quinta-feira, 30 de março de 2017

Dos opostos complementares

- Tu sabes o que é um milagre, Jorge? Sabes o que é um milagre?

E o Jorge, de olhos postos numa gravura que se descreve já de seguida, a dizer que sim, que sabia, pois então. O milagre é um feito religioso insólito, que supõe uma intervenção especial e gratuita de Deus...

- Pela tua rica saúde, Jorge! O milagre não é isso. Isso que descreveste é um espectáculo de fogo de artifício para deleite dos néscios. O problema do milagre, como a humanidade o vê desde sempre, está no desejo do espectáculo, da coreografia, da encenação. E no entanto, o mais importante está no dia seguinte. O milagre, Jorge...

E o Jorge a manter-se de olhos fixos na gravura, pese embora a atenção que dá à Pureza, sua namorada, uma rapariga sobre o baixo, com um ligeiro excesso de peso e de volume ao nível das nádegas e ancas, muito loira e de olhos azuis de água paradisíaca. Mas a gravura, meu Deus!

- ... o milagre, Jorge, pode não ser mais do que uma cozinha impressiva de autor. Lava-nos o palato ou os olhos, mas é efémera, porque actua apenas nos sentidos. O milagre está no dia seguinte, na reverberação de uma palavra que redimiu, na lembrança de uma mão imposta sobre uma pústula, na persistência de um pensamento escutado. O milagre, naquele instante preciso em que Jesus curou o cego ou o paralítico ou o possesso, pode não ser mais do que pirotecnia, uma encenação ousada de uma ópera clássica. Todos estes personagens têm de ser revisitados nas suas casas, nos seus misteres, nas suas relações com os outros ou com o seu eu mais íntimo. O que ficou do milagre? Que mudanças houve que perduram no tempo, como uma cozinha de avó?

O raciocínio de Pureza era imbatível. Mas havia aquela gravura: Salomé, a sensual, e João, o Baptista, frente a frente, segurando ambos, numa metáfora simultaneamente carnal e cruel, uma espada e uma bandeja de prata. Por trás, o tetrarca, rei servidor de império ocupante, de semblante sucumbido e de olhos raiados de lascívia e discernimento, para quem aquela carne dançarina não era mais do que o prenúncio do inferno banhado a sangue inocente. 

Jorge era isto - as paredes crivadas de gravuras, as estantes de livros e a mente de ideias, tudo sobre o mesmo tema obsessivo: os opostos complementares, as simetrias de espelho, as saliências e as reentrâncias. Salomé e o Baptista como representantes do êxtase e da ascese; Cristo e a pecadora como representantes da virtude e do pecado; o branco e o negro na mesma tela, uma taça de gelo a arder, um puzzle, não como momento de lazer, mas como exercício de encaixe. 

Pureza aproximou-se dele e enlaçou-o pela cintura.

- Gostas da gravura, Jorge?

E o Jorge a dizer que sim, que gostava e a deixar-se abraçar, tocar, beijar, a ouvir mimos no pescoço, nos ouvidos, nos olhos, na pele efervescente de sensualidade e amor, nas mãos arrastadas de quem explora e amansa, de quem inquieta e provoca o seu inverso. E a campainha da porta a tocar quando o mundo estava em silêncio, quieto, imóvel, expectante de dois corpos que se agitarão ao som de um desejo. À porta, frente a uma Pureza loira, de olhos muito azuis transparentes, baixa e algo volumosa, está Désirée, uma nativa da Martinica, muito alta, muito escura, com uns olhos negros de carvão e uma finura de corpo que impressiona como um milagre inesperado. No sofá, ainda de olhos postos no êxtase e na ascese, no branco e no negro, no contraste dos dois nomes femininos, Jorge sorri, quase envergonhado, quase despudorado:

- faz-te confusão, Pureza?  

JdB       

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