quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Cartas à minha madrinha

Querida madrinha de espírito presente mas de corpo ausente,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
Se não houvesse distância geográfica a separar-nos, estou certo de que me enroscaria no seu afecto volumoso, pedindo-lhe protecção e amparo para este momento menos fagueiro. Imagino-lhe a frase:
Ai, menino, que coisa! Conte lá o que se passou…
Pois eu digo-lhe, madrinha: um sonho – sei lá se um pesadelo. Acordei voltado ao contrário na cama, a roupa em desalinho, a mente baralhada, os olhos espantados para um tecto imaculadamente branco. Ao contrário de muitos sonhos, lembrei-me de tudo – de tudo, garanto-lhe! Passo a contar, que o seu tempo é precioso como um pouco de frio em tempo de aquecimento global.
Estávamos num deserto, como se fosse uma travessia. Junto a mim, uma multidão de pessoas caminhava em direcção a um ponto qualquer na linha do horizonte. Olhei para elas, e muitas conheci-as de vista, outras de intimidades amigas, outras eram totalmente estranhas. Curiosamente, a todas lhes sabia dar um nome próprio, como se fosse importante para a jornada.
A estranheza de tudo residia neste facto bizarro: os peregrinos estendiam as mãos para alguém, num sinal visível de uma vontade qualquer. E é exactamente neste gesto que as coisas começam a baralhar-se. Eu conto, e não ligue demasiado aos nomes próprios, porque me vão saindo a eito sem grandes critérios de rigor que não acrescentam valor ao sonho e às conclusões possíveis.
A Maria estendia uma mão ao Carlos. Este, por seu lado, oferecia-a à Joana que, ignorando-o, a estendia ao José. O José estendia cinco dedos ansiosos à Maria, ignorando as duas mãos que lhe eram estendidas pela Filipa e pela Teresa. A Filipa, por seu lado, hesitava se também devia estender a mão ao João – assim como ao José – já que este ignorava o seu gesto. O João, na falta de uma mão certa estendida, procurava a mão da Mariana, nem sequer percebendo a que lhe estendia a Sofia que, por sua vez tristonha, não vislumbrava a mão do Joaquim que quase a tocava.
Não, madrinha, este parágrafo não é uma espécie de rap. Como deve calcular, é o respeito e amizade que tenho por si que me faz encurtar a descrição do sonho, já que a enumeração das mãos que se estendem para ninguém e das que não se recebem por absoluta falta de atenção afectiva me levaria até à eternidade na sua versão mais enfadonha.
O que vi, nesta deambulação por um mundo dentro do meu próprio, foi o desalinhamento total e completo dos sentimentos, como se num repente terrível tudo se desmoronasse: a vontade e a disponibilidade, o olhar que se dá e recebe, a mão que se afaga num princípio de qualquer coisa e se deixa afagar como quem diz que sim, as saliências e reentrâncias que nunca mais se encaixam.
Hoje, ao escrever-lhe esta carta, dei por mim a pensar no final possível do sonho, já que fui interrompido no meu sono reparador pelos vizinhos de cima que inauguraram uma discussão de som elevado e fim imprevisível. Se o mundo fosse exemplar, alguém estalaria os dedos e as Marias, os Carlos, os Joaquins, as Marianas ou as Filipas deste mundo olhariam para o lado e perceberiam a mão que se lhes estende. No apuro último, todos saberiam que mão receber e que mão recusar, porque alguém mais importante se encarregaria de acolher a mão rejeitada. Tudo se faria em nome de um Ideal, de um Esmero, de uma Perfeição. Mas o mundo não é, felizmente, assim. E esse facto, por vezes lamentável, é o que nos obriga à luta, à conquista, à convivência diária com o sucesso e com o fracasso, com a alegria e a tristeza. É esse facto que torna uma mão que se dá e que se recebe um entusiasmo por vezes comovente, porque na irregularidade das coisas houve um encontro, porque na cegueira do coração houve um vislumbre de nitidez.
Enrosco-me na sua compreensão, embrulho-me na sua paciência, agasalho-me na sua ternura. E ofereço-lhe um beijo saudoso e barulhento, tal e qual o volume da discussão dos meus vizinhos de cima.

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