segunda-feira, 11 de abril de 2011

Vai um gin do Peter’s?

Avançando no circuito de exposições temporárias do Museu do Oriente(1), iniciado no gin de 28 de Março (Telas ao vento e Viagens de artistas), mergulhamos nos séculos XVI-XVII:

III) ARTE ORIENTAL INSPIRADA NOS PORTUGUESES (até 31 de Maio)

No primeiro andar, espera-nos a mostra intitulada «ENCOMENDAS NAMBAN», exibindo peças no estilo artístico que resultou da chegada dos portugueses ao Japão – 1543.

Outra data marcante na história das relações luso-japonesas corresponde ao ano em que o grande missionário, Francisco Xavier, aportou no Império do Sol Nascente – 1549.

Namban-jin corresponde ao termo aplicado aos nossos navegadores – os «bárbaros do Sul» – pintados com narizes proeminentes, calças de gibão, longas barbas e chapéus vistosos. Assim povoam os biombos e outros objectos de uso corrente, geralmente em cenários portuários, onde se avistam as naus com as inconfundíveis bandeiras de cruz latina hasteadas ao vento ou a passear-se nos ambientes idílicos dos jardins à japonesa, entretidos em caçadas e noutras actividades faustosas, próprias de Shoguns.


Se tentarmos recuar cinco séculos, não é fácil imaginar o que seria descobrir terras nunca vistas, conhecer gentes de feições inusitadas, ouvi-los numa língua incompreensível e, apesar de tudo, reconhecer neles amigos. Mais: estabelecer com os desconhecidos uma sintonia estreita, capaz de suplantar as óbvias distâncias! Nada menos do que isto conseguiu o Patrono das Missões, entendendo-se maravilhosamente no Japão, onde criou laços de amizade que escancararam (até 1639) aquela civilização aos costumes de um Ocidente que apenas vislumbravam através da presença do seu novo amigo. Um feito notável, que mudou a história do mundo! Coube-lhe inaugurar o «século cristão» na terra dos Samurais, com especial incidência em Nagasaki, que ainda hoje preserva vestígios do culto introduzido pela Companhia de Jesus (também reconhecida como a primeira multinacional). De tudo isso falam as peças da exposição, em que os elementos lusos são reinterpretados pela estética oriental, dando origem a uma linguagem inédita.

Ao gosto asiático, os revestimentos são maximamente brilhantes. Sob madeira lacada a cor, sobressaem as aplicações em pó de ouro ou de prata, a formar figuras e desenhos geométricos, à base de temas florais (frequentemente, replicando os ramos arqueados e transbordantes da folhagem arredondada do feijoeiro japonês, lembrando contas de pérola), enriquecidos pelo espelhado leitoso das incrustações em madrepérola e das ferragens metálicas. Os materiais exóticos estendem-se ainda à tartaruga e às superfícies forradas a pele escamada de tubarão e de raia.

Baús, pequenos contadores, «escritórios de pousar» recheados de gavetinhas misteriosas, garrafas de saqué, camas, mesas, tabuleiros de majong ou objectos litúrgicos, de iminente influência portuguesa, adoptam a nova estética.

A predominância de mobiliário e demais peças em formato reduzido, sugere-nos terem sido concebidos para a bagagem dos viajantes. Isso é especialmente notório nos objectos devocionais, em dimensões itinerantes (mini-oratórios, estantes de missal de mesa, pequenas píxides com a inscrição grega do nome de Cristo «IHS», iluminuras em miniatura), ou nos móveis destinados ao arrumo dos documentos pessoais – os «escritórios de pousar» em tamanho transportável.


Às peças nipónicas acrescem as chinesas e as indianas, onde se destaca uma colcha espectacular, bordada a fio dourado, numa profusão riquíssima de figuras justapostas, de forma a constituir um entrelaçado de múltiplos relevos, em mesclas de ouro e fundo pérola. Lindíssimo e a lembrar as colchas de Viana mais antigas e festivas.

Nos biombos, destacaria os dois que antecedem a câmara escura onde se desenrola a exposição Namban:

- o mais imperdível fica logo à esquerda, depois de subir a escadaria: sobre o esplendoroso fundo de laca avermelhada ressalta, a ouro, o casario de Macau, num efeito surpreendente de vista aérea; um biombo em double-face, cujo lado oposto mostra a cidade de Cantão banhada pelo Rio das Pérolas, em ouro sobre laca preta. Uma peça magnífica do valioso património macaense, datada do século XVIII;

- virando à direita no topo da escadaria, avista-se um biombo com painéis de temática cristã cobertos de pinturas que igualam as ocidentais, emolduradas por uma cercadura tipicamente oriental, numa junção muito invulgar. Excêntrica mesmo, ao envolver elementos europeus com o exotismo asiático, em áreas demasiado diferenciadas, num diálogo de ecos desconcertantes, embora enriquecedores.

Um dado adicional da história dos Descobrimentos, decorrente da saída dos portugueses do Japão, um ano antes de Portugal recuperar a independência (1639): depois de um ataque cerrado da marinha holandesa às possessões comerciais lusas naquelas paragens (enfraquecidas durante o domínio espanhol, que dominava também a Holanda), a Casa de Orange conseguiu assegurar uma presença continuada na zona, operando a partir de Nagasaki, rapidamente convertida em radial das rotas mercantis do Pacífico. À arte Namban sucedeu então a arte Komo-jin, alusiva aos novos ocupantes de tez ruiva, oriundos do Norte da Europa.

Artistas japoneses pintam astrónomos holandeses em Dejima (1803-1817)

Passo a palavra a Sophia de Mello Breyner Andresen para encerrarmos a arte namban em beleza:

«Os Biombos Namban


Os biombos Namban contam

A história alegre das navegações

Pasmo de povos de repente

Frente a frente


Alvoroço de quem vê

O tão longe tão de pé


Laca e leque

Kimono camélia

Perfeição esmero

E o sabor de tempero


Cerimónias mesuras

Nipónicas finuras

Malícia perante

Narigudas figuras

Inchados calções

Enquanto no alto

Das mastreações

Fazem pinos dão saltos

Os ágeis acrobatas

das navegações


Dançam de alegria

Porque o mundo encontrado

É muito mais belo

Do que o imaginado.»

Sophia de Mello Breyner


IV) ETAPA EXPERIMENTAL – os cinco sentidos

Poderá completar-se a viagem cultural no simpático restaurante do último andar do Museu, onde se sente a proximidade do Tejo. Esperam-nos misturas originais em pratos decorativos. A alquimia do Chefe combina sabores portugueses e chineses, numa experiência exótica, com menu renovado mês-a-mês!

Antes de deixarmos a Ásia, vale a pena concluir ao som de um quinteto de pequenos guitarristas, que têm propagado a música oriental pelo youtube:

Mini artistas da Coreia do Norte

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(1) MUSEU DO ORIENTE - www.museudooriente.pt

Morada - Av. Brasília, Doca de Alcântara (Norte)

Tel. 21.3585244

Horário:

ENTRADA LIVRE NAS TARDES DE SEXTAS, DAS 18h ÀS 22h00.


1 comentário:

Anónimo disse...

Fico sempre impressionada com a tua capacidade de ires fundo nos assuntos! Não brincas, de facto, MZ! Quanto à Companhia de Jesus ser a primeira multinacional, acho o máximo! Adorei a expressão! Bjs. pcp

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