples, despido das canseiras em que se tornou quando alguém decidiu que o Natal é das crianças. Mesmo que as crianças sejam o melhor do mundo, o Natal não é delas, mas de todos os Homens de boa vontade. E se o Natal não for nosso, dos Pais destas crianças, só lhes daremos presentes, nunca futuros.

JdB 

25 dezembro 2016

Dia de Natal

EVANGELHO – Jo 1,1-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus.
No princípio, Ele estava com Deus.
Tudo se fez por meio d’Ele
e sem Ele nada foi feito.
N’Ele estava a vida
e a vida era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas
e as trevas não a receberam.
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha,
para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz,
Mas veio para dar testemunho da luz.
O Verbo era a luz verdadeira,
que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem.
Estava no mundo
e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu.
Veio para o que era seu
e os seus não O receberam.
Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus.
E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.
Nós vimos a sua glória,
glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito,
cheio de graça e de verdade.
João dá testemunho d’Ele, exclamando:
«Era deste que eu dizia:
‘O que vem depois de mim passou à minha frente,
porque existia antes de mim’».
Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos
graça sobre graça.
Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés,
a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.
A Deus, nunca ninguém O viu.
O Filho Unigénito, que está no seio do Pai,
é que O deu a conhecer.

24 dezembro 2016

Pensamento Impensado

Hoje é véspera de Natal pelo que não haverá piadas. Em substituição dos Pensamentos, um belíssimo excerto de um conto de Eça de Queiroz.
Desejo a todos os visitantes do blog um Santo Natal de braços bem abertos para receber o Menino Jesus.

SdB (I)

***

(...)

Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou.

O Suave Milagre, Eça de Queiroz, Contos

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