sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Textos dos dias que correm

São Paulo, por Teixeira de Pascoaes

A desilusão é um movimento no sentido da matéria, como a ilusão é um movimento no sentido espiritual. O Cosmos é Deus desiludido, em pleno Vácuo. A transição da ilusão para a desilusão marca a origem mortal das cousas: formas e formas tumulares. Por isso, o sentimento religioso é sempre uma tentativa de regresso à Ilusão divina originária, a antemanhã da Vida, em que se ouve apenas um canto de ave, no silêncio; o único silêncio que nos mostra o oiro de que é feito.

Os dois apóstolos continuam a marcha, pela via egnaciana, colando entre as ondas do Strimon e as ondulações do Pangeu, igualmente azuis, mas paradas no seu recorte inalterável. Paulo, como Silas, vai a pé, curvado, com os olhos inflamados de luz, e o fantasma de Estêvão, ao seu lado. Leva um fruto na mão, para o comer. Oferece-o ao primeiro mendigo. Nada lhe pertence da terra, porque a terra não lhe interessa. E só o que nos interessa nos pertence. A Terra é dos bichos, como a Lua é dos lunáticos. todos os tolos reinam naquelas planícies desertas, onde cai a sombra de altíssimas pirâmides, sem a mais leve mistura de claridade, dum negro absoluto e recortado, Lembra a sombra de Caronte, sobre a desvairada Antioquia. Também o céu é uma propriedade dos místicos; aquele céu azul em que certas almas se desdobram indefinidamente, numa ansiedade que é um bater de asas brancas, ascendendo para Deus.

Paulo é deste mundo interior que envolve o mundo e os outros mundos, e ninguém sabe onde ele acaba. Vê para dentro, ouve para dentro, pois, dentro de si, é que ele descobre tudo, - o Infinito. A nossa memória é universal, e excede o próprio Universo, quando aliada à fantasia criadora.

(...)

Mas há também os que sonham por natura. Felizes, é como se fossem desgraçados; fartos de tudo, é como se tudo lhes faltasse. E há os que morrem de fome, num banquete. E só estes conheceram a fome, na verdade.

(...)

Paulo não desanima. Oprimem-no, mas não o vencem. Ferem-no, mas não o matam. É um ser fantástico, inatingível, um ser nocturno, que possue o poder nocturno de criar a luz. Sofre, para alumiar.

A vida de Paulo, como a vida das mães, é um perpétuo drama, para que existam novas almas. A nossa alma é gerada em outra, que nos ame e sofra por nossa causa. Paulo, amando os seus semelhantes e por eles padecendo, transfigura-os idealmente, converte-os em novas almas. A dor é que gera as almas, integrando-as na existência. É sob uma força angustiosa, condensadora, que um sonho se transforma num objecto dos sentidos, como este penedo ou aquela árvore. Paulo sofre, para que o seu sonho seja realidade. Sofre, resplandece! Mas há pessoas que não suportam a luz alheia e atiram pedras ao sol.

Lá vai, sozinho, batido da tempestade, perseguido por espectros: o ódio, o remorso e um vulto de mulher em delírio, que é a sua paixão por Jesus Cristo ou por todos os padecentes, outras tantas imagens dele mesmo. Ouve palavras que o injuriam, vê figuras de pesadelo que lhe mostram os dentes e as unhas, e sente inefável alegria. Sente-se viver em Jesus Cristo. É o amante nos seios da bem amada, que a sombra deste homem projecta-se nos caminhos da Grécia antiga e nas ruelas da Ávila medieva. Sofre, resplandece. Saltam-lhe as lágrimas dos olhos, abrasadas de alegria! A alegria alvora da sua angústia, dos últimos cumes da sua angústia, atormentados de subir. Mas deles, cresce um alvor espiritualizado, aurora espiritualizada, a graça de Deus, precursora do sol de Deus.

Caminha, sozinho, alegre e triste, envolto na sombra doirada do anjo negro, que lhe crava um espinho, na carne, em certas horas. Ele mesmo é o anjo do crepúsculo, voando entre a noite e o dia, nesse clarão da distância a arder. Este anjo é talvez a nossa fantasia, a repetir o nosso ser, em outro plano da existência, apenas pressentido. Somos nós, á nossa frente, livres, em demanda do futuro.

(...)

Ei-lo, de pé, perante gente culta que estranha a sua figura miserável e sublime, ridícula e sublime. Se o ridículo está perto do sublime, é natural que se misturem e formem um rosto caprichoso e inverosímil, como o deste pobre judeu, que lembra o alforge dum mendigo, cheio de estrelas. É um rosto encovado e amarelo, - incandescente, - de místico espanhol. A Ibéria é outra Judeia, outro deserto febril, onde o esqueleto do Rocinante, feito de pedra do Sinai, domina toda a planura solitária. Dom Quixote é apenas um sonho do Rocinante, que a fome transformou em pesadelo ou fardo pesado.

(...)

Se a presença de Deus se revela, de algum modo, é no sentimento da Esperança. É de todos os nossos sentimentos, o mais exterior a nós, o que de mais longe vem. E nada perde da sua frescura e limpidez, na infinita distância percorrida. Parece que o bebemos na própria fonte.

(...)

Teixeira de Pascoaes

in São Paulo (cap. IX), Assírio & Alvim

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