quarta-feira, 25 de junho de 2014

Crónicas de um mestrando tardio

L' arbre, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão, uma de várias sugeridas para estes poemas

Embolismo

Livra-nos, Senhor, da violência das palavras
Quando não vêem rostos
E semeiam lágrimas

Livra-nos da violência surda,
Do silêncio mútico, perverso,
Das tradições do corpo que inundou a erva

Livra-nos da violência das coisas
Que nos afogam, de excessivas

Livra-nos da violência harmoniosa,
DEUS que nos prometes a paz
E que esperamos na fronteira do fogo e da alegria.

(José Augusto Mourão In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular)

***

Senhor

Senhor,
Perdoa os meus pecados,
Lava,
Com a água dos teus rios sagrados,
A mácula do meu corpo quebrado,
Agora que ninguém nos ouve,
Agora que a erva secou nos prados,

Traz-me
as varas que medem o sol e a minha idade,

diz-me
que ainda escrevo por devoção e bondade,
que nos pátios da noite há uma candeia que
desde cedo
assinala o rumo dos navegantes de outras eras,
de outra saudade,

diz-me que hoje
ainda me espera um milagre,
uma luz intensa do outro lado do mar,
uma estranha divindade que segue os meus passos,
que me conduz aos templos onde o incenso arde,

procura-me
com grinaldas de sangue quando os sinos
tocam em Santa Maria e São Gonçalo,
anunciando a hora da oração,
da última ceia,
sem os discípulos a meu lado,
sem os filhos que esperam o pão,
as laranjas
o brilho das facas que atravessam a dor dos
animais sacrificados

perdoa-me, Senhor,
este ofício da palavra que apenas revela a
iminência dos túmulos

(José Agostinho Baptista, in Esta Voz é Quase o Vento, Ed. Assírio e Alvim)

***

Os dois exemplos acima são reveladores de uma poesia onde está patente o estilo confessional que se cruza com, e tem influências de, Santo Agostinho. São uma forte hipótese para suportar a minha tese de mestrado.

A língua e os costumes conduziram as palavras para um reduto por vezes minimalista. Hoje, confessar pouco mais será, no nosso léxico vulgar, do que reconhecer uma culpa, admitir uma falha. Mas confessar é também dar a conhecer, revelar, manifestar. É por isso que os latinos usavam as expressões confessio culpae e confessio laudis. Uma mão confessa a culpa, a outra mão manifesta o louvor.

Ler Santo Agostinho é isso. Ler as Confissões (ou outras obras suas) não é tomar conhecimento das inúmeras falhas do doutor da Igreja, mas sentir o amor do santo por Deus.

Segunda-feira falei sobre estes temas com quem sabe, e manifestei a minha ignorância em termos de poesia - conheço pouco e sei ler mal. Do lado de lá a resposta foi clara: estes poemas são como os salmos; devem ler-se altos.

Façam-no, se quiserem. Pode ser uma experiência interessante.

JdB  



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