segunda-feira, 16 de julho de 2012

Vai um gin do Peter’s?

Já a pensar nos preparativos para férias, há um livro do António Pinto Leite que poderá ser útil entrar na bagagem, nem que seja pela originalidade do tema: «Amor como Critério de Gestão»(1). Editado, há dias, pela Principia, soma a vantagem do tamanho pocket. Antes de saltar para os Monty Python, no final do gin, explico melhor o interesse do livro: 
Convenhamos que o amor até joga bem com bastantes temas, mas esticará até ao mundo empresarial? E logo como critério  de gestão? Bom, se nos lembrarmos que no âmago da gestão encontramos pessoas, talvez comece a fazer, vagamente, sentido. O mais curioso, ainda assim, é a postura arejada e profissional do autor, que não desvaloriza nada a importância dos resultados, i.e., da produtividade e dos lucros, compatibilizando-os com a realização pessoal de cada colaborador. Mais: concebe-os como objectivos convergentes e complementares. Numa entrevista dada por ocasião do Congresso da ACEGE (1-2 de Junho), Pinto Leite lança o mote da tese desenvolvida no livro e amplamente debatida naquele encontro(2) sobre esta invulgar, mas possível e desejável, conciliação de propósitos.


Consciente da ousadia da proposta, o entrevistado explica o seu ponto de partida: «(O amor) é o critério de liderança mais exigente que conheço, para o próprio líder e para os outros. (…) Pessoas felizes fazem empresas produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva e uma economia competitiva é a base de uma sociedade justa. O amor não é um intruso na competitividade empresarial, é o seu maior aliado

Não hesita em expor as vantagens:
- «Falamos de amor para tornar a economia mais competitiva e a sociedade mais justa
- «(O amor na gestão) prevalecerá como critério facilitador das decisões empresariais e profundamente pacificador para tantos homens e mulheres de boa vontade que empreendem e têm responsabilidades nas organizações. (…) A novidade desta reflexão é trazer os concorrentes para dentro da nossa responsabilidade
- «(A) vocação central dos homens de boa vontade deve ser o acolhimento recíproco e a compreensão de que o amor é o ponto de encontro que a todos permite contribuir para o bem comum, caminhando cada um no silêncio do seu mistério
- «Temos ainda dois factores a nosso favor para resistir com esperança e pensar positivo: primeiro a globalização (…) oportunidade espantosa para um pequeno povo que fica com o mundo inteiro à sua disposição

Também não se esquiva às óbvias resistências e objecções que o tema provoca:
- «Falar de amor no mundo dos negócios pode parece de um idealismo vão, ridículo ou inoperacional. Mas não é. Significa tratar os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles
- «O confronto do amor com a economia e com, as empresas é um confronto improvável. (…) Ainda bem que (o tema) traz consigo um ideal do Homem, um ideal de empresa e um ideal de vida. Um dos males do mundo é, precisamente, o excesso de objectivos e a escassez de ideais».  



Não se pense que as ideias aprofundadas no Congresso vaguearam num limbo sonhador e idealista, onde é fácil esgrimir chavões pueris e algo deslocados da realidade. Curiosamente, esboçaram-se soluções concretas, como por exemplo o pagamento atempado dos serviços adjudicados a terceiros. Bem sabemos quanto estes atrasos são mortíferos para a maioria das PME. O antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, chamou-lhe, sugestivamente, «A ética de quem honra compromissos», para acentuar a urgência em injectar valores humanos na economia.


Lapidares também, as palavras dirigidas por A.P.Leite ao Primeiro-Ministro, no discurso de abertura do Congresso: «O Senhor tem um grande povo atrás de si. Não somos gregos com mais juízo, nem queremos ser alemães com menos método. Somos Portugal, uma nação que quando se concentra e se organiza, vence sempre e sempre mais depressa do que os cépticos profetizam
Até se arriscou a ampliar o amor a outras áreas, onde parece não ter lugar – na política: «Mais impressivo do que os políticos não falarem de amor aos seus povos, é os povos terem interiorizado que não é suposto serem amados pelos políticos que escolhem para os governar. É uma patologia profunda da democracia moderna…»
Os títulos apelativos de várias das intervenções explicam bem a atitude positiva de muitos dos empresários participantes: «O valor económico do amor», «Desenvolvimento humano integral com base na verdade», «O homem, ‘uma razão dilatada’ que decide», «O homem, ‘um coração que vê’», «Uma economia aberta ao princípio da gratuitidade», «Da fraternidade ao bem comum».

UM OUTRO DESAFIO, q.b. NA ORDEM DO DIA

Numa disputa de ideias igualmente inovadoras, os fantásticos Monty Python propõem um ajuste de contas com a história, através de um despique delicioso entre dois tempos e duas mundividências. De um lado, a Antiguidade Clássica helénica. Do outro, o período áureo do Iluminismo e da Revolução Industrial. Uma personificada pela Grécia antiga. A outra pelo rol de grandes filósofos germânicos, desde o século XVIII até ao limiar do XX. O palco é o relvado verde do futebol, num estádio vibrante de fãs, para um derby antológico: Germany vs Greece.
Entre os treinadores, fiscais de linha e outros agentes do mundo do futebol, aparecem outros filósofos de referência, como Confúcio, Sto. Agostinho ou S.Tomás de Aquino.  A entrada em campo da equipa ateniense, com as longas vestes do tempo de Platão e Aristóteles, soleniza lindamente o momento marcante que ali se vive. Mas as peripécias sucedem-se: os jogadores germânicos entram em campo de cartola na mão, o reivindicativo Nietzsche recebe um cartão amarelo por ser impertinente com Confúcio, Kant alega que tudo apenas existe na imaginação, Marx faz uma entrada triunfal, a meio do jogo, para substituir Wittgenstein. A expectativa suscitada pela chegada espalhafatosa deste gigante com cabeleira de Sansão, dá um retrato perfeito de tantos políticos da actualidade, supostamente carismáticos e pomposos, de quem se tende a esperar mundos e fundos. Um puro equívoco, a mais das vezes. 
Claro que o actual desaguisado entre a Merkel e a Grécia tem feito correr este sketch na net, tentando lembrar os méritos da cultura helénica para a Europa. Mas esquecem-se que o filme foi uma encomenda alemã, de 1972… Repetiu-se a mesma azáfama na net, durante o Euro, a propósito do jogo entre a selecção alemã e a grega, novamente a desvalorizar a origem do filme, concebido para as Olimpíadas de Munique, em 1972, onde foi visionado, fazendo prevalecer, simpaticamente, a nação de origem dos Jogos, enquanto se parodiava com a nação-anfitriã, nos anos 70. Quem diria que a história daria tantas voltas… e as disposições de há 40 anos tinham feito uma inversão de 180º para tanta gente!



THE PHILOSOPHERS’ FOOTBALL MATCH

Concluir com os Monty Python é dos melhores arranques para férias.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
________

(1) 

(2) Seguem-se citações da entrevista e do discurso proferido por Pinto Leite na abertura do Congresso. No site da ACEGE podem ser consultadas várias das apresentações: http://www.acege.pt/index.aspx.

2 comentários:

Anónimo disse...

Belíssimo, MZ. Fundamental, diria! pcp

Anónimo disse...

Thanks a lot, pcp, pelo comentário tão entusiasmado e amigo. Bjs, MZ

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