segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Vai um gin do Peter’s?

Na era da comunicação, quase em contínuo, o sucesso de um filme 95% mudo é, só por si, um feito. Ainda por cima a explorar um tema bem espalhafatoso, no epicentro do showbizz, da fama das vedetas, dos aplausos inebriantes do público, da histeria incontida da multidão de fãs. Tudo isto trabalhou, com enorme originalidade, o realizador de «O ARTISTA»(1).


Michel Hazanavicius (parisiense, de ascendência lituana) narra de forma expressiva o deslumbramento viciante – equivalente a droga bem potente – das luzes da ribalta. E, em seguida, dos reveses incontíveis da vida que, num ápice, atira para a valeta o mais aclamado dos ídolos! Um segundo chega para alcançar os píncaros, e menos de meio segundo para se descer aos infernos do esquecimento total.
Não tenhamos ilusões que para grande parte dos seres humanos, dificilmente se pode equiparar o anonimato sereno (e inicial) da maioria dos mortais, ao regresso abrupto a esse anonimato comum, após uns tempos de proeminência, em que se fica enfeitiçado pelo êxito. Esse regresso é, geralmente, encarado como uma despromoção acabrunhante. Destrutiva. Injusta. Inaceitável. A reacção à crise, que hoje assola no Ocidente, prova ao de leve esta recusa liminar de um estádio anterior, considerado inferior



Alimentava-se do passado, numa fixação vã na época de glória.
Este é o contexto exigente onde se situa a narrativa de Hazanavicius, que se propõe ir mais longe, a partir destas premissas tão difíceis. Como lidar com o fracasso? Como trocar um palacete por um casebre? Como retomar o pé na sociedade, quando se é atirado para o desemprego e para a marginalidade, deixando de se ter qualquer préstimo no mercado de trabalho? Tudo questões semelhantes às que hoje afligem muitos europeus.
É brilhante a solução encontrada para superar a condenação a que parecia votado o galã dos filmes mudos. Como são brilhantes vários outros expedientes narrativos, em especial as breves cenas onde entram sons do dia-a-dia, a evidenciar a diferença brutal de paradigma introduzido pelo cinema sonoro. Um obstáculo tremendo para o artista que fizera furor antes do som e da exuberância da cor. 
É brilhante o desempenho dos dois protagonistas, numa versatilidade mímica, que nos proporciona um ritmo narrativo surpreendentemente rico. E digerível. Ali, o gesto é tudo e o silêncio cintila como ouro puro, claramente superior à palavra! Um silêncio realçado pela musicalidade bem adaptada ao enredo. Recorde-se que o fundo orquestral era prática corrente nas salas de cinema dos filmes mudos, sempre acompanhados por música ao vivo.
Os semblantes, os meneios e até os passos acelerados das personagens têm o humor dos filmes de Chaplin, onde todo o corpo comunica, sem ruído. Mas nem por isso menos expressivo. Apenas se ouvia (e ouve) a envolvência linda da música. A produção a preto e branco, as poses românticas, os cenários de há 100 anos, os nomes antigos e os fatos de museu, transportam-nos de imediato para um passado distante, que se vem a revelar mais familiar do que supúnhamos. No fundo, os anseios da humanidade mudaram pouquíssimo desde os alvores da criação. Inclusive os intertítulos em nada quebram o ritmo do filme, contribuindo na perfeição para o suspense. O «Bang», quase no final, é antológico, ampliando e aperfeiçoando o clímax daquela corrida contra o tempo e contra o desespero. 




A arquitectura da película comporta vários filmes dentro do filme, convidando-nos a descobrir o cinema por dentro, na cadeira do realizador. Logo no início, a sinalética mostrada aos actores, que assistem ao correr de uma película muda por detrás da tela gigante para onde o público olha fixamente (do lado da plateia), serve-nos na perfeição – «Silence behind the scene». É nesse silêncio perscrutador dos bastidores do palco, que somos convidados a observar o mundo de ilusões e sonhos da Hollywoodland. Naturalmente, como metáfora da vida. 
A ténue fronteira de actor para realizador (que foi transposta pelo protagonista) é semelhante à que separa o público dos artistas, apenas demarcada pela tal tela translúcida no avesso, mas opaca do lado dos espectadores, demarcando, por ilusão óptica, as diversas condições (no fundo, perspectivas) de uns e de outros. Afinal: tão longe, tão perto.
As razões que movem umas personagens e outras são cirurgicamente tratadas, sem   simplismos. Na mesma pessoa há lealdade e infidelidade, generosidade e crueldade. Bloqueante mesmo só o orgulho teimoso, que retira toda a flexibilidade, impedindo qualquer avanço… crescimento. Noutro intercala-se a gratidão com a vaidade egocêntrica, que asfixia os mais próximos. Noutro ainda, às fases de autoritarismo e de ganância, seguem-se pequenos intervalos de compaixão alheia. Assim desfilam as componentes desencontradas que se digladiam em cada um, ao sabor das opções de vida tomadas momento a momento. A partir delas, os caminhos pessoais disparam em direcções distintas, segundo os objectivos visados. 
Claro que o amor é a força mais criativa e salvadora daquela história. A única alavanca capaz de abrir uma brecha de luz num beco apertado e destrutivo. Um amor que se desdobra em zelo concreto pelo outro, e nem tanto o gozo da paixão limitada a um horizonte mais fugaz (embora tudo comece pela típica galanteria, inconsequente e algo infantil). Uma atenção nada simples, antes esforçada e por vezes sofrida, que se inclina perante a condição de quem sofre, para o reerguer e lhe devolver o futuro. Por coincidência, inscreve-se na linha da mensagem de Bento XVI para esta Quaresma: «Prestemos atenção uns aos outros (…) atenção ao bem do outro e a todo o seu bem... Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão.» 
Significativamente, o gesto simbólico que une o artista consagrado à jovem candidata, é o pequeno sinal que ele lhe desenha acima da boca (a lembrar o de Cindy Crawford), explicando-lhe que era o traço necessário para ela se distinguir das outras e ascender ao estrelado. Ela nunca mais o largou – primeiro ao sinal, mais tarde, ao artista veterano – parecendo comprovar a bondade da tese da diferenciação. Num certo sentido, também isso está na génese do amor verdadeiro, que reconhece o outro como único. Maximamente diferenciado. Insubstituível. Nesse aspecto, o sinal de identidade, tão útil para singrar no mundo frio dos negócios, também tem cabimento entre os amantes. Apenas com uma ligeira diferença, pois que o amor profundo dispensa sinais exteriores. Os olhos da alma vêem muito para além da materialidade .
O cão – perfeita extensão do artista – lembra o inseparável Milu, que ajudava Tintim a desenvencilhar-se das constantes alhadas. É memorável no filme a chamada do polícia, com a preciosa ajuda de uma velhinha, muito cívica e atenta aos outros, que se deu ao trabalho de decifrar um pedido de socorro no ladrar ansioso do pobre animal. Não fora a autoridade da velhinha e o tal agente ter-se-ia ficado pelo enxotar de um cão barulhento, que insistia em incomodá-lo…  


Por estranho que pareça, não foi fácil ir ao encontro do outro. Responder às suas necessidades mais prementes. Apoiá-lo no desgosto. Mais ainda na humilhação, onde o orgulho o enclausurara numa redoma perigosamente alheada da realidade. Para agravar tudo, desbaratava qualquer tentativa de assistência, como se esta rebaixasse. Felizmente, que ainda foi e é mais difícil resistir a quem acredita em nós, para lá de nós próprios, e nos supera em cuidados, permitindo-nos retomar ou desbravar um caminho positivo. Aquele caminho onde fazemos falta e de onde todos saem a ganhar. Nada complicado. Mas bastante exigente. Muito trabalhoso. Que outra coisa é a vida, sobretudo nas versões bem sucedidas? Alguém duvida, por exemplo, da azáfama incrível que envolve a produção de uma peça de alta-costura, algumas delas verdadeiras obras-de-arte? Se é assim com realidades menores, que são os enfeites para as pessoas, fará com as maiores, que são as próprias pessoas?
  


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
THE ARTIST
Título traduzido em Portugal:
O ARTISTA
Realização:
Michel Hazanavicius
Argumento:
Michel Hazanavicius
Produzido por:
Thomas Langmann
Fotografia:
Preto e Branco
Banda Sonora:
Ludovic Bourse.  
Produzida na Bélgica e interpretada pela Orquestra belga Brussels Phillarmonic, sob a batuta do maestro Ernst Van Tiel.  Inclui também uma canção original, de 1936 – «Pennies from Heaven».
Duração:
100 min.
Ano:      
2011
País:
FRANÇA
        Elenco:

Jean Dujardin (George Valentin, o galã do mudo)
Bérénice Bejo  (Peppy Miller, a aspirante a diva),
Uggie  (o cão)
James Cromwell (o fantástico chauffer)
John Goodman   (Al Zimmer)
etc.          
Site oficial:

http://weinsteinco.com/sites/the-artist/

Premiado em Berlim e nomeado para 10 óscares.


2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom comentário a um belíssimo e original filme! Boa, MZ. pcp

Anónimo disse...

Thanks pelo comentário tão querido, como sempre. MZ

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