domingo, 18 de setembro de 2011

25º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

O evangelho do dia refere uma parábola que talvez seja uma das que interpela os menos crentes e que deveria ser fonte de meditação para os mais crentes. 

Em linguagem corrente talvez nos ocorresse o seguinte comentário: então que raio de justiça tem o dono da vinha, que paga aos últimos trabalhadores tanto quanto paga aos primeiros? A nossa realidade terrena leva-nos a um raciocínio assente na justa retribuição do trabalho - quem trabalha mais recebe mais. Do ponto de vista da parábola, poderemos sempre questionar a justiça de ver os arrependidos de última hora a terem a mesma recompensa dos que sempre seguiram uma vida de rectidão e bondade.    

Pois... Acontece que o denário que cada trabalhador recebe corresponde à vida eterna - aquilo a que todos nós, crentes, aspiramos. E então, se eu recebi o tal denário, por que motivo haveria de querer mais, de ter direito a mais? Quererei eu ter duas vidas eternas? Ou ter mais uma do que o arrependido às portas da morte?

Repetindo pela enésima vez uma convicção reconfortante: Deus não é senão amor. Receber o denário é ser beneficiário da generosidade ilimitada e transbordante de Deus. Receber o denário é sentir o abraço da eternidade, do céu, e tendo isso temos tudo - mesmo tudo, quem de nós se sente merecedor de mais? Ou de mais do que os outros? E porquê?

Ler a parábola de hoje é um bom exercício para nós católicos, tantas vezes preocupados com um sentido de justiça que nada tem a ver com o senão amor. A nossa antiguidade - seja de prática na igreja, seja de tentativa de uma vida santa - não nos dá mais regalias do que àqueles que apareceram ontem, que querem trabalhar na vinha, aspirar ao denário que o dono dá aos últimos. Lembremo-nos do bom ladrão que, no derradeiro minuto na cruz, se arrependeu, e a quem foi prometido um lugar no paraíso. Também ele recebeu o seu denário... 

É bom relembrar que a lógica de Deus não é a nossa, que queremos mais do que aquilo que precisamos, que nos comparamos demasiadas vezes com os outros, que nos sentimos com regalias várias que advêm do nosso estatuto social ou económico, de católico praticante e respeitador, com pergaminhos que ostentamos tantas vezes com um orgulho pateta. Cada um de nós, que responde à contratação do dono da vinha, presta um serviço único e meritório. Tentemos não olhar para trás, para julgar os mais recentes, mas para cima, onde está o Céu. 


Bom Domingo para todos.


JdB


***


EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

3 comentários:

Maf disse...

Muito bom, muito bom! Gostei particularmente da ideia de que um denário é igual à vida eterna e tendo-o, a nada mais interessa aspirar. Obrigada por partilhar connosco esta sua perspectiva.
Bj e bom Domingo

Anónimo disse...

Gostei muito, JdB. Obrigada pelos seus textos. Um bom Domingo. pcp

Anónimo disse...

Grande texto, meu caro!!
Obg
fq

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