segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fórmula para o caos


  1. Como já há muito era expectável, Portugal vai a votos. Finalmente, se bem que por via da vontade de Sócrates, o Presidente da República dissolveu o parlamento e convocou eleições legislativas antecipadas. Era a única forma de proceder a uma tão necessária clarificação do panorama político-parlamentar do país.

São muitos os iluminados que defendem um governo de Salvação Nacional para fazer face à crise financeira, cada vez mais agudizada com a subida dos juros da dívida pública. No entanto, ainda nenhuma dessas personalidades conseguiu delinear esse consenso, descortinando uma saída para o maior dos problema: Sócrates.

Como será esse acordo de partidos? Agora, de repente, todos os líderes entrariam num governo com o primeiro-ministro demissionário? Depois de tudo o que marcou estas duas últimas legislaturas? Ou será que pensam que o secretário geral do PS, pelo seu próprio pé, optava pelo afastamento da cena política? É um jogo de intenções demasiadamente complexo e de difícil previsão e resolução. Quanto a mim, creio que a democracia representativa, do modo, uma pessoa, um voto, foi inventada e aplicada em Portugal precisamente para evitar este tipo de consensualismos. E quem faria oposição a esse governo de emergência? O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda? Querem uma oposição de rua, à base de manifestações e greves? Observem o que se passa em alguns países da União Europeia, que se deparam com o alarmante crescimento dos extremos (seja de esquerda, ou de direita) e que colocam o projecto europeu a caminhar sobre o arame. Por maiores que sejam as clivagens ideológicas, ou se quiserem, programáticas, o principal partido da oposição terá sempre que pertencer ao arco governativo, respeitar os valores da constituição liberal e defender o pluralismo partidário.


  1. Num dos derradeiros plenários parlamentares desta legislatura, os deputados da oposição brindaram o país com uma das decisões mais vergonhosas a que se tem assistido nos últimos tempos. Por mero populismo e eleitoralismo, revogaram o processo de avaliação dos professores. Claro que nunca entrei numa sala de aula sem ser no papel de aluno, claro que não faço a mais pálida ideia do que é ser professor. Contudo, conheço os partidos e os políticos que os compõem. Do PCP e do BE, outra coisa não seria de esperar. Em abono da verdade, até foram coerentes com a linha que sempre seguiram. Agora, PSD e CDS pontapearam os valores e a moral de uma forma inconcebível. Aliarem-se à FENPROF e ao seu guia da revolução Mário Nogueira não é digno de forças políticas que pretendem o poder executivo. Os votos dos professores descontentes não poderiam sobrepor-se ao mais importante.

Recorde-se que este modelo de avaliação agora revogado, foi introduzido pela anterior Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues no primeiro governo Sócrates. Depois de Sottomayor Cardia foi, provavelmente, a melhor titular do cargo desde o 25 de Abril. A melhor em termos técnicos, a muito má em matéria política. Maria de Lurdes Rodrigues materializava uma excelente directora-geral. Quando muitas vezes se atacam os chamados políticos profissionais, esquece-se que são esses que estão preparados, não só para tomar medidas, mas também para a arte de passar a mensagem. Foi essa arte que Maria de Lurdes Rodrigues nunca teve.


  1. O Presidente venezuelano Hugo Chávez foi agraciado com um prémio de promoção da liberdade de imprensa oferecido pela Universidade de La Plata na Argentina. Sim, o mesmo que desde 1999, altura em que tomou o poder, tem-se dedicado a perseguir todos os órgãos de comunicação afectos à oposição democrática, e que nacionaliza as estações de televisão que se recusem a transmitir os seus discursos de 5 horas ao domingo. Tendo em conta que o felizardo que recebeu o prémio na edição transacta foi Evo Morales, o júri da Universidade de La Plata não poderá ser acusado de incoerência.


IV. José Luis Zapatero anunciou num congresso do PSOE que não irá candidatar-se às eleições gerais de 2012. Muitos, nos quais me incluo, são os que retêm várias semelhanças entre o Presidente do Governo de Espanha e o primeiro-ministro de Portugal. Toda aquela panóplia socialista assente no endividamento público e do esbanjamento dos recursos fiscais, foram comuns aos dois chefes de governo ibéricos. Porém, o desapego ao poder e o saber sair quando não se é desejado (as sondagens prevêem o cataclismo eleitoral para o PSOE), marca uma importante diferença entre os aliados socialistas.


Pedro Castelo Branco


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