segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Dos moinhos e dos gigantes

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão

***

Gosto sempre de citar estes versos, dos quais só a primeira quintilha sei de cor, para explicar poeticamente esta certeza que assenta numa dúvida: as coisas são o que são ou são o que vemos nelas? Ou, de outra forma, a beleza está sempre nos olhos de quem vê?

Não tenho respostas para nada, nem deambularei para as procurar. O que sei - e isso sei - é que nem sempre as coisas (entenda-se, por coisas, quadros, cidades, pessoas, relações) são aquilo que nos parecem ser, e por vezes ficamos com o olhar viciado. O grande desafio, na linha do que dizia Proust e eu citei neste estabelecimento há alguns dias, é munirmo-nos de um olhar diferente, mais do que esperar que aquilo que vemos se altere. Por vezes vemos obsessivamente da mesma forma, e Badajoz será sempre feio, Paris sempre bonito, alguém sempre antipático ou arrogante. 

Por vezes temos de aprender a olhar e, com isso, vermos beleza onde antes víamos fealdade. Mesmo que Gedeão nos diga  Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes, nem sempre é assim. Por vezes moinhos são gigantes e gigantes são moinhos.

JdB

1 comentário:

Anónimo disse...

Tal como a escrita. Existem uns 'desenhos' (os símbolos) aos quais se atribui um som; e um significado quando agrupados.

O órgão chamado olho — de que há milhares de variações na Natureza — compõe-se, sobretudo, de células que são capazes de 'sentir' que embateu nelas um ou mais fotões. Esse 'incómodo' é enviado por via eléctrica para outras células que associam, encadeiam e modulam o 'choque fotónico'. Em viagens subsequentes, o 'choque fotónico' é trabalhado e analisado até chegar a um conjunto de neurónios que o interpreta (e, em geral, memoriza).
O olho não é uma câmara fotográfica, apesar de haver semelhanças funcionais.
Aquilo que «nós» vemos não é uma imagem fotográfica: é a interpretação que damos ao conjunto de sinais captados. Na verdade, aprendemos a ver desde antes de nascer. A visão é uma interpretação.
Assim, cada um verá «as coisas» à sua maneira. Conforme foi ensinado. Compare-se as imagens da mesma galáxia 'vista' por aparelhos diferentes.
Rómulo Vasco da Gama Carvalho, excelente Mestre, nunca soube destes mistérios da Natureza. Aliás, no seu tempo ninguém sabia... passe a expressão.

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