segunda-feira, 23 de abril de 2012

Vai um gin do Peter's?

A Embaixadora de Boa Vontade da ONU (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) com mais glamour – Angelina Jolie – tem-se dedicado, por inteiro, a causa humanitárias. Das difíceis.
No seu esforço intrépido por atenuar o flagelo dos párias da sociedade, Angelina adoptou um bebé cambodjano, com quem se cruzou enquanto filmava uma película de aventuras, na pele de Lara Croft, nos fantásticos templos de Angkor! Adoptou outro do Vietname e ainda uma terceira de outra nação paupérrima – a Etiópia. Visitou regiões asfixiadas pela indigência, onde chegar vivo ao dia seguinte é uma aventura. Esteve em campos de guerra, arrastando paparazzis e repórteres, para dar voz aos desalojados. Recentemente, realizou um filme sobre uma guerra fratricida, onde o manto de silêncio expôs, indecentemente, os alvos de uma feroz purga étnica, no pequeno estado da ex-Jugoslávia: a Bósnia-Herzgovina. «NA TERRA DE SANGUE E MEL»(1) atesta o sofrimento do grupo mais indefeso dos terríveis anos de 1992 a 1995, quando a etnia sérvia pegou em armas para ajustar contas antigas (da II Guerra) com a comunidade muçulmana, que dizimou selvaticamente. Terá sido dos piores genocídios depois da II Guerra Mundial, segundo a realizadora norte-americana.
Os ajustes de contas (leia-se: as vinganças) nunca são simples, complicando intencionalmente o que antes fora simples, apesar de tudo. Sim, era relativamente harmoniosa a coabitação entre as diferentes raças, religiões e civilizações que viviam naquele enclave pobre. Fui disso testemunha, quando estive em Medjugorje, no final dos anos 80. 


Mas sempre que se pretendem apurar culpas, reivindicar direitos, punir e fazer justiça unilateralmente, pela lei da bala, o resultado é desastroso. Porque nunca uma arma foi capaz de dar vida! Isto que é uma evidência, desde o princípio dos tempos, persiste em ser também uma tentação. Um erro tremendo, suicida! Naturalmente que embatemos no mistério do mal, puro e duro.


Argumentação do General Šerbedžija ao filho, para justificar a guerra:
"We're doing this for our children, so that they would not have to go to war when they grow up."
É por aí que a realizadora-argumentista envereda, optando por um casting local(2), integralmente falado na língua bósnia. Actores bem dirigidos dão corpo à história de amor, que corre em pano de fundo, criando um epifenómeno insólito na onda de terror semeada pelos beligerantes. 


O filme é longo, permitindo-nos familiarizar com várias personagens, perceber um pouco as suas    motivações, onde alguns dos soldados também revelam os paradoxos da sua difícil circunstância. No fundo, quase todos são apanhados na mesma ratoeira, com pouco espaço de escolha: uns fadados para máquinas de guerra e outros para alvos a abater impiedosamente.
As duas horas de película obrigam-nos também a sentir a pressão galopante da luta, sedenta de mais sangue, numa escalada de poder despótica, que rapidamente atinge níveis animalescos. Como é costume nas beligerâncias: os mais fracos são os mais atacados, confirmando a regra horrenda de que um mal arrasta uma avalanche de outros piores. Nesse sentido, vemos a cobardia transfigurar-se em sadismo numa baixeza totalmente indigna do ser humano (mesmo em situações de combate), ou a cupidez arranjar perigosos incentivos na inveja e num orgulho enraivecido pela mesquinhez e pelo desgaste da guerra (também do lado dos vencedores). Infelizmente, a mediocridade invade as mentes e vale tudo, i.e., quanto pior melhor!   


Neste contexto, onde as vítimas são usadas e abusadas – para escudos humanos, sexualmente (a estatística avançada no fim dispara cifras assustadoras, de 50.000 mulheres violadas), em espancamentos ociosos, assassinatos cruéis, etc. – a relação afectiva entre um oficial sérvio e uma prisioneira muçulmana vai decorrendo ao ritmo frenético e precário do cerco que se aperta em volta dos fiéis de Maomé. Para complicar a relação: ele é um militar exímio e filho do general mais assanhado da guerra. Mas gosta muitíssimo dela, só dela, diferentemente dos outros militares, que se vão divertindo com umas e com outras. Já gostava antes e nunca parou de gostar e de fazer tudo para a ter por perto. Em situação de alto risco, até do ponto de vista de equilíbrio psicológico. Por seu turno, ela é muito gira, de modos suaves e sofisticados, pintora de talento e também gosta dele. Já gostava e terá gostado até ao fim… apesar do final suscitar dúvidas, depois de tudo o que padeceu. De meter medo! Impressionante as vezes que rasou a morte, que foi horrivelmente humilhada, para além da revolta crescente face ao massacre imparável contra o seu povo.


Pietá dos tempos modernos, inconsolável.

Um amor absolutamente em contra-corrente: quanto tempo resistiria? Quantas vicissitudes superaria? Em que bases se sustentava, afinal? Sem quebrar o suspense do filme, sublinho apenas momentos reveladores da posição dele (no lado do poder) a respeito dela: o primeiro incidente, evidencia o quanto ele arriscou para estar com ela, numa discoteca de muçulmanos; quando ela foi feita prisioneira, protegeu-a desde a primeira hora, sem abusar da sua posição de força e sendo respeitador – toda a intimidade da sua relação percebe-se que tem o acordo de ambos; as vezes que poupou a vida a muçulmanos por pensar nela, foram uma constante na sua forma de estar na guerra; o preço que pagou por a manter hospedada no quartel-general sérvio foi elevado (embora ela estivesse mais desprotegida), como arrojada e generosa foi a visita clandestina à galeria de arte de Sarajevo, para lhe dar gosto a ela, uma apaixonada por pintura; a rendição dele – auto-assumindo-se como war criminal – reportava-se inteiramente a ela! Resumia o que mais fracassara na sua vida…
E, no entanto, tudo era tão mais complexo, porque a extrema dependência dela relativamente a ele (subjugação!) perturbava toda a relação, tornando-a doentia e frágil. Claro que o problema decorria, sobretudo, da situação de conflito. Só que não é a faca que mata, mas o coração do homem, como alertava João Paulo II. E o excesso de poder sobre os outros, tende a perverter qualquer relação, até mesmo as afeições mais profundas. 



O filme faz-nos viver a aridez repugnante da guerra, sem momentos de alívio. Banda sonora reduzida aos mínimos, a irromper no fim com um fundo musical que enquadra a mensagem de alerta ético, de justiça histórica, em texto sóbrio sobre fundo negro, num luto profundo.
A presença forte de uma pintora na trama dá pretexto para imagens excelentes, com retratos em sanguínea, de uma expressividade incrível, além de uma pintura mural gigantesca, a concluir o enredo – auto-retrato de Ajla. Ressalta nele o olhar envolto numa sombra espessa, de um azul triste, a evocar as muitas lágrimas choradas e mais ainda por chorar. Funde-se também com o tom dos olhos dele, desgostosos e perdidos, já sem conseguir vislumbrar um futuro em conjunto. Representa ainda a dor d’alma, bem mais aguda e indizível do que ferida aberta, por onde jorra sangue.


Um filme intenso, pesado, que nos faz ter pena de não ter sabido parar tanta carnificina. A realizadora lamentava-se por não ter aliviado o sofrimento infligido na Bósnia. Mas, em diferido, a sua narrativa ajudará a fazer jus a tanta crueldade escusada, pelo menos contra a população muçulmana(3)



Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
IN THE LAND OF BLOOD AND HONEY
Título traduzido em Portugal:
NA TERRA DE SANGUE E MEL
Realização:
Angelina Jolie
Argumento:
Angelina Jolie
Produzido por:
Graham King, Angelina Jolie, Tim Headington e Tim Moore
Fotografia:
Dean Semler
Banda Sonora:
Pelo compositor libanês, Gabriel Yared
Duração:
127 min.
Montagem:
Patrícia Rommel
Ano:      
2011
País:
EUA

        Elenco:

Zana Marjanovic (Ajla - a muçulmana bósnia)
Goran Kostic     (Danijel - o oficial sérvio)
Rade Servedzija (o general - pai de Danijel, Nebojša Vukojević )
Dzana injo (a irmã de Ajla),  
etc.
Local das filmagens:
Bósnia-Herzegovina e Hungria (Budapeste)
Site oficial:

www.inthelandofbloodandhoney.com

Premiado

Globo de Ouro do Melhor Filme Estrangeiro

Menção Honrosa no Festival de Sarajevo
Stanley Kramer Award

(2) Compreensivelmente, a escolha do elenco foi feita sem revelar o nome da realizadora, só desvendado depois de a selecção estar terminada.
(3) O filme está a levantar celeuma junto da facção sérvia, que se sente injustiçada por esta visão do conflito. No entanto, o desbaste da população muçulmana na Bósnia foi e continua a ser uma evidência estatística.


1 comentário:

Anónimo disse...

Wow, what a text. Now I want to see this film. There is more to Jolie than the gossip magazines give her credit for. Thanks, PO

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