13 setembro 2013

Deixa-me rir...

Caros Audiophiles, last week I discovered by accident a wonderful new singer-songwriter from Australia called Melody Pool. She was in concert supporting the Milk Carton Kids (the American acoustic duo I posted in January this year), and in fact I only heard her final three songs. But I was intrigued, and bought her CD, which she kindly signed.

Since then, I have been listening to her CD constantly and am captivated by her voice, her melodies, and the intelligence of her lyrics which seem far too mature for her 21 years.

She was invited to record her debut album The Hurting Scene this year in Nashville, and unsurprisingly it is imbued with a country-folk sound but, to my ears, the timbre of her voice and the phrasing of her singing and the rhythms of her acoustic guitar playing reminds me of Aimee Mann and the Bangles singer Susannah Hoffs, and most of all of English new-folk singer Laura Marling. 

The Hurting Scene is a contemplative album documenting the pain of betrayal and heartbreak, and the strength to move on, sometimes with calm fatalistic reflection and sometimes with melancholic honesty. Simple, direct and sincere. 

There are not yet many good quality videos of Melody Pool performing (sadly I could not find her remarkable song Royal Queen, so I suggest you try to hear her songs on Spotify or i-Tunes), but here are three of her songs, beginning with "Henry", the song which won her a major New Songwriter award and 
brought her national attention in Australia: 

"Henry, do you feel awake in the morning? Henry, do you tend to break come the light? For I feel the same, though I'm not to blame to have lost my heart's desire. Henry, you'll be lonely for a while.


Trust me, I would not take you back in a heatbeat; And mostly I lie awake at night with my rage, You loved me so though you strayed, yes I know, 
and frankly I'm straying now. Henry, you'll need to move along somehow.

I was born in the midst of a waning moon. And as a child I wandered through the dark and the gloom; and it spilled into my womanhood and now I’m sad for most of the time. But there’s beauty in a woman who is bound to herself, and there’s no beauty in a woman who won’t respect herself. 
But they are your choices, babe, and the choice to live without you is mine.

Truth be told, I've kicked and screamed so loud, I brought the whole house down, and I completely blame you for that, H, it's courage courage courage that you lack.

Henry, you had everybody on your side, and strangely you threw it all away for just one night. I thought you had sense but your last pretence was to shatter my forgiveness for good. Henry, you did what I thought you never would..." 







A proxima

PO

12 setembro 2013

Crónicas de um mestrando tardio

A partir de 2ª feira é isto. Há o espanto, o horror, o pânico - e alguma determinação, que pode ser a coragem dos néscios.

JdB


***


Filosofia para literatos [Prof. Miguel Tamen]
A filosofia não serve para se aplicar à literatura e os literatos não podem esperar grandes benefícios da adopção de posições filosóficas.  Existem no entanto livros, ensaios e artigos escritos por filósofos que, por terem sido compostos fora das preocupações estritas dos estudos literários, ajudam a clarificar algumas questões consideradas intratáveis, ou mal tratadas, por literatos.  O seminário consistirá na discussão de uma série de textos filosóficos escritos aproximadamente nos últimos cem anos.  Serão discutidos ensaios de Anscombe, Austin, Black, Bouwsma, Cavell, Davidson, Frege, Gadamer, Geach, Isenberg, Lear, MacIntyre, Nussbaum, Quine, Rorty, Ryle, G. Strawson, Vogler, e Williams.

Chaos and Order [Prof. John Jean]
The sciences and the humanities have been inextricably linked historically and these mutually interacting ways of knowing the world have profoundly influenced how we think of the natural world and humanity’s place in it.In this course we discuss the impact of three major scientific revolutions in the modern era – the Copernican Revolution of the 16th- 17th centuries, which radically altered how we think of and study the physical world, the Darwinian Revolution, which forced us to re-examine humanity’s place in the world, and the Einsteinian Revolution, which forever changed our understanding of space and time. Additionally, we will explore the emergence of the social sciences over the past 150 years with an eye towards their similarities and their differences with the natural sciences. In each case, emphasis will be placed not only on the scientific context of these shifts in worldview, but also on the historical and cultural/political contexts within which these shifts occurred.
Disjecta Membra (Famílias Artificiais) [Prof. Ana Almeida]
O frontispício de Leviathan de Thomas Hobbes representa famosamente um soberano como uma pessoa feita de outras pessoas. Esta imagem poderia ilustrar a declaração de Walt Whitman de que continha multidões. No seguimento destas formas de conceber o que somos, este seminário pretende explorar um modo de pensar sobre o que é uma pessoa para o qual Whitman e Hobbes são complementares. Segundo este modo, cada pessoa define-se em relação a uma família artificial, que equivale de certo modo ao que Whitman designa por ‘multidão’, e de que são membros possíveis figuras como Hobbes e Whitman. Testar-se-á então a plausibilidade de tomar o frontispício de Leviathan e a afirmação de Whitman como descrições literais sobre o que é uma pessoa, discutindo extensamente as consequências éticas e políticas da concepção de pessoa resultante e da noção de ‘família artificial’. As leituras seleccionadas incluem textos de Hobbes, Whitman, Carlyle, Campos, Allen, Putnam, Skinner, Berlin, Rawls, Empson e Taylor, entre outros.

11 setembro 2013

Diário de uma astróloga – [60] – 11 de Setembro de 2013


9 -11 Revisitado

8:50 - “Liga a televisão, passa-se qualquer coisa em Nova Iorque” – gritou o meu marido do quarto onde estava com a rádio ligada. O seu tom de voz fez com que eu, na cozinha, largasse o meu café e imediatamente acendesse a televisão.

9:03 – Vimos em directo o segundo avião entrar pela torre Sul. Não tive dúvidas de que se tratava de um ataque e não de um possível acidente, como noticiavam as cadeias de televisão.

9:40 - Outro avião embateu no Pentágono a poucos km do centro de Washington (onde vivíamos). As sirenes dos bombeiros e da polícia foram uma constante durante o resto do dia.

10:00 – A Torre Norte desmorona-se enquanto estava ao telefone com minha filha que trabalhava no Upper East Side de Nova Iorque.

10:28 – A Torre Sul desmorona-se. Minutos depois o pó assenta, eu e milhões de pessoas que nesse momento já estavam pregadas à televisão, percebem que as Twin Towers desapareceram para sempre. Milhares pessoas morreram enquanto olhávamos perplexos, atónitos, abismados.

12:41 – A CNN informa que Osama bin Laden é o possível responsável por estes actos de terrorismo.


O mundo astrológico sabia que a oposição entre os dois pesos pesados do zodíaco - Saturno e Plutão – estava activo desde agosto. Especulava-se sobre o que poderia acontecer nos EUA, uma vez que era directamente atingido: a oposição coincidia com o eixo Ascendente / Descendente de mapa astral da independência dos EUA.


Como astróloga sabia o que se passava nos céus, mas senti um choque horrível....  a astrologia funciona. Naquele momento,  gostaria que não funcionasse. Mais tarde pensei nas palavras de Carl Jung : "Compreender não cura o mal, mas é uma ajuda definitiva, na medida em que se pode lidar com uma escuridão compreensível. "

As energias eram de facto muito negras:
Plutão é o mais potente de todos os arquétipos planetários, representa a transformação, o processo de morte e renascimento, da destruição e regeneração. Usamos palavras como intenso, violento, secreto, poderoso, demoníaco, cruel para caracterizar Plutão.

Saturno representa estrutura, disciplina, o princípio da limitação, ordem, controle, organização, determinação. Tradição, status quo, o governo, a ordem estabelecida, também fazem parte desta arquétipo baseado no real e no concreto.

A oposição é um ângulo de 180 graus entre dois planetas e representa a polarização máxima de energias, como adversários que se enfrentam. As oposições prévias entre Saturno e Plutão indicam a sua importância nos acontecimentos mundiais:

• fevereiro-dezembro de 1931 - Grande Depressão, a deterioração das condições no mundo que deu origem ao movimento nazi.
• abril 1965 - fevereiro 1966 - revoltas raciais e  escalada da Guerra do Vietname, nos EUA. Guerra dos 6 dias entre Israel e as nações árabes.

Tendo em conta os signos de Sagitário e Gémeos o simbolismo aumenta. Sagitário está associado à busca da verdade, à justiça, à religião organizada, viagens, países estrangeiros. Gémeos refere-se à aprendizagem, comunicação, movimento, irmãos e irmãs e, obviamente, gémeos.

A tradução do que estava escrito nos céus era aterrorizantemente verdadeira: Plutão em Sagitário oposto de Saturno em Gémeos = Terroristas (Plutão) religiosos e estrangeiros (Sagitário) contra as Torres (estruturas / Saturno) Gémeas.



Muitos outros pensamentos se aplicam a este simbolismo astrológico. Convido a ler um texto longo, escrito em 21 setembro de 2001, pelo filósofo Richard Tarnas: 

http://www.gaiamind.org/WTCNotes.html

Os símbolos planetários estavam por toda parte: Os Taliban assumiram o poder quando Plutão entrou em Sagitário, as torres gémeas estavam a celebrar o retorno de Saturno e o Pentágono o segundo retorno de Saturno. Uma certa inocência que era a ordem estabelecida nos EUA (Saturno em Gémeos) morreu naquele dia pelas acções dos terroristas (Plutão em Sagitário).

E o que fez o mundo? Aumentou a polarização, envolveu-se em guerras e ficou na dinâmica nós (os bons) contra vocês (os maus).

A energia de Plutão pode ser positiva na fase de regeneração, mas só podemos apreciá-la se confrontarmos nosso próprio lado sombra. Será que somos realmente os bons? Onde está o nosso sentido de justiça em relação à pobreza, à desigualdade, à fome, a Darfur, ao Ruanda?

Doze anos mais tarde, Saturno e Plutão ainda estão em órbita nos céus. Mudaram de signos, Plutão está agora em Capricórnio e Saturno em Escorpião, portanto, o aspecto entre eles mudou. Formam um ângulo de 60 graus - um sextil, que traz a oportunidade de acabar com a polarização. Em 21 de setembro de 2013 Saturno faz seu último sextil a Plutão, mas continuam numa recepção mútua (uma boa conversa amigável) até o final de 2015.

Será que nós ganhámos uma sabedoria colectiva adquirida com a experiência e o sofrimento de 11 de Setembro e das guerras subsequentes? Poderemos usar o actual sextil e recepção mútua para o Bem? Na véspera de mais um possível envolvimento (desta vez na Síria), que irá causar enormes sofrimentos tenho que aplaudir o Papa Francisco pelo apelo ao jejum e oração numa vigília pela paz na Praça de São Pedro. Pessoas de todo mundo, incluindo os muçulmanos de boa vontade de recitar o Corão, rezaram para que os governos (Saturno) desistissem de bombas e mísseis (Plutão) e transformassem o status quo da violência numa ordem pacífica.

Juntem as vossas intenções a esta expressão positiva de Plutão e Saturno.

Luiza Azancot

10 setembro 2013

Duas Últimas


Férias passadas (como encurtam de ano para ano, parecem as mini-saias!), trabalho retomado, ultrapassados os primeiros dias de aclimatação e torpor, aqui me apresento de novo à vossa complacente paciência, esperando trazer-vos de vez em quando algo de novo e, sobretudo, não vos aborrecer em demasia.

Hoje escolhi duas músicas de Van Morrison, grande cantor e compositor norte irlandês. De Belfast, onde ainda há dias demos 4 (desculpem a tirada fácil). Especialista em música celta, mas também em ritmos do lado de lá do Atlântico. Um dos músicos participantes no The Last Waltz (1976), talvez o melhor concerto de rock de sempre.

Cruzei-me de novo com ele há pouco, e voltei a ouvi-lo com redobrado gosto.

 Espero que também apreciem!

fq


09 setembro 2013

Vai um gin do Peter’s?


Há uns anos, num concurso que animou as opiniões públicas europeias, cada país elegeu a personalidade que considerava mais marcante na história pátria. A maioria dos eleitos foram heróis recentes, entre o final do século XIX e o XX. À parte da curta memória que o concurso evidenciou, pondo a nu a ignorância sobre o património histórico de cada nação, houve resultados imprevistos e bem interessantes, que deram dores de cabeça aos actuais governantes, apostados nessa ignorância das populações para obterem uma proeminência que não vem da meritocracia mas da falta de concorrência. Isto é, contavam ser favorecidos pela ausência das grandes figuras do passado, e nunca em ser suplantados pelos seus arqui-rivais. Tiveram azar…

Por exemplo, em Portugal, o escrutínio popular elegeu Salazar com uma vantagem muito destacada, seguindo-se Cunhal e em terceiro o salvador dos judeus na Segunda Guerra, ao preço da sua carreira pessoal, dramaticamente cerceada por Salazar – Aristides de Sousa Mendes.

Na Grã-Bretanha, o primeiro lugar coube ao político mais excêntrico, aguerrido, radical, contraditório, acutilante, inventivo, discernido (embora com algumas dissonâncias) e corajoso do século passado: Winston Churchill (1874-1965). Diferentíssimo de qualquer outro líder do seu tempo. Aliás, o rol de adjectivos – dos melhores, aos menos recomendáveis – seria interminável, na tentativa de abarcar o vasto espectro da sua riqueza psicológica. Como bem observava um dos seus múltiplos biógrafos (S.Haffner), Churchill era um governante barroco, de visão e actuação abrangentes, atípico para uma época crescentemente tecnocrata, moldada segundos os consensos pragmáticos dos vários especialistas da política parcelar.
                

Pelo punho de um alemão radicado em Londres, desde 1938, para fugir às perseguições nazis, chegou-nos uma biografia refrescante do célebre político do charuto e do V da Vitória, em versão sucinta e bem documentada. O livro(1) de Sebastian Haffner foi publicado em Portugal, integrado na colecção do jornal Expresso (em 2011): «A minha vida deu um livro», merecendo prefácio do historiador português Rui Ramos.  

Note-se que há grandes obras sobre Churchill, a começar pela sua autobiografia e continuando no trabalho notável do seu biógrafo oficial, o famoso historiador britânico de ascendência judia – Martin Gilbert.

A versão abreviada de Haffner beneficia do facto de nos dar uma boa radiografia da figura multifacetada do biografado, percorrendo os momentos importantes da sua vida, com o cuidado cirúrgico de quem consegue concentrar-se no essencial. Um esforço nada simples, que redunda numa edição de bolso, despretensiosa e empolgante, fusionando, na perfeição, as originalidades inimitáveis de Churchill com a catadupa de acontecimentos marcantes de que foi contemporâneo e, não poucas vezes, protagonista. Mesmo nos longos anos de interregno no poder, o seu activismo voluntarioso fê-lo deixar marcas indeléveis no rumo da política britânica, com uma intensidade que só a distância cronológica permite descortinar com nitidez. Nem mesmo a agudeza de percepção de Winston soube antever totalmente o alcance da sua influência sobre o presente e sobre as gerações vindouras.

Um dos traços mais curiosos da vida atribulada e grande, a vários níveis, do herói mais popular da Grã-Bretanha é a sua educação: um rotundo fracasso. E se os britânicos se esmeram por dar uma educação primorosa aos mais novos, sobretudo aos futuros governantes! Nada faria prever que um aluno medíocre e quase analfabeto, aos 17 anos, compensasse com um autodidatismo incrivelmente talentoso e esforçado, o tempo perdido na escola e no liceu. A ponto de se converter num dos escritores mais lidos da época (com obra publicada aos 25 anos: «The River War: An Historical Account of the Reconquest of the Soudan», 1899), com qualidade literária e vários outros méritos, que lhe valeram o Nobel da Literatura, em 1953 (altura em que a Academia sueca era de uma exigência, que deixou de se vislumbrar a partir do final dos anos 80). Uma proeza inimaginável e dificilmente previsível para qualquer um dos seus professores, com motivos de peso para o considerarem uma perfeita nulidade. 

Inimaginável também que uma personalidade tão positiva e enérgica arrastasse a enorme frustração de nunca ter sido reconhecido, ou sequer apreciado, pelo ídolo da adolescência: o pai, Lord Randolf Churchill, que morreu prematuramente aos 40 e poucos anos. Nem Winston (que não era falho de imaginação) imaginava que iria ultrapassar, a passos de gigante, a fama política alcançada pelo pai!

Polémico e paradoxal é o menos que se pode dizer de Winston, a somar recordes em todas as áreas onde actuou: o único deputado britânico que mudou, não uma, mas duas vezes de partido… e resistiu, politicamente; o único deputado a ser violentamente apupado no parlamento, pela defesa romântica da frágil posição do futuro rei Eduardo VIII, quando este se apaixonou por uma estrangeira (americana) que já ia no segundo divórcio; o único a prever, com todo o realismo, a ferocidade do nazismo e a demência perigosa de Adolph Hitler; o único a diagnosticar, com genialidade mas nenhuma utilidade (foi afastado do poder no início do conflito), logo em 1914, as novidades e os desafios bélicos da I Guerra, gizando a melhor estratégia para o que poderia ter sido uma vitória rápida do Império britânico; o precursor do tanque de guerra, em 1914, denominando-o por navio de terra; o Primeiro-Ministro que ascendeu ao cargo com mais idade – aos 65 anos – e numa época de muito mais rápido envelhecimento do que a actual; o político com o discurso mais cativante, original, poético e idealista, onde a promessa de «sangue, suor e lágrimas» foi apenas a ponta do iceberg; o único jornalista com intervenção militar épica, em pleno palco de guerra (na África do Sul), conseguindo o feito extraordinário de salvar sozinho um comboio britânico sequestrado pelos revoltosos (boers), quebrando pontualmente a onda vitoriosa dos adversários; etc.

Vale a pena relembrar algumas das tiradas superiores de Churchill, menos citadas, e que são de uma sabedoria e beleza difíceis de igualar:
- (Aos ingleses, após a Batalha de Inglaterra, em 1940) «Vosso foi o coração de leão; a mim apenas competiu a tarefa de rugir
- (A animar as hostes, após revés) «It's only at night that the stars shine.» (Só quando a noite cai, se vislumbram as estrelas cintilantes no céu.)
- (Desencorajando o ajustes de contas contra os apoiantes de Chamberlain, em 1940) «Se lançarmos uma disputa entre o passado e o presente, descobriremos que perdemos o futuro

Churchill seria o que hoje denominamos por hiperdotado, desinteressando-se olimpicamente pelo regime geral de educação, onde a maioria é serenamente formatada. Nos padrões actuais, seria também um hiperactivo e um workahoolic com produtividade astronómica. Até as rasteiras que lhe pregaram, na política, tiveram em Winston uma única resposta (salvo uma ou duas infelizes excepções): um trabalho irrepreensível e de excelência. Chega a ser cómico, por exemplo, o ardil usado pelo Primeiro-Ministro Baldwin, em 1926, para o desviar (com sucesso) do núcleo duro do poder, incumbindo-o de redigir um jornal do governo. Escusado será dizer que o «British Gazette» alcançou tal sucesso editorial, que rapidamente se tornou rentável, disparando para uma tiragem de 2 milhões de exemplares, em apenas dez dias! Ironicamente, arruinou a reputação política de Churchill, tal a superabundância de intrigas e ataques verrinosos publicados no dito periódico, claramente num estilo estranho à fleuma britânica, que, apesar de tudo, se deliciou a lê-lo! Aliás, os artigos de Winston na imprensa diária eram dos mais lidos em todo o mundo, durante a década de trinta, apesar de corresponder, exactamente, ao seu período de maior afastamento dos cargos públicos. Ironia das ironias, terá sido esse trabalho de bastidores junto da opinião pública, sem qualquer reconhecimento visível, que favoreceu a sua ascensão ao mais alto cargo do Estado inglês, em 1940, com mais do que idade para se retirar! 

Se há pessoa que prova quanto o curso dos acontecimentos acaba por ser surpreendente, até mesmo para o próprio, é Churchill.
Se há pessoa que prova quanto a atitude de vida se sobrepõe às circunstâncias, mesmo às mais hostis, é Churchill.
Se há pessoa que prova quanto cada minuto merece ser saboreado com empenho, é Churchill.

Por isso vale bem a pena conhecer, ou relembrar, o tumulto de aventuras e desventuras que foram os seus contagiantes 90 anos de vivência intensa. A sua biografia podia intitular-se Uma Vida Para a História. Pensando bem, que outra coisa é a História, senão pessoas? No fundo, cada ser humano faz parte integrante da memória da Humanidade, pois é irrepetível, como Churchill mostra à evidência.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
______________
(1) Haffner, Sebastian, «Winston Churchill», Colecção A minha vida deu um livro, Expresso, 2011 (edição original de 1967, Hamburg), Prefácio de Rui Ramos.   


08 setembro 2013

23º Domingo do Tempo Comum

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo,
seguia Jesus uma grande multidão.
Jesus voltou-Se e disse-lhes:
«Se alguém vem ter comigo,
sem Me preferir ao pai, à mãe,
à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs
e até à própria vida,
não pode ser meu discípulo.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não pode ser meu discípulo.
Quem de vós, que, desejando construir uma torre,
não se senta primeiro a calcular a despesa,
para ver se tem com que terminá-la?
Não suceda que, depois de assentar os alicerces,
se mostre incapaz de a concluir
e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:
‘Esse homem começou a edificar,
mas não foi capaz de concluir’.
E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei
e não se senta primeiro a considerar
se é capaz de se opor, com dez mil soldados,
àquele que vem contra ele com vinte mil?
Aliás, enquanto o outro ainda está longe,
manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz.
Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens,
não pode ser meu discípulo».

07 setembro 2013

Pensamentos impensados


Democracias
Vota, estás perdoado.
 
Apetites
Tântalo tinha mais olhos do que comida.
 
Pedreiros
Grau a grau enche o maçon o papo.
 
Ofertas
Os desportistas costumam dizer: vou dar o meu melhor.
Eu digo: vou dar o meu pior, ou seja, aquilo que já não quero.
 
Coisas de Moisés
Um dos 10 mandamentos diz: não desejar a mulher do próximo.
Tem razão, desejar a mulher do que está longe é mais seguro.
 
Divisas
O lema do Infante D. Henrique era talant de bien faire.
O lema dos nossos governantes é talant de rien faire.

SdB (I) 

06 setembro 2013

Humor (inglês) dos dias que correm*



The English are feeling the pinch in relation to recent events in Syria and have therefore raised their security level from "Miffed" to "Peeved." Soon, though, security levels may be raised yet again to "Irritated" or even "A Bit Cross." The English have not been "A Bit Cross" since the blitz in 1940 when tea supplies nearly ran out. Terrorists have been re-categorized from "Tiresome" to "A Bloody Nuisance." The last time the British issued a "Bloody Nuisance" warning level was in 1588, when threatened by the Spanish Armada.

The Scots have raised their threat level from "Pissed Off" to "Let's get the Bastards." They don't have any other levels. This is the reason they have been used on the front line of the British army for the last 300 years.

The French government announced yesterday that it has raised its terror alert level from "Run" to "Hide." The only two higher levels in France are "Collaborate" and "Surrender." The rise was precipitated by a recent fire that destroyed France 's white flag factory, effectively paralyzing the country's military capability.

Italy has increased the alert level from "Shout Loudly and Excitedly" to "Elaborate Military Posturing." Two more levels remain: "Ineffective Combat Operations" and "Change Sides."

The Germans have increased their alert state from "Disdainful Arrogance" to "Dress in Uniform and Sing Marching Songs." They also have two higher levels: "Invade a Neighbour" and "Lose."

Belgians, on the other hand, are all on holiday as usual; the only threat they are worried about is NATO pulling out of Brussels ..

The Spanish are all excited to see their new submarines ready to deploy. These beautifully designed subs have glass bottoms so the new Spanish navy can get a really good look at the old Spanish navy.

Australia, meanwhile, has raised its security level from "No worries" to "She'll be right, Mate." Two more escalation levels remain: "Crikey! I think we'll need to cancel the barbie this weekend!" and "The barbie is cancelled." So far no situation has ever warranted use of the last final escalation level.

Regards, 

John Cleese, 

British writer, actor and tall person 

And as a final thought - Greece is collapsing, the Iranians are getting aggressive, and Rome is in disarray. Welcome back to 430 BC. 

Life is too short...

(*enviado por mão amiga)

05 setembro 2013

Cartas dos dias que correm

Alcácer do Sal (fotografia de JMAC, o homem de Azeitão) 

(...)

Vinicius de Moraes, nas suas intermitências de garrafas de whiskey, terá afirmado naquele sotaque brasileiro que abre os braços, conquanto não se saiba se os fecha: "a gente não faz amigos, reconhece-os". 

Não se é verdadeiramente eficiente - passe a expressão de um modernismo demasiadamente evidente - se não abrirmos uma carta com uma citação. Ao contrário do que se pensa, a referência a pensamentos de outrem não é a evidência da ignorância própria, mas a persistência da memória selectiva.

Nenhuma amizade merece ser escrutinada à luz de um tempo presente, menos ainda de um tempo futuro. As relações de afecto que vamos entretecendo têm de ser vistas com um olhar firme e lúcido sobre o tempo passado. Um pouco como antigas civilizações -  e seguramente mais discernidas - que acreditavam que se avançava para a morte às arrecuas, com os olhos sempre postos na origem das coisas. É assim que devemos viver as amizades, sob pena de se substituir a leitura do que foi pela previsão do que será. Faltando-nos a divindade da profecia, ficar-nos-íamos pela menoridade da adivinhação.  

A análise das afeições em tempo real, observando um relógio que avança a ritmos certos, origina ideias de improbabilidade. No presente de hoje - e a redundância reforça o raciocínio - fulano e beltrano, diz-se, vivem amizades improváveis. Como o futuro não é mais do que uma sucessão que tende para infinito de momentos presentes, esta improbabilidade é iterativa. Ora, se o exercício for feito com os olhos postos num pretérito com perfeição humana, o mistério é desvendado com uma limpidez que envergonharia quem se dedica a essas artes. Olhar para trás, para quando tudo começou - seja um momento, seja uma série de momentos - é realizar que a origem é aquela e que o reconhecimento foi naquele preciso momento. Não é a vida que se encarrega de definir amizades para o ser humano. A vida é apenas um palco montado para uma encenação imaginada por Aquele de quem se disse não ter manhã nem tarde. Não construímos nada, porque tudo está coreografado. Resta-nos reconhecer, nos escombros ou nos alicerces onde nos movemos, os parceiros de jogo que o sorteio divino estabeleceu para cada um de nós.

Olhar para trás, num exercício de análise e não de futurologia, é perceber o encaixe das peças nesta organização que sempre nos surpreende. Olhar para trás é oferecer um sorriso ao enigma porque ele foi decifrado. Esse movimento de andar para onde tudo acontecerá, ainda que com os olhos no que já não se repete, é perceber que não há improbabilidades porque o mundo tende para a perfeição, apesar das leis da termodinâmica. Não fazemos, de facto, amigos. Reconhecemo-los no bruaá dos nossos percursos, identificamo-los porque sabemos - olhando retrospectivamente, que de outra forma seria impossível -, o que queríamos, quando queríamos, porque queríamos. E descobrimos o momento da revelação.

Não se pode dizer que a amizade de fulano por beltrano é improvável. O destino não é um cálculo estatístico, uma fórmula científica, uma sapiência assente em modelos matemáticos. O destino é o que tem de ser, descortinado no olhar do que já foi.

(...)

[Correspondência com Adalberto Teresio Marujo. Editora Curral Velho, 2013]     


04 setembro 2013

Humor (brasileiro) dos dias que correm*


Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará.

Legislação complementar às Leis de Murphy:

LEIS E PRINCÍPIOS DEMONSTRADOS EMPIRICAMENTE:

O seguro cobre tudo, menos o que aconteceu.



Quando você estiver com apenas uma mão livre para abrir a porta, a chave estará no bolso oposto.

Quando tuas mãos estiverem sujas de graxa, vai começar a te coçar no mínimo o nariz.



Não importa por que lado seja aberta a caixa de um medicamento. A bula sempre vai atrapalhar.



Quando você acha que as coisas começam a melhorar, é porque algo te passou despercebido.



Sempre que as coisas parecem fáceis, é porque não entendemos todas as instruções.



Os problemas não se criam, nem se resolvem, só se transformam.



Você vai chegar ao telefone exatamente a tempo de ouvir quando desligam.



Se só existirem dois programas que valham a pena assistir, os dois passarão na mesma hora.



A probabilidade que você se suje comendo é diretamente proporcional à necessidade que você tem de estar limpo.



A velocidade do vento é diretamente proporcional ao preço do penteado.



Quando, depois de anos sem usar, você decide jogar alguma coisa fora, vai precisar dela na semana seguinte.



Sempre que você chegar pontualmente a um encontro não haverá ninguém lá para comprovar, e se ao contrário, você se atrasar, todo mundo terá chegado antes de você.

* enviado por mão amiga

03 setembro 2013

Duas Últimas

Não sou um feroz jogador mas gosto de apostar, seja porque motivo for. Aposto suficientemente barato para que a actividade não passe de um divertimento. Pode ser uma imperial numa esplanada, um livro com um valor limitado, ou outra coisa do género. Desconheço a contabilidade de ganhos e perdas porque aposto pelo divertimento, não pela conta corrente. 

As últimas apostas correram-me mal, e foram com a mesma pessoa, o JdC. A 10 de Janeiro apostei o "sim" a uma dúvida que ele tinha. Nesse dia à noite chegou a casa e eu havia perdido a aposta, porque dentro dele vencera um "não". Dia 11 de Janeiro, data dos meus anos, lá paguei a aposta - um H3 no Shopping Cascais, para que tudo seja simples e, para algumas pessoas, deprimente. Nesse mesmo dia, já de tarde, a resposta à dúvida que era motivo de aposta revelou-se um "sim", pelo que eu tinha sido vencido pelo relógio. No fundo, perdera a aposta por um triz. 

Anteontem juntámo-nos à mesa: JdC, fq e eu, bem acompanhados por um trio feminino que nos é próximo. Voltei a apostar, desta vez argumentando que Harry Belafonte era jamaicano. Do lado de lá, JdC apostou que não. Voltou a ser um bife no H3, quando ele voltar no Natal. Consultada a net, eu perdera a aposta, porque o cantor nasceu no Harlem, em Nova Iorque. Ontem investiguei e a mãe da pessoa em questão era jamaicana... Voltara a perder uma aposta por um triz!

Deixo-vos com o próprio Harry Belafonte e com música das Bahamas, em homenagem à internacionalização de uma empresa cujo dono (um dos) me dá o gosto da amizade.

JdB



02 setembro 2013

Fórmula para o caos


Em Janeiro último, um golo de Matic frente ao FC Porto foi tema de um post neste blog. Escrevi algo como " (...) fiquei maravilhado com a, até então desconhecida, poesia sérvia..."

No derradeiro dia de Agosto de 2013, o mundo observou mais um pedaço de poesia vinda daquele país balcânico. Estilos diferentes, poetas diferentes, mas a mesma classe. Parece que a poesia argentina vai enfrentar uma forte concorrência nos tempos que se avizinham.

 Deixo-vos 3 vídeos. De 3 poetas diferentes. Em todos, o nome começa com M.

Pedro Castelo Branco





01 setembro 2013

22º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO Lc 14, 1.7-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante do que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobe mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.

31 agosto 2013

Pensamentos impensados


Os brilhantes são internos
O Sul da Europa está como está; será que se não houvesse tantos brilhantes economistas (classificação dos comentadores), a Europa seria uma colónia de Burkina Fasso?
 
Dependências
Os devotos de S. Joana d'Arc serão drogados? Pelo menos gostam da heroína.
 
Dinheiros
O Governo não consegue acabar com o enriquecimento ilícito e ajuda o empobrecimento lícito.
 
Restauros
Em 1 de Dezembro de 1640 houve 40 empresários restauradores que levaram a bom termo uma empresa, sem se preocuparem com o IVA da restauração.
 
Proibições
Se as armas químicas são proibidas, como é que mato as moscas e os mosquitos?
 
Metamorfoses
Fazer das strippers furacão, é objectivo dos treinadores das meninas.

SdB (I) 

30 agosto 2013

Efemérides dos dias que correm

Hoje, mas há cinco anos, eu estava no Zimbabwe. Hoje, mas há exactamente cinco anos, eu entrava no Pointe para uma experiência inolvidável, não só para mim como para todos os presentes. Eu explico: pela primeira vez desde que tenho lucidez cantei em público, numa sessão de karaoke que poderão ler aqui, caso tenham tempo ou o corpo vos peça chatice.

Nunca é demais relembrar o que foram aqueles dois meses de "exílio". como nunca é demais relembrar o que foi ir ao Pointe naquela 6ªfeira, com gente que provavelmente (com excepção do JdC) não voltarei a ver: o divertimento, os descomplexos, as pessoas, a batida musical, uma nativa superiormente elegante com quem dancei muito junto, numa sensualidade - e cito o Eça - que esbrasa os mais frios e deprava os mais puros.  

Fica a mulher que, no dia 30 de Agosto de 2008, habitava dentro de mim. Não, não é quem pensam. É apenas Doris Day, a mulher que cantou o Che Sera Sera e que eu imitei, como se fosse uma little girl....

Divirtam-se, enquanto eu me atiro às saudades de um tempo forte.

JdB

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