quarta-feira, 18 de julho de 2018

Vai um gin do Peter’s?

O RETÁBULO PREFERIDO DOS LADRÕES, DESDE O SÉC. XV

Quando os irmãos Hubert e Jan Van Eyck pintaram o magnífico políptico «Adoração do Cordeiro» (1426-1432), não terão imaginado que, para lá do fascínio causado pela beleza extraordinária daquele óleo gigantesco, viesse a ser alvo dos maiores assédios. Em seis séculos, foi roubado 6 vezes, algumas a soldo de conquistadores insaciáveis como Napoleão e Hitler! Por junto, foi objecto de 13 crimes, tornando-se na obra de arte mais atacada, até hoje. 

No código simplificado dos assaltantes e dos turistas, o famoso políptico é mais conhecido por «Retábulo de Gand», salientando a morada indispensável para o assalto ou para a visita cultural: a cidade belga de Gand, onde está exposto na Catedral de S.Bavão. 

Englobando frente-e-verso: o conjunto possui 24 parcelas pintadas sobre madeira de carvalho, com as dimensões de um portão avantajado e peso superior a um elefante adulto. Infelizmente, nem peso, nem tamanho o protegeram da cobiça. O seu valor incomensurável para a Arte ocidental acabou por atrair os maiores (e piores) saqueadores da História, ávidos de possuir a primeira grande pintura a óleo, o primeiro mega-painel do Renascimento, precursor do realismo artístico e clímax da riqueza filigrânica aplicada à pintura. Alguns historiadores de Arte consideram-no o quadro mais importante alguma vez feito. A somar à sua beleza ímpar, a suprema qualidade artística do Retábulo elevaram-no a expoente da produção dos «Primitivos Flamengos». 

As desventuras do políptico iniciado por Hubert (morreu em 1426) e concluído por Jan começaram, a partir de 1566, com a perseguição calvinista à arte sacra. Teve logo de ser desmontado e escondido na torre da catedral, para escapar à razia destrutiva dos iconoclastas seguidores de Calvino, que arrombaram a porta da catedral em busca da obra. Mais tarde, as tropas napoleónicas desviaram quatro painéis para o Louvre, restituídos 20 anos depois, por Luís XVIII. Na I Guerra, as tropas do Kaiser alemão Guilherme II levaram as asas laterais para Berlim, mas foram obrigados a restituí-las, em 1919, por imposição expressa do Tratado de Versailles. Em 1934, dois painéis foram surripiados para obtenção de resgate astronómico, tendo-se recuperado um. Durante a ocupação nazi, na II Guerra, o Retábulo voltou a desaparecer, até ser resgatado pelo grupo de especialistas dos Aliados incumbido de reaver as muitas obras subtraídas pelo Reich aos museus e colecções privadas da Europa. Os hábeis Monument Men (1) desencantaram-no, em 1945, nas catacumbas da mina de sal de Altaussee, na Áustria. Actualmente, está em restauro parcial, prevendo-se que retorne à Catedral de Bavão, em 2020. 

A obra magistral – pintada ao serviço do Duque de Borgonha, Filipe o Bom – oferece duas visões distintas: uma, com as portadas/asas fechadas, repletas de figuras de tons sóbrios, a assemelhar-se às esculturas em pedra policromada, que antes fechavam os polípticos dos altares-mor, justificando os notáveis efeitos de «trompe l'œil»; outra, com as asas abertas a desdobrarem-se em 12 painéis surpreendentes pela explosão de cor. 


Versão aberta, que ocorre aos Domingos e em dias de festa religiosa.
O painel dos «Juízes justos» extraviou-se no roubo de 1934,
tendo sido substituído por um óleo de Jef Vanderveken, em 1945. 

A profusão de símbolos é tão intensa e erudita, que continua a ser objecto de investigações exaustivas. Na próxima imagem, identificam-se os 12 painéis, seguindo-se uma curta-metragem com visita guiada ao políptico, pelo especialista Jean Delumeau:

No canto superior direito, a gravidez de Eva indica a Vida que se renova,
enquanto acima se expõe o atentado à vida cometido por Caim. No polo oposto,
acima de Adão, vê-se o ciúme de Caim pelo facto de o irmão ser tão amado por Deus.

No painel do Cordeiro: a Pomba do Espírito Santo destaca-se com um foco de luz intenso;
14 anjos fazem a guarda-de-honra a Cristo-Cordeiro;
à esq., profetas judeus ajoelhados exibem o Livro Sagrado;
atrás, perfilam-se os Homens de Boa Vontade, de diferenças raças e latitudes,
entre pagãos anónimos, filósofos e artistas;
à dta., os doze apóstolos; logo atrás, os Papas santos e demais clérigos; ao fundo,
os mártires com o grupo das mulheres mais à direita. 


A pujança cromática do lado interno dos painéis, quando as asas laterais se escancaram, visa expressar o esplendor do paraíso, numa alegria pacificante e majestosa, habitada pelas principais figuras bíblicas que, desde o Antigo Testamento, convergem para o Cordeiro Místico, símbolo-maior do Cristo da Nova Aliança, que salva a Humanidade da morte e franqueia-lhe a felicidade eterna.

Para se perceber a minúcia que a dupla Van Eyck imprimiu até ao mais ínfimo pormenor, vale a pena um zoom sobre adereços menores. Existe mesmo a possibilidade de explorar os 12 painéis interiores à lupa, através do link  http://legacy.closertovaneyck.be/#home/sub=open. Chegam a distinguir-se as manchas de sujidade no calçado dos peregrinos ou as plantas da paisagem retratadas com a acuidade de um tratado botânico. Cada detalhe aporta um significado ao todo, procurando espelhar a realidade com o máximo rigor.

A perfeição do traço permite identificar as flores na coroa da Virgem:
a flor-de-lys é símbolo da pureza; o lírio-do-vale representa a humildade;
as columbinas ou aquilégias a docilidade; e as rosas selvagens o amor.

Chega-se ao requinte de os pequenos dragões metálicos da fonte da Vida
reflectirem as janelas da capela da Anunciação.

Além de pintor exímio, o mais novo dos irmãos – Jan (1390-1441) também foi assessor diplomático do Duque mecenas, o que o levou a Castela para intermediar nas negociações do casamento do borgonhês com Isabelle d’Urgell. Participou, igualmente, na deslocação a Lisboa para avaliar a possibilidade de casamento com a Infanta Isabel, filha de D.João I, de quem realizou dois retratos. 

Réplica em colecção privada. O original, de 1428-29, extraviou-se.
Correspondeu ao retrato de noivado da Infanta da Ínclita Geração,
que foi a terceira mulher de Filipe III de Borgonha. 

Ao regressar à empreitada do «Cordeiro Místico», depois de cumpridas as tarefas diplomáticas nas duas capitais da Península Ibérica, Jan ter-se-á encarregue das pinturas individuais, completando o desenho e toda a concepção do políptico que Hubert já assegurara. 

No painel cimeiro do interior, aos pés de Deus-Pai, lê-se uma inscrição latina que é um programa de vida paradisíaco: «VIDA SEM MORTE, JUVENTUDE SEM VELHICE, ALEGRIA SEM TRISTEZA, SEGURANÇA SEM MEDO.» O requinte deste Retábulo, que continua a apaixonar gerações após gerações (levando alguns à loucura da possessividade e do saque), condensa o sentido da entrada de Cristo na História humana, conferindo-lhe uma nova dimensão emancipada do tempo, i.e., Vida Sem Morte, Alegria Sem Tristeza…    

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)
__________________
(1) Inspiraram um filme realizado por George Clooney, em 2014.  

2 comentários:

Anónimo disse...

Lindo.
Ah:)))))

Anónimo disse...

Mt obrigada, consciente que o mérito é dos manos Van Eyck, MZ

Acerca de mim

Arquivo do blogue