quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dos sofrimentos

Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: "A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva".
***
Um destes dias soube que uma amiga – que não era de infância, mas da infância – tinha morrido após um período de doença doloroso. Um pouco mais longe, o pai de uma pessoa por quem tenho afeição debate-se com uma doença muito limitadora. Mais ao pé de mim, duas pessoas que conheço bem, separadas em idade por pouco menos de dez anos, confrontam-se com uma malignidade que gera preocupação e cansaço. Ontem, por mail (que completa informações verbais avulsas) soube de uma rapariga, com quem me cruzei há pouco menos de quarenta anos por causa de estudos e amizades comuns, que se debate com uma fase complicadíssima de saúde. Não falo de gente idosa, mas de rapaziada mais ou menos da minha idade, entre os cinquenta e muitos e os sessenta e poucos, sobre quem recai uma nuvem de escuridão e incerteza.
Não conto nada de muito surpreendente. Todos os que me lêem saberão de casos semelhantes, mais ou menos próximos, mais ou menos dolorosos, que realçarão aquilo que parece ser uma injustiça da vida, porque no mínimo deveríamos chegar aonde a estatística da esperança diz que chegamos – e não quinze anos antes.
Não me recordo exactamente dos termos, mas tenho ideia de um amigo, com quem partilho conversas e fins de tarde, me ter dito qualquer coisa que se assemelharia a isto – felicidade é não estarmos doentes.  Há quinze anos, talvez, uma colega de empresa dizia que tudo lhe corria bem, mas que ela também contribuía para isso. Talvez os dois pensamentos estejam nos antípodas um do outro: a ideia lúcida da sorte que é não termos azar versus a sorte que é a ilusão de uma acção do próprio. 
Ontem, no meu paredão errático, comentava com quem me acompanhava o azedume que sempre pode sobressair quando somos confrontados com o sofrimento (aparentemente) injusto, seja em nós seja nos mais próximos. Talvez nem sempre seja azedume, talvez seja apenas uma raiva incontida contra a vida, contra o Céu, contra a ideia de um Deus que não é senão amor e, mesmo assim, permite estas bolsas de dor e angústia.
Ontem também, no mesmo dia em que soube ou relembrei ou me confrontei com alguns casos narrados acima, li o evangelho de que tiro o trecho com que abro o post. Jairo fala com Cristo; a mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos toca-lhe na orla do manto. A menina salva-se, a mulher cura-se. Ter fé é ter confiança, mesmo que por vezes sejamos tentados pela fé desesperada, como o foram, talvez, os dois personagens referidos. Não sei se o fluxo de sangue estanca nem se a criança com doze anos se salva; não sei, sequer, se os dois personagens existiram ou se o episódio não é mais do que uma metáfora para a salvação do espírito que advém de confiarmos. Não sei nada, mas sei que a ideia da minha colega é ingénua. A fronteira entre uma casa que ri e uma casa que sofre é um fio de cabelo.
Somos salvos (também) pela fé. A nossa condição frágil e humana, mas também realista, talvez se reveja na ideia de que felicidade é não estarmos doentes.

JdB    

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