sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Moleskine


Acreditar. Anteontem foi o almoço na Casa de Lisboa. Pergunto pelas pessoas e por quem lá passa o Natal. Pergunto pelo ano que está quase a acabar, porque desta estatística também se avalia o moral dos nossos utentes, tão fragilizados e, por isso, tão sensíveis aos sucessos ou insucessos alheios. Há talvez oito famílias que passam o Natal na Casa, o que significa a quadra longe da família. A minha interlocutora, no entanto, diz-me algo mais perturbador: independentemente da maior ou menor taxa de sobrevivência, nota-se um diagnóstico cada vez mais cedo. Isto poderia ser bom, não fosse falarmos de bebés com meses nos quais é detectado um cancro. Que mundo é este?

Pensamentos. Apanho esta frase no blogue do Pedro Mexia, sob o título Virtude e Fascínio: talvez a experiência mais desanimadora de toda a minha vida seja a quase absoluta não-coincidência entre as "pessoas interessantes" e as "boas pessoas". É como se a virtude e o fascínio fossem água e azeite. E as excepções, de tão escassas, confirmam a triste regra. Tendo a discordar. Por motivos de conhecimento do mundo, porque o 'desinteresse' das pessoas é democrático, assenta por igual nos virtuosos e nos seus inversos. Depois, por motivos de prudência egoísta: afinal, tentando eu ser boa pessoa, como poderia acreditar que me tornaria, concomitantemente, desinteressante? Por último, para não me alongar no parágrafo, por motivos de razoabilidade: quem pode afirmar que a procura da bondade para si próprio é um caminho desinteressante? Talvez seja infinitamente mais desafiante e mais difícil do que o caminho da não-bondade. Menos fashion, seguramente, mas isso é outra coisa.

Felicidade. Apanho um post num blogue onde o autor refere que a sua felicidade tem a forma de uma casa. Uma casa que é pertença da sua infância. Ou a inversa, talvez. Reencaminho o texto para quem gosta de receber o que leio por aí, e questiono(-me) que formas assume a felicidade. É também uma casa, onde passei a minha adolescência veraneante; mas também é uma rua, onde joguei à bola, saltei à fogueira, ajudei a construir carrinhos de rolamentos, beijei e fumei furtivamente; é também um slow, não um específico, mas todos os slows juvenis, entusiasmado pelo meu corpo que se juntava a outro numa ousadia pudica, uma imobilidade onde o mundo também parava. A felicidade assume ainda outras formas, mas estas são as mais antigas.

JdB    

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