quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Moleskine

15 de Fevereiro. Celebrou-se ontem o dia internacional das crianças com cancro. A efeméride tem pouca relevância em Portugal, se bem que noutros países haja actividades diversas, não só de angariação de fundos, como de sensibilização da sociedade. Alguns números globais que revelam a dimensão desta doença: prevê-se que em cada ano 175 mil crianças sejam diagnosticadas com cancro. Destas, aproximadamente 90 mil irão morrer. Estes números constituem uma aproximação, porque em muitos países não há registos e os diagnósticos não são correctos. O cancro continua a ser a doença que mais crianças mata nos países desenvolvidos. Este parágrafo pode parecer frio mas está cheio de lembranças, nomeadamente da minha passagem por Harare, onde as estatísticas serão particularmente negras. 

Prémio Lux Woman. A minha querida amiga Piedade Líbano Monteiro foi eleita Personalidade Feminina pela revista Lux, na categoria Solidariedade. É um orgulho muito grande ver o nome dela a brilhar mais publicamente. Há cerca de um ano, por causa de uma outra candidatura, pediram-me um texto sobre ela. Partilho-o:
Há mulheres que são de antes quebrar que torcer. Não no sentido da dignidade, que a têm sempre, mas no sentido da acção, que as move em permanência.
Conheci a Piedade quando ela - ao contrário de tantos de nós, vítimas de uma correria sem norte – se recusava a admitir que o tempo, como a água, podia ser um bem escasso. O relógio que ela usava era apenas um instrumento para a pontualidade, não um limitador para a solidariedade. Ao contrário de nós, escravos de uma vida demasiado agendada, a Piedade olhava para o mostrador e decidia: tenho sempre tempo.
No meio de todo o vendaval que lhe fustigou a vida, a Piedade poderia recostar-se e, perante a compreensão de todos, dizer: lamento, mas já não posso mais; se não se importam deixem-me sentadinha em sossego.  Mas, de facto, não foi assim. Olhou para o relógio metafórico onde cabiam todos os necessitados e decidiu: tenho sempre tempo. Depois, com o entusiasmo de quem planeia umas férias no paraíso, sonhou, fundou e desenvolveu de forma sólida a APSA, dedicada a quem sofre do síndrome de Asperger, perante o orgulho com que os amigos sempre a fitam.
A Piedade tem a expressão caridade, no seu sentido mais bonito, inscrita nos genes. Não desiste, vai à luta, enfrenta as adversidades, olha para os outros, para quem mais precisa, e decide que tem sempre tempo. Move-a um humanismo invulgar, uma espiritualidade cristã que nos inspira pelo exemplo, nos desinstala pela comparação.
Há mulheres que são de antes quebrar que torcer. A Piedade é uma delas. E todos nós agradecemos.

Livro. Leio O Sentido do Fim (Julian Barnes, vencedor do Man Booker Prize 2011). Da contracapa: Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém – pelo menos acredita nisso. Mas a chegada da carta de uma solicitadora desencadeia uma série de surpresas, acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita. O Sentido do Fim é assim a história de um homem que se confronta com a mutabilidade do seu passado.

Silêncio. Há um ror de anos, um colega de fábrica relembrou-me a sabedoria dos povos: se temos duas orelhas e uma boca é para ouvirmos o dobro do que falamos. A frase ficou-me no ouvido com o estatuto das coisas de almanaque. Durante muito tempo mantive-me interventivo em conversas e discussões, batalhando, argumentando, falando mais do que ouvia. A minha vida mudou, nas suas facetas pessoal e profissional. Hoje convivo com o silêncio – e convivo bem, se bem que tema a adição. Sou menos participativo, sou mais ouvinte e, nalguns casos, sou menos repentista, isto é, os juízos que faço são atenuados por uma ausência benéfica de som que promove a introspecção. Gostava que tudo isto fosse uma qualidade, um caminho que vou percorrendo. Talvez não seja mais do que uma tristeza: com tanto silêncio à minha volta perdi a experiência e o gosto pela argumentação...

Silêncios. Por motivos profissionais, duas vezes por semana ando de comboio (Estoril / Lisboa e regresso). Obsessivo que sou relativamente a algumas menoridades da vida, dou por mim a embirrar com as conversas do próximo ao telemóvel. Durante duas semanas apanhei um cavalheiro que ocupou sete estações e apeadeiros na partilha dos planos de caça, tendo informado, a quem o quis ouvir, do preço privilegiado de uma cadela nova. Ontem apanhei uma brasileira que, ao entrar no Cais do Sodré, já vinha a debitar inutilidades no seu nokiazinho. Quando saí no Estoril ainda continuava, num monólogo apneico de endoidecer. Não fosse um lampejo de lucidez que ainda me resta e tinha-me levantado para lhe dizer: cale-se! Por tudo o que é sagrado no seu Ceará natal, cale-se. Já me viram isto?

Silence is golden. Se bem que ache o nome da banda ligeiramente perturbador... Fica a nostalgia, para que não falte argumentos a quem gosta de demolir as minhas opções musicais.   



JdB

2 comentários:

Anónimo disse...

Isto são as conversas com o meu pai à quarta e à sexta:
- Olá Pai, precisava que...
- Shiiiiiu, ligo mais tarde - Tudo isto em tom de surdina.
- Está em reunião?
- Não, pshhhiiu, estou no comboio - em tom ainda mais de surdina.
Um dia perguntei-lhe porque é que não falava ao telefone no comboio, disse-me que não gostava que a populaça ouvisse as conversas dele tal como ele não queria ouvir o que os outros tinham para dizer.
É o meu paizinho, coitadinho (mas eu gosto dele na mesma)... TdB

Ana CC disse...

Silencio é ouro, sem dúvida, mas acredite que prefiro um comboio cheio de gente a falar aos gritos do que uma viagem de 30 minutos rodeada de silenciosos e patilhosos tremeloes de franja, vestindo camisas de cetim, blazer ás riscas e calças à boca de sino. Já para não falar da musiquinha melosa que me poderiam cantar aos ouvidos.
Gosto duvidoso o seu!

Agora a sério.
Ainda bem que voltou com o seu Moleskine. Continuo a gostar dos seus salpicos.
Boa semana

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