terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Poemas para o dia de hoje

Namorados do Mirante

ELES ERAM mais antigos que o silêncio 
A perscrutar-se intimamente os sonhos 
Tal como duas súbitas estátuas 
Em que apenas o olhar restasse humano. 
Qualquer toque, por certo, desfaria 
Os seus corpos sem tempo em pura cinza. 
A Remontavam às origens — a realidade 
Neles se fez, de substância, imagem. 
Dela a face era fria, a que o desejo 
Como um hictus, houvesse adormecido 
Dele apenas restava o eterno grito 
Da espécie — tudo mais tinha morrido. 
Caíam lentamente na voragem 
Como duas estrelas que gravitam 
Juntas para, depois, num grande abraço 
Rolarem pelo espaço e se perderem 
Transformadas na magma incandescente 
Que milénios mais tarde explode em amor 
E da matéria reproduz o tempo 
Nas galáxias da vida no infinito. 

Eles eram mais antigos que o silêncio... 

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

***

Os Namorados Lisboetas

Entre o olival e a vinha 
o Tejo líquido jumento 
sua solar viola afina 
a todo o azul do seu comprimento 

tendo por lânguida bainha 
barcaças de bacia larga 
que possessas de ócio animam 
o sol a possuí-las de ilharga. 

Sua lata de branca tinta 
vai derramando um vapor 
precisando a tela marinha 
debuxada com os lápis de cor 

da liberdade de sermos dois 
a máquina de fazer púrpura 
que em todas as coisas fermenta 
seu tácito sumo de uva. 

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

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