quinta-feira, 18 de junho de 2015

Dos beijos - os nossos, que são de outro



Leio algures que o primeiro beijo de Elizabeth Taylor foi como actriz. Vou presumir que não foi o primeiro primeiro beijo, no sentido de duas bocas que se juntam e permanecem juntas, como o primeiro beijo que se dá a uma namoradinha de muita infância nas traseiras de um prédio com o barulho dos comboios ao fundo, e cuja memória perdura porque sim. Falo do primeiro beijo carregado de sensualidade e, quiçá, de desejo. Do primeiro beijo carnal, quase pecaminoso, quase convidativo, quase desafiante - todo ele perturbador.

Imaginemos que Elizabeth Taylor beijou o actor com quem contracenou - Mr. Smith - ao fazer de enfermeira num hospital para loucos. Ela, chamada Christine Ford, apaixona-se pelo médico - John Smith - e beijam-se apaixonadamente no canto de uma enfermaria, enquanto um esquizofrénico, um deficiente mental, um psicopata preso e um toxicodependente com tendências depressivas deambulam pelos corredores de olhos esbugalhados, batas de doente e mãos agitando-se freneticamente.

A experiência do primeiro beijo não pertence, então, a Elizabeth Taylor, mas a Christine Ford. O primeiro beijo  - o da carne, do desejo, da volúpia, todo ele carregado de uma sexualidade da época - não é dela, Elizabeth, que foi Taylor mas muito Burton. Foi ela que o deu, mas o beijo é de Christine, que para o efeito é uma enfermeira, mas podia ser uma advogada chamada Pamela, uma pedinte chamada Mary, uma prostituta chamada Antoinette ou uma condessa russa chamada Natalia. O beijo não é dela, mas foi ela que o deu. A boca é dela, mas está vinculada a um contrato, a um guião, a uma direcção de actores que manda beijar mais assim e menos assim, ao trabalho de encarnar uma enfermeira (ou uma condessa russa) de quem vestiu a pele durante semanas.

De quem é o desejo? Que memórias guardamos de uma primeira experiência forte em que não somos nós que lá estamos, mas o personagem para o qual fomos contratados? E para que serve pensar nisso?

JdB 

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