terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Duas Últimas

Tinhas 15 anos, talvez. Ou seria 16? Não sei, e talvez não seja importante, pois passaram mais de quatro décadas. Olhei-te pela primeira vez.

Conheci-te na serra, ao calor de um verão que não voltará mais, pois os acontecimentos felizes têm a validade de um instante. Todas as lembranças, por mais sorridentes que sejam, são fotografias retocadas, textos de contentamento aos quais se acrescenta uma vírgula, se altera um parágrafo, a cujo início e fim se confere um impacto diferente e imprevisto. Não há memórias exactas, porque os olhos são outros, as mãos são outras, o coração bate a ritmos diferentes. As saudades não são nunca de um tempo passado, mas de um tempo presente que se gostaria de transpor para um momento imorredouro. 

Achei-te bonita, qualquer que fosse o entendimento que disso tivesse um rapaz a olhar para uma rapariga de corpo franzino, sorriso discreto, olhos inquietos, mãos envergonhadas. Foste uma exaltação, um correr de sangue nas veias para além dos limites da tranquilidade. Eras uma emoção incontrolável, uma confusão não discernível para um miúdo que vivia contigo sem viver, que olhava para a lua com uma mudez de palavras e de gestos. Eras uma fotografia a cores num cenário de neve que chegaria. Eras o infinitamente simples da minha vida, a plenitude exaltante numa imobilidade de cinco minutos. 

Olho-te agora numa fotografia a preto e branco, tirada quando tinhas 15 anos, talvez. Ou seria 16? O que eras então não és agora, porque antes tinhas a beleza e agora és a beleza. Podemos ter a beleza mas ambicionamos sê-la, porque na diferença dos verbos existe um infinito. Mais de quatro décadas decorreram entre a primeira vez que te vi, num cenário de vastidão e cor, e a primeira vez que te vi, num retrato a preto e branco. São ambas primeiras vezes, porque as minhas mãos são diferentes, o meu coração é diferente, os meus olhos têm agora uma lentidão feita de sossego e sabedoria.

Quando foi a primeira vez que vi o teu rosto?

JdB



1 comentário:

Anónimo disse...

Desde a terna juventude tantos olhares de primeira vez cintilaram.
Ficou-me este imenso para contemplar , onde vagueio para te encontrar.

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