segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vai um gin do Peter's?


Em Portugal, as margens do Tejo são pontuadas por inúmeros castelos-fortalezas, situados em locais estratégicos, quase sempre com vistas soberbas.

Assim acontece com o CASTELO DE BELVER(1), um dos pilares da Linha Defensiva do Tejo, localizado nas imediações de Abrantes, a c. 160 Km de Lisboa. Merece bem uma visita, que poderá também incluir o Castelo de Amieira do Tejo (muito próximo) ou um mergulho e canoagem numa das praias fluviais da região, como a da Ortiga(2). Um programa ideal para explorar lugares bem preservados e, felizmente, ainda bastante selvagens.


Belver veio a ser construído na vasta Herdade de Guidintesta, doada pelo segundo rei de Portugal, D.Sancho I, à Ordem do Hospital de S.João de Jerusalém (mais conhecida por Ordem de Malta ou Hospitalários), como baluarte contra os mouros. Habilmente, o monarca foi repartindo por diferentes ordens militares o encargo de defesa e colonização de regiões nevrálgicas para o país, dividindo para… não perder o contrôle do reino. Nessa lógica, a zona de Tomar (entre outras) foi confiada aos Templários, que mais tarde deram origem à Ordem de Cristo, por mérito de um rei visionário e empreendedor – D.Dinis.

Alcandorado no topo de uma colina da margem norte do rio, os Hospitalários ergueram o Castelo de Belver (1194) com uma poderosa muralha em forma de pentágono irregular, para acompanhar os desníveis do terreno. Na muralha subsiste ainda o caminho das sentinelas, que acompanha todo o perímetro da fortaleza. A Sul fica a porta principal, ladeada por dois torreões, enquanto a ocidente se encontra uma entrada estreita, a dar para uma escarpa, conhecida por «Porta da Traição». 


No interior, destaca-se a Torre de Menagem com três andares, de onde se alcança um horizonte assombroso. A perder de vista! Ao lado fica a Capela de S.Brás (séc.XVI), em estilo renascentista, com um retábulo de 24 nichos, destinados a acolher as relíquias vindas da Terra Santa. Saqueado pelas tropas napoleónicas, o retábulo de estilo italiano está hoje reduzido a imagens sem mãos, sem relíquias e sem jóias.

Vista exterior da Capela de S.Brás, séc.XVI

Retábulo renascentista, cujas jóias e Santas Relíquias foram roubadas, deixando as imagens sem mãos e vazias.

Exemplar magnífico da arquitectura castrense medieval, Belver cumpriu em pleno a função defensiva, a ponto de ser um dos seis lugares do reino escolhido para guardar os tesouros reais. Soube, igualmente, incentivar o povoamento da região, estendendo-se pelo lado nascente do monte (o menos abrupto) uma povoação bem antiga, que ali encontrou abrigo, apesar do desnível do terreno. Muitas outras povoações foram-se estabelecendo pelas redondezas, aproveitando as poucas planuras daquela paisagem de morros rochosos.

Não por acaso, o castelo teve obras de reforço num momento decisivo da afirmação da nacionalidade, durante a Crise da sucessão, a mando do Santo Condestável (1383). Voltou a ser intervencionado na Restauração da Independência, em 1640, embora toda a Linha Defensiva do Tejo tenha começado a perder alguma relevância, após a conquista do Algarve (1249).





Terá sido a primeira sede dos Hospitalários, em Portugal, até se mudarem para o Crato (1350) e aí construírem o Convento da Flor da Rosa, por iniciativa do Grão-Mestre da altura, pai de D.Nuno Álvares Pereira. Assim se percebe a ligação de D.Nuno aos Cavaleiros da Ordem do Hospital.

Outros dados curioso associados à história do castelo, que se entrecruza, de múltiplas formas (algumas bem imprevistas), com a história pátria: ali esteve preso o jovem poeta Luís Vaz de Camões, e ali residiu durante uns anos a Princesa Santa Joana.

Muito danificado pelo terramoto de 1755, foi restaurado na década de 40 do século passado, tornando possível a visita a um monumento glorioso, que nos faz recuar até aos primórdios da fundação de Portugal.

Vem também a propósito uma breve referência à Ordem de Malta:
 -dois dos mais eminentes Grão-Mestres, a nível internacional, foram portugueses. Ambos do século XVIII, distinguiram-se a nível militar, legislativo, político e ainda como mecenas das artes e da ciência. Um deles, Frei D.Manoel de Vilhena continua a ser lembrado em Malta por duas estátuas imponentes, pela fortaleza que leva o seu nome («Forte Manoel») e pelo «Burgo Vilhena», onde estão o teatro, o hospital, o asilo e outras instituições benfeitoras criadas durante a sua vigência.

-Constituída em 1099 com o propósito de cuidar dos peregrinos que adoeciam na ida à Terra Santa, os monges da Ordem do Hospital evoluíram rapidamente para Ordem militar, a fim de apoiar os cruzados na conquista de Jerusalém aos sarracenos. À semelhança dos Templários, também reportavam directamente ao Papa, beneficiando de uma notável independência em relação ao poder régio. Daí a importância da posse de um território para afirmação da soberania internacional da Ordem, que lhe foi oficialmente reconhecida em 1310, com a instalação da sede em Rodes.

-Após a ocupação definitiva de Jerusalém pelo Califado, os Hospitalários conquistam a ilha de Rodes (1310), mantendo uma presença militar influente no Mediterrâneo. Em 1522, são forçados pelo Sultão otomano Solimão (o da grande Mesquita de Istambul) a mudar-se para outra ilha – Malta – que lhes foi cedida pelo Imperador Carlos V, tornando-se conhecidos por Cavaleiros da Ordem de Malta. Em 1571, desempenham um papel decisivo na batalha de Lepanto, contendo o avanço otomano sobre o Ocidente.


Fresco Cerco de Malta– chegada da frota otomonana (1565),

de Matteo Perez d’Aleccio (1547–1616).

-Em 1798, a Ordem é expulsa de Malta por Napoleão, em plena Campanha do Egipto. Definitivamente destituída da sua função militar, a Ordem estabelece sede em Roma, no Palácio de Malta, e retoma a vocação original, acudindo aos doentes e necessitados.

-Em Portugal, a Ordem acompanhou o primeiro esforço de conquista aos mouros e manteve presença até à extinção das ordens religiosas, em 1834, e consequente expropriação de todos os bens. Ressurgiu em 1899, dedicada a causas beneméritas.


A visita a castelos e fortalezas medievais poderá animar múltiplos fins-de-semana ou até umas férias diferentes, resultando numa forma sugestiva de visitar o país e revisitar a história de Portugal. Belver foi só o passeio mais recente, participando num programa muito bem organizado por um amigo, especialista em juntar cultura e diversão (nota: Belver aparece no filme no 37º segundo):





http://www.youtube.com/watch?v=jnB8-DhUdlg&feature=related


Maria Zarco


(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) Aproveitando as indicações de um amigo-organizador de grandes programas, aqui vão as dicas de acesso ao Castelo de Belver, saindo de Lisboa: seguir pela a A1 e sair no nó de Torres Novas. Continuar pela A23 e sair na placa Gavião /Belver  (Saída Nr.13). Distância a percorrer: c. 160 Km.
(2) Acesso à Praia da Ortiga /Barragem de Belver saindo de Lisboa: seguir pela a A1 e sair no nó de Torres Novas. Continuar pela A23 e sair na indicação Mação /Ortiga (Saída Nr.12). Seguir depois e sempre as placas com a indicação de “praia da Ortiga” e/ ou “Barragem de Belver”. Distância a percorrer: c. 140 Km.

4 comentários:

Anónimo disse...

Mais um maginfico artigo.
Tirei cópias para toda a família!
fq

Anónimo disse...

Senhora Historiadora, Professora MZ! Bjs. pcp

Ana disse...

Santa ignorância a minha.
Ainda bem que há as MZs por aí e nos ensinam estas maravilhas.
Belíssimo.

Anónimo disse...

Fico mto contente de poder sugerir programas giros, mais ainda em Portugal, que bem precisa de todos nós como turistas, como admiradores e divulgadores do nosso pequeno Grande país. Bjs a todos, MZ

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