quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Do confessionalismo

Contam-me que o responsável dos serviços secretos de um país particularmente feroz foi em Lisboa aos fados. Não falava uma palavra de português e, mesmo assim, comoveu-se. A história repetiu-se com duas raparigas canadianas (não afianço a nacionalidade) que, numa casa de fados, choraram, não entendendo porém a letra. 

Que o fado é confessional já o sabemos, porque fala do que existe em cada um de nós, de tudo o que povoa a história da nossa vida: a alegria, a traição, o ciúme, a desgraça, o engano, a festa. O confessionalismo vem-lhe da transmissão de um estado emocional. É por isso que o homem que mandou matar inimigos do estado - ou que os matou sem um módico de remorso, nos tempos em que sujava as mãos - se comoveu, não percebendo o que significam duas lágrimas de orvalho / caíram nas minhas mãos / quando te afaguei o rosto / pobre de mim pouco valho / p'ra te acudir na desgraça / p'ra te valer no desgosto.

Anteontem postei neste estabelecimento Sílvia Pérez. Ontem ouvi-a durante o dia, nos intervalos do que exigia concentração. Voltei a ouvi-la, voltei a ouvi-la. E voltei a ouvi-la. Quando dei por mim percebi que ela cantava para eu a ouvir, e que a música que posto abaixo, toda cantada em catalão - que não domino - não só tinha sido escrita para mim, como contava a história toda da minha vida: as alegrias vividas, as tristezas, os ciúmes malditos, as festas, as gargalhadas sonoras, as lágrimas partilhadas. Quando ela canta eu sou o chefe dos serviços secretos e também as duas amigas canadianas e todos os outros que por esse mundo fora se comovem com o que não entendem, mas que lhes entra directamente no coração. 

Dois pormenores de enorme importância: quando Sílvia solta o cabelo, ao 1'36", e quando Sílvia chora, comovida, porque acabara de nos contar a história da sua vida. Mesmo que não o tivesse feito.

JdB


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