terça-feira, 21 de março de 2017

Dos fascínios inexplicados


Na verdade, a posição quase impossível em que se encontra serve, quanto a mim, para esconder o seu belo rosto adormecido, que não merecemos contemplar. 

Cruzo-me com esta imagem e com este texto no livro "Entre o Céu e a Terra", de Rui Chafes, que mão amiga me emprestou a propósito do meu (futuro) doutoramento.  Diria, na minha ignorância, que é uma escultura moderna. Afinal a sua conclusão data de 1600, e é da autoria de Stefano Maderno, um jovem escultor incumbido pelo Papa Clemente VIII de reproduzir exactamente a figura do corpo incorrupto de Santa Cecília aquando da abertura do seu túmulo, um ano antes. 

Fixei esta imagem durante alguns minutos nos olhos. Permaneceu durante horas na minha mente, a ponto de tê-la enviado a alguém três dias depois de me confrontar com ela. Confessei imediatamente que há algo que me fascina na obra, mas não sei exactamente o quê... Seria a ideia de um rosto que não merecemos contemplar? Seria o facto de eu achar que era moderna e afinal não ser? Seria a posição, muito semelhante à que eu uso para dormir? Seria uma certa dimensão de total desprendimento, de pouca importância de si, de ausência (aparente, apenas aparente) de dignidade, de fausto e de riqueza? Seria "apenas" uma beleza carregada de movimento estático? 

Há um certo encanto em identificar coisas (frases, pormenores, jogos de cores, perspectivas - o punctum, de que já aqui falei mais do que uma vez) em algo com que nos cruzamos. Normalmente é isso que me acontece - oiço / vejo / leio e sublinho mentalmente a ideia. Um dia, como já aqui contei, foi um tango, talvez, que usava a expressão silêncio conventual. Mas pode ser uma passagem de uma música clássica (os 2'14" do segundo andamento da 7ª sinfonia de Beethoven), a simetria de um renque de arcadas ou uma sombra imprevista de um candeeiro. No entanto, e até onde me lembro, foi a primeira vez que isto me aconteceu: estar fascinado com alguma coisa (neste caso uma escultura) e não fazer a mais leve ideia porquê.  

JdB 

2 comentários:

Anónimo disse...

JdB

Let me chime in...

Lindíssima imagem. Tal como disse “uma beleza carregada de movimento estático”. Para mim, e tal como disse, é a expressão de beleza e dignidade da escultura qui representada que nos impressiona. Não há necessidade de expressão de rosto. A expressão do corpo diz tudo.

Engraçado, num tempo em que tanta gente treina ao espelho para não mostar qualquer expressão, o resto dirá tudo, porque o movimento é único e característico de cada um de nós.

JdB disse...

Obrigado pela sua visita.
Talvez seja a expressão do corpo que nos diz tudo, como referiu. Curioso que alguém que viu esta mesma imagem achou que a escultura era algo perturbadora - ou pelo menos algo incomodativa. De facto, cada olhar é um olhar...

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