quinta-feira, 26 de junho de 2014

Do amor (ou ainda crónicas de um mestrando tardio)

Luz, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

O que tiramos de um livro (sendo que me reporto a uma conversa de há bastantes anos com um amigo ausente da escrita)? A história, o estilo, a mensagem. Tirar tudo isto de um livro único é fazer o pleno, levar a banca à glória. A minha deambulação pelas leituras - como a de muitos outros, estou certo - obedeceu a critérios de calendarização interior: tempos houve para a história, tempos houve para o estilo. Tempos houve para a mensagem - e as minhas reduzidas estantes estão cheias de evidências objectivas desse tempo específico.

Santo Agostinho - como muitos outros que tenho vindo a ler nos últimos anos - suscita-me a mensagem. O estilo - leia-se a retórica irrepreensível, a construção da frase, a utilização dos ritmos e das figuras de estilo - é um meio para atingir um fim, o de interiorizar o essencial da mensagem do bispo de Hipona. Foi nesse âmbito que me cruzei com dois textos relacionados entre si: Imagens do Amor em Santo Agostinho (uma dissertação proferida pelo Prof. Arnaldo Espírito Santo) e Arendt and Augustine: More Than One Kind Of Love (Lucy Tatman). Daí saiu a compra do livro de Hannah Arendt (ainda não lido) O Conceito de Amor em Santo Agostinho. Acredito que os textos não me caíram no colo por acaso; fui eu que os procurei, ainda que nessa procura houvesse algo de subconsciente. No fundo, o meu objectivo é - de uma forma inconsequente, trôpega, presunçosa - passar de uma dimensão mais lúdica (leio para me entreter) para uma dimensão mais prática (leio para agir).  

***

Cito o Prof. Arnaldo Espírito Santo: Não será exagerado dizer que Agostinho, ao empregar 6864 vezes as palavras amor, charitas, dilectio, contra 227 ocorrências de amicitia, numa proporção de 100 para 3, tinha plena consciência de que estava a mexer nos fundamentos da cultura e da sociedade antiga, já em vias de cristianização acelerada. E continua: Numa sociedade fundada no relacionamento horizontal entre os indivíduos, regido por códigos morais exclusivamente humanos, sem um apelo à divindade, ética e ontologicamente fundamentado, a relação entre os indivíduos assenta na amizade.

Não me parece que o pensamento seja desprovido de sentido se for transposto para os dias de hoje. Eu sei que o raciocínio é ínvio e caricatural, mas também por isso, por essa falta de divindade, talvez tenhamos deixado que as novelas aculturassem a expressão "amor". Os brasileiros amam tudo: a mulher, os filhos, a irmã, o gato, as colecções de selos, o bacalhau com broa, a voz da Ágata, a poesia de Cecília Meireles. A palavra amor está gasta, exaurida no apreço pela açorda, pela cultura de orquídeas, pelo windsurf em Tarifa. O amor pelo próximo é uma expressão que se entaramela na boca, tem dificuldade em ser formulada, quanto mais vivida.

Há algumas semanas, no Domingo da Ascensão, quem pregava do alto do ambão dizia que temos de olhar para cima para depois olharmos para o lado. E volto a citar o Prof. AES: [...] o principal dessas fundamentações consistiu em acentuar o sentido da verticalidade no relacionamento horizontal. O padre e o professor poderiam ter combinado dizer-me isto, que a coincidência seria significativa. A este respeito recorro agora a Santo Agostinho, nas Confissões:

O nosso repouso é o nosso lugar. Para lá nos eleva o teu amor, e o teu espírito de bondade arranca a nossa baixeza das portas da morte. Na tua boa vontade está a nossa paz. O corpo, com o seu peso, tende para o lugar que lhe é próprio. O peso não tende apenas para baixo, mas para o lugar que lhe é próprio. O fogo tende para cima, a pedra para baixo. Levados pelos seus pesos, procuram os lugares que lhes são próprios. O azeite deitado na água sobe ao de cimo da água, a água deitada no azeite desce para debaixo do azeite: levados pelos seus pesos, procuram os lugares que lhe são próprios. As coisas menos ordenadas não estão em repouso: ordenam-se e ficam em repouso. O meu peso é o meu amor; sou levado por ele para onde quer que seja levado.

Passar do pensamento à acção é o desafio que nos é colocado quando, num livro, procuramos a mensagem. Talvez isto seja visto como vaidadezinha pateta, como afectação, como ridicularia. E, no entanto, acredito que o equilíbrio interior, a paz com o nosso mundo - e estar em paz talvez seja melhor do que ser feliz - faz-se também assim, a ler, a ouvir, a procurar inspiração. É uma tarefa diária, porque os recuos ultrapassam, tantas e tantas vezes, os avanços.

Assim como um corpo é arrastado pelo seu peso, assim o espírito pelo seu amor.

JdB

1 comentário:

ACC disse...

Estar em paz é melhor que ser feliz.
Punctei-me nesta frase extraordinária.à
De facto!

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