segunda-feira, 29 de junho de 2015

Vai um gin do Peter’s?

No MNAA(1), até 6 de Setembro, está em exposição boa parte da obra da primeira grande pintora portuguesa, revolucionária a vários títulos – Josefa de Óbidos (1630-1684). Chamava-se Josefa de Ayala (filha de espanhola) e assinava como “Josefa em Óbidos”, referindo a cidade onde funcionava o atelier. Viver longe da capital do império, quando a falta de meios de transporte aumentava muito a distância, não atrapalhou nada o seu enorme fluxo de encomendas e vendas.

Só o facto de fazer carreira como pintora em pleno século XVII já é uma raridade. Soube somar o talento artístico ao sucesso comercial, vivendo muito à frente do seu tempo embora numa versão sóbria e hábil. Aprendera o ofício com o pai, exímio a pintar paisagens mas um descalabro com os dinheiros. Acumulou dívidas e mais dívidas, que Josefa foi liquidando com eficiência, como tudo na sua vida profissional. A sua óptima gestão financeira permitiu-lhe adquirir inúmeros terrenos e gerar uma fortuna considerável, que legou às sobrinhas que, entretanto, adoptara, dando indicações precisas para a herança seguir pela descendência feminina, como que a desafiar o costume do morgadio. Tudo atípico e quase provocador.

O título da mostra acentua o contributo dado à história da arte nacional como precursora do estilo dominante na Europa seiscentista, ao qual deu um cunho muito original: «JOSEFA DE ÓBIDOS E A INVENÇÃO DO BARROCO PORTUGUÊS».
O zoom sobre o rosto primoroso da menina de uma das suas telas decora as ruas de Lisboa, exibida em moopies estrategicamente situados. Como se o Museu tivesse invadido a cidade, enchendo-a de lisboetas simpáticas e de uma beleza soft. Tudo bastante português.

Os seus rostos ovais, q.b. abonecados, com olhos enormes de expressão meiga e bocas pequenas marcou o barroco português, distinguindo-o do espanhol, segundo os comissários das Exposição. Os tons leves da sua paleta também se diferenciaram das tonalidades carregadas e exuberantes dos artistas espanhóis. A tranquilidade que imana dos seus óleos nada tem a ver com os contrastes fortes que são apanágio do barroco de outras latitudes. Até o jogo de claros-escuros assume na portuguesa um efeito cénico, alegre e ligeiro, de penumbras decorativas que nunca assustam nem intimidam. Antes sublinham as figuras iluminadas. À maneira do barroco, trabalha o detalhe ao limite, apesar de conseguir uma leveza imprevista. No fundo, replica a proeza da filigrana. De certo modo, a sua obra saboreia-se na aproximação, exigindo tempo e uma observação minuciosa.
O rigor e a beleza dos pormenores



Outra especificidade do seu barroco é a densidade interior das figuras, enxutas e sem puxar à emoção, mesmo quando vivem momentos dramáticos. Um pudor que se aproxima mais do Oriente que do salero da Europa do Sul. Talvez já se fizessem sentir as influência dos territórios do império, na Ásia. Como comentou um dos comissários desta exposição, Joaquim Caetano, sobre o rosto de Maria Madalena aos pés da cruz, no retábulo da Misericórdia de Peniche: «Está triste, mas é difícil que a gente chore com ela.». Perpassa ali uma afectividade que deriva de uma devoção mais recatada e doce, alheia aos arrebatamentos do barroco espanhol e italiano. Há quem lhe chame a pintora da doçura. Mas frisa um dos comissários que se prende com um atributo divino. Por isso se torna marcante na sua pintura sacra, que foge ao realismo ostensivo e perturbador das telas espanholas contemporâneas.

Adoração dos Pastores (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
Uma estética consciente e intencional, aliviada da carga emocional
característica do barroco. Note-se que para Sta. Teresa de Ávila,
a doçura era um atributo do divino

Pouco comum na sua abordagem suave e estilizada é o «Cristo flagelado» (1670), de uma violência explícita. Mesmo a posição, a mostrar as costas ensanguentadas, é invulgar. A frase latina no topo clarifica o propósito: «Sobre as minhas costas lavram os pecadores», enquadrando o crucificado com panejamentos ornamentais.
Vale a pena referir, em traços largos, a sua vida, de uma ousadia singular, embora sem sobressaltos nem espalhafato. Antes subtil, como o traço suave do seu pincel. Filha de pintor português e mãe andaluza, nasceu em Sevilha mas mudou-se para Portugal na tenra infância, instalando-se em Óbidos. Com enorme faro para o negócio, montou e geriu um atelier que se tornou famoso, emancipando-se do pai, desastroso nas finanças. Uma opção arriscada e nada fácil para um artista, menos ainda sendo mulher. Soube fidelizar clientes como poucos, tornando-se a pintora de palácios e conventos, designadamente de várias ordens religiosas femininas. 
De Espanha herdou o gosto pelas naturezas-mortas, nada cultivado em Portugal, fornecendo palácios e casas burguesas. Note-se que só começa a assiná-las depois de o pai morrer, em 1674.
Natureza Morta com Doces e Barros, na Biblioteca Municipal Braamcamp Freire, Santarém    

Naturalmente que na época, a arte sacra predominava sobre as temáticas laicas. Além disso, até recentemente, tendia-se a menorizar as naturezas-mortas, até pela ausência das figuras humanas. Tudo junto, resultou num caldo muito desfavorável ao seu legado artístico.
Sabendo da torrente de equívocos que pairam sobre Josefa de Óbidos, a exposição propõe-se alterar a impressão de que se ficou por naturezas-mortas a lembrar o chá das cinco ou por uma arte sacra igualmente adocicada. A maioria desconhece a obra prolífica e eclética que deixou, realçando as figuras e demais elementos do primeiro plano sobre fundos hiper simplificados. Era o pai que trabalhava os cenários envolventes, enquanto houve parceria. Nas palavras de um dos comissários (Joaquim Caetano): «Pretendemos mostrar que, ao contrário do que se pensa, ela não é (apenas) uma pintora de naturezas-mortas. Não é uma rapariga que está fechada em casa a pintar bolinhos
O testemunho de Miguel Torga exemplifica a desilusão de muitos intelectuais que viram a exposição do MNAA, em 1949, taxando a artista de provinciana monótona e pouco dotada, desmerecendo que era invulgarmente culta e emancipada. Claro que também conta a maior ou menor empatia com a sua estética. Bem desagradado, arrasou-a no seu Diário: «A senhora faz renda com os pincéis. Que falta de imaginação, que miséria de desenho, que geleia aquilo tudo! Enquanto um baboso se extasiava diante de um Menino Jesus rechonchudo, que parecia uma trouxa-de-ovos, raspei-me. Raça de portugueses que não dão um pintor que se aproveite!»
A exposição privilegia a lógica temática, começando por uma síntese onde se acompanha a fase de aprendizagem e se exibem também as telas do pai e mestre – Baltazar Gomes Figueira, permitindo a comparação. Segue-se o grupo de naturezas-mortas, que era uma temática comum em Espanha, mas rara em Portugal. A última sala reproduz o ambiente de uma igreja barroca com 3 retábulos da sua autoria: o da Misericórdia de Peniche, sendo a primeira vez que os vários painéis voltam a estar reunidos, desde que foram separados no século XVIII; o da vida de Santa Teresa de Ávila proveniente da Igreja Matriz de Cascais; e duas santas de um retábulo que existiria na sacristia da Igreja Matriz da Lourinhã.
 O texto de apresentação no Museu realça o valor da pintura de Josefa de Óbidos:

Mais de 130 obras (pintura, escultura e artes decorativas) vindas de várias instituições nacionais e internacionais, como os museus do Prado e de Bellas Artes de Sevilha, o Mosteiro do Escorial e de inúmeras coleções privadas, portuguesas e estrangeiras, compõem uma mostra inovadora, que o Museu Nacional de Arte Antiga, em parceria com a Ritmos, preparou para o verão de 2015.

Josefa de Ayala nasceu em Sevilha em 1630. Filha do pintor Baltazar Gomes Figueira (Óbidos, 1604-1674) e de uma andaluza, Catarina de Ayala, veio para Portugal em 1634, quando o pai regressou com a família à sua terra natal, Óbidos. Na pequena vila, Baltazar continuou a sua carreira de artista, introduzindo entre nós a pintura de naturezas-mortas, à maneira do bodegón sevilhano, que a filha também veio a cultivar.

A fama e estima que rodearam a obra de Josefa atravessaram o tempo, sendo ainda hoje vasto o volume de trabalhos preservados. Caso ímpar de mulher artista, confinada ao espaço limitado de Óbidos, onde permaneceu quase toda a vida, converteu-se, não obstante, no mais eficaz e reputado expoente do Barroco português, no ciclo que se seguiu à Restauração.

Mais do que as naturezas-mortas que a celebrizaram, distingue-a, de facto, a criação de um imaginário piedoso, com que soube responder às aspirações de um Barroco que Portugal modelou no seu próprio modo, inserindo, no seu decorativismo exacerbado e festivo, uma forte componente teatral.

Corrigir a ideia de uma pintora curiosa mas provinciana, e apresentar Josefa de Óbidos como uma artista culta e como um evidente reflexo da espiritualidade da época, é um dos objetivos desta exposição.


Apreciar a originalidade do legado de uma mulher única no panorama cultural português do século XVII vale bem a visita ao MNAA que, além disso, tem um jardim fantástico, de onde se avista o Tejo. Muito desintoxicante. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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