segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vai um gin do Peter’s ?

A dupla dos manos Coen está de volta com um filme que viu fugir-lhe tudo o que era Óscar, embora fosse candidato a dez. «INDOMÁVEL»(1) corresponde à tradução do original «True Grit», um osso (um pedregulho) duro de roer, bem à maneira daqueles realizadores.

Genericamente, o segmento dos indomáveis está sempre na mira dos manos. Mais do que os inteligentes e sobredotados, interessa-lhes o engenho aguçado pela necessidade, os homens de vontade férrea – essa força intrépida e muito pragmática que parece modelar o rumo da história. Escolhem sistematicamente os impermeáveis às contrariedades, erradicando-as à velocidade da luz, sem hesitar. Mas não se confunda com violência gratuita. Tudo reside no uso de meios de defesa/ataque desproporcionados, na lógica de eliminar mosquitos à pistola, se for essa a arma de estimação do indomável. Trata-se, portanto, de um problema de escala, e nem tanto de um combate sem motivos.

É hábil o título adoptado em Portugal, cingindo-se a um adjectivo de género indefinido, que omite o artigo definido para manter o desejável ecletismo. Porque permanece a dúvida sobre a personagem a quem melhor se aplica. Isso é óbvio nas primeiras cenas, mal a adolescente assume o comando da aventura, embora o atributo seja usado, a primeira vez, para caracterizar um US Marshal recomendável para a caça ao homem. Correspondia ao candidato preferido por Mattie (já irredutível aos 14 anos!), embora não fosse o primeiro na hierarquia do xerife. Simplesmente era o perfil do perseguidor destemido, implacável, que melhor se adequaria ao trabalho em questão, no entender dela.

Wayne (séc. XX) vs Jeff Bridges (séc. XXI) no papel de Marshal Reuben

O comportamento daquele true grit no tribunal confirmou a preferência da miúda, apesar de envelhecido, cego de um olho tapado à pirata (sem o menor complexo) ou o feitio áspero, a roçar a insolência. Basicamente: truculento, provocador e insensível ao perigo, como se pretendia. Claro que a vivacidade já hiper profissional dos advogados americanos, num povoado perdido do faroeste, no remoto século XIX, também estimulava o exercício da defesa e a aplicação eficiente da autoridade. Aliás, para imprimir maior celeridade ao processo judicial, a população também fazia justiça por mãos próprias, reclamando a pena capital e engrenando rapidamente na espiral de vingança, com a óbvia escalada de violência. Um western ao gosto dos manos Coen!

Intencionalmente, o filme dispara na cena da forca de três fora-da-lei, aplaudida por uma multidão justiceira. Percebe-se que é um momento inspirador para Mattie, obcecada por vingar o assassinato do pai, perpetrado por um ajudante traidor.

Estamos na era da corrida ao ouro e da ocupação de um território imenso, no interior do Novo Mundo. Ali proliferam os desordeiros, os colonos ávidos de dinheiro fácil, os aventureiros dispostos a tudo e uma polícia igualmente rápida a disparar o gatilho… Matar ou morrer decidia-se em centésimos de segundo, sem o menor prurido.

O humor cáustico dos Coen percorre toda a narrativa, sobretudo no irreverente Marshal contratado por Mattie. O seu estilo impiedoso parece uma extensão natural da paisagem agreste, pedregosa e árida do faroeste, onde acabamos contaminados pela sede aflitiva que nos atinge do lado de cá do ecrã... Sobrevive-se a custo naquele universo estéril, quase letal.

Ou sol ardente ou saraivada de granizo.

A primeira readaptação ao cinema, em 1969, valeu um Óscar a John Wayne, um senhor cowboy. Ou será ao contrário? Em 2010, o argumento trabalhado por Joel e Ethan Coen, a partir do livro de Charles Portis (1968), repõe o ambiente do Oeste e o difícil entendimento entre aqueles cavaleiros solitários, que apenas se dispõem a coordenar esforços para actuar em quadrilha nos assaltos e nas emboscadas. De resto, cada um por si e todos contra o xerife. Individualismo puro e duro.

Sobejava-lhe em irreverência e coragem o que lhe faltava em experiência e idade.

Foi nesse cenário inóspito que a adolescente – com a copa do chapéu do pai recheada a papel para lhe assentar bem na cabeça– se arvorou em polícia e se viu forçada a gerir os egos dos seus imprescindíveis colaboradores na caça ao homem. Ela própria era indomável, pelo que o trio só podia resultar no expoente da indomabilidade. A ponto de compensarem apenas com indomabilidade os inúmeros handicaps da sua equipa, completamente disfuncional! Incapazes de dialogar, ficavam-se por negociações ferozes ou monólogos egocêntricos. Qualquer tentativa de organização esbarrava no espírito fracturante de todos contra todos. Imprevistamente, sintonizavam de imediato na frente de combate, ao assumir o mesmo inimigo e dar prioridade absoluta à defesa mútua. Redundavam, assim, nos melhores aliados, mal o perigo espreitava. Sem lamechices nem afinidades e com muitíssimas razões de queixa do parceiro. Mas nem por isso menos capazes de gestos nobres em favor de um dos três, constantemente a arriscarem a vida sem a menor prudência. Por isso, quase no final sobressai o heroísmo generoso na luta, até ao limite das forças, para salvar um dos irritantes do trio.

Apesar da crueza genérica de mais um filme assinado pelos Coen, percebe-se que sejam poéticas as imagens pós-tiroteio, numa corrida desigual contra o tempo. A silhueta do true grit a cavalgar num deserto infindável, com Mattie nos braços, esfuma-se em tons azuis, que quase recortam no horizonte glacial uma Pieta do faroeste, claro que bem menos majestosa, mas muito empenhada em debelar o inimigo mais indomável – a morte!

Nota - esta imagem com pouca resolução não faz jus à qualidade da fotogr. original.

Percebe-se a decisão do Marshal de desistir da segunda tranche dos seus merecidos honorários, depois do trabalho cumprido. Aquela aventura sangrenta e justiceira tinha-se convertido numa missão de certo modo fraterna, a três. O dinheiro negociado para a caçada perdera a razão de ser. A lei da bala esgotara o seu alcance e já não servira o último empenho do seu coração – talvez o mais positivo de uma longa carreira de pistoleiro de sucesso. Assim, percebe-se que um atirador tão mortífero tenha mudado radicalmente de profissão (só podia) depois de uma aventura que culminara num esforço em favor da vida. Passou a dedicar-se a um circo itinerante, apostado em divertir as criancinhas do faroeste.

Insólito mas verosímil, como as flores raras que despontam por entre as pedras. No fundo, acreditamos bem pouco no ser humano, capaz de volte-faces incríveis. Não será esse o desafio da quadra pascal, porque Alguém reinveste em nós, ano após ano? Boa Páscoa a todos!




Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: True Grit

Título traduzido em Portugal: Indomável

Realização: Joel Coen, Ethan Coen

Argumento: Joel Coen, Ethan Coen

Produtores: Steven Spielberg (entre outros)

Produção: Paramount Pictures

Banda sonora: Carter Burwell

Edição de som: Skip Lievsay e Craig Berkey

Fotografia: Roger Deakins

Duração: 110 min.

Ano: 2010
País: EUA

Elenco
Jeff Bridges (US Marshal, apelidado de «true grit»)

Matt Damon (Ranger texano)

Hailee Steinfeld (a mais precoce dos 3 indomáveis)

Josh Brolin (o assassino na mira dos justiceiros)

Site official - http://www.truegritmovie.com/



2 comentários:

marialemos disse...

Post inspirador o seu Maria Zarco, do princípio ao fim. Parece ficar no ouvido teimosamente a música do filme, não é?
Obrigada.

Anónimo disse...

Sim, sim, a música e algumas imagens, com uma força incrível.Bj e Boa Páscoa, MZ

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