quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Crónicas de um mestrando tardio

Ni contigo ni sin ti
Tienen mis males remedio
Contigo porque me matas
Sin ti porque yo me muero


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Uma introdução que pode parecer despropositada, sobre um tema do qual já aqui escrevi: sábado fui a uma festa de dança. Durante algumas horas, uma quantidade assinalável de gente atirou-se à pista para dançar, aqui e ali algo freneticamente. Todos cantamos as músicas que mais mexem connosco, que nos remetem para épocas felizes, para pessoas próximas, para emoções fortes. Quantos de nós perceberão o que cantam, o verdadeiro sentido das palavras que são ditas, a mensagem que o letrista quis transmitir? Em bom rigor, por causa do que escreverei a seguir, gostava de perceber melhor as letras de algumas músicas. 

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A minha tese de mestrado sobre confessionalismo no fado ganha algum ritmo, embora desconheça se vou no caminho certo e se levo a viatura indicada. Talvez me falte uma definição clara de onde quero chegar. 

Irei cingir-me ao período entre o final dos anos vinte e o final dos anos sessenta. Para isso fiz uma primeira selecção bastante exaustiva de letristas de fado populares - Carlos Conde, Linhares Barbosa, Britinho, Gabriel de Oliveira, entre outros, num total de quase 900 títulos. Ontem, dia dedicado a esta actividade, li quase 300 poemas para tentar fazer uma primeira "classificação": ciúme/traição/desgraça, amor-amor, saudade, touros, bairrista, religião. Como seria de esperar, a maior fatia recai no ciúme/traição/desgraça. Não porque esta malha seja maior, mas porque, de facto, estes temas estão muito presentes nas letras. 

O que nos leva a escrever maioritariamente sobre temas que são "negativos", que provocam sofrimento, dor, angústia, ódio? O que nos leva a escrever o que mais nos sabe amar / tanto nos pode beijar / como dar uma estalada / todo o homem a meu ver / que não bate na mulher / não é homem não é nada...? E é aqui que volto à introdução deste post. Quando danço os Rolling Stones (que danço pouco, porque não gosto deles) danço o quê? Eles (ou os Procol Harum, ou os Beatles ou os Bee Gees) também falam de ciúme, de desgraças e de traição? Não sabemos, pois não? Na maior parte das vezes atiramo-nos à pista e cantamos em conjunto com o vocalista de serviço no momento. Melhor dizendo, cantamos palavras cujo sentido não discernimos. 

No fundo, no fundo, o que eu gostava de saber era se o fado é mais desgraçadinho do que a música pop da mesma época.

JdB  

    

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