quarta-feira, 17 de junho de 2015

Do medo

A expressão nada me mete mais medo do que... é de utilização limitada. Poderão alegar que Deus me acuda também, ou mesmo valha-me Nossa Senhora da Agrela. Não sei se Agrela existe e, para um conjunto alargado de pessoas - muito alargado, mesmo - não existe nenhum deus, menos ainda um que se escreva com um 'd' maiúsculo. No fundo, ambas as expressões se incluem numa espécie de jargão técnico, como dizer sem ónus nem encargos ou volume de líquido por unidade de tempo. Para além de uma crença que tudo justifica, apelar à intervenção do divino ou de uma variante de Nossa Senhora é tão válido como usar expressões jurídicas ou do ramo das engenharias. Talvez mais válido, sobretudo para aqueles para quem o Ancião da Eternidade é bem mais inócuo do que um causídico.

Nada me mete mais medo do que as pessoas que afirmam não ter medo de nada. E são estas a quem o início da frase está vedada, porque lhes surge como uma impossibilidade formal. Não se pode ter medo se não se tem medo. Logo, as pessoas que afirmam não temer nada falarão do ónus e encargo, do valha-me não sei quem. Mas não usarão a frase, pois seriam imediatamente expulsas desta confraria de gente destemida que, perante o desconhecido, uma granada ofensiva, uma auditoria fiscal ou um olhar para dentro de si afirmam com a mesma sobranceria inquietante: não tenho medo de nada.

No video abaixo seis forcados pegam seis touros. Espero que todos tenham tido medo, porque eu não quero ter medo dos forcados de Santarém. Espero que todos tenham tremido um pouco, se tenham assustado um avo de segundo com uma besta de 500 Kg a correr na sua direcção, com a possibilidade de uma cornada que os atira contra uma trincheira, uma cama de hospital ou um sufoco de namorada de mão angustiada na boca.

Ter medo é bom, porque é a evidência da nossa condição de humanos. A arte não está em não ter, mas em vencer. Treinar, ser corajoso, ter força de braços ou de pernas, ter fé num céu que previne o pior ou nuns colegas que previnem o pior, ter uma superstição que ajuda e não ofende, ouvir barbela como representativo de uma força interior, não de uma bazófia exterior. 

Tenho medo daqueles que não o têm. E por isso espero que os forcados, um gente toda valente que enfrenta uma besta feita de peso, velocidade e imprevisibilidade, tenha medo. Detestaria ter medo deles, pois já me chega aquilo que receio. Não preciso de mais.

JdB  


Forcados Amadores de Santarem - As pegas da corrida do centenario from Faenas TV on Vimeo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Olé
pela aplauso JDB corta rabo e orelhas.

".....e disse no dim de tremer três vezes:
aqui estou mais do que..."
in mostrengo, fernando pessoa

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