segunda-feira, 16 de maio de 2016

Vai um gin do Peter’s?

É bem verdade que a brincar se dizem verdades daquelas lapidares, que tendem a ser ignoradas ou desvalorizadas, o que vem a desaguar no mesmo.
Um bom exemplar vem num cartoon, bastante viajado pela net, que denuncia as diferenças abissais entre países, i.e., entre pessoas, com disparidades de desenvolvimento e de condições de vida, que correspondem a um fosso (intransponível?) de mais de 100 anos de distância. O cartoon propõe-se registar o impasse numa sondagem, aparentemente inócua, levada a cabo nas Nações Unidas, onde supostamente todos comunicam bem em língua inglesa. Aliás, o problema é anterior à língua, descendo àquele patamar obscuro onde as palavras já não remetem para nenhuma realidade (re)conhecida. Todos iguais, mas todos, afinal, excessivamente diferentes, como alertava Orwell. Acrescentaria: todos demasiado afastados, perigosamente desencontrados. Até seria fácil, se fosse um mero entrave linguístico.
Dá que pensar como perguntas simples e elementares podem chocar com barreiras mentais que afectam dramaticamente a percepção da realidade. Segue a radiografia do cartoonista às zonas cegas de cada região do mundo, numa abordagem intencionalmente simplificada, mas directa ao busílis sobre o que falta a uns e a outros, criando uma autêntica Torre de Babel. Mais actual do que se possa julgar:    
Quando a falar só nos desentendemos, virando de pantanas a bem-intencionada divisa    

Chegados às dessintonias instaladas entre pessoas, vem a propósito falar de uma via de comunicação apostada em suplantar todas as discrepâncias, proporcionando uma linguagem universal – a Arte. De facto, é a linguagem de todos os tempos e lugares, sobretudo quando remete para a sua raiz fundacional – a Beleza – fazendo-a emergir inclusive das e nas realidades mais abomináveis. Nessa concepção clássica, o artista é desafiado como que a replicar aquela divisa atribuída pela sabedoria popular ao Criador: de escrever direito a partir das linhas tortas e disfuncionais que a realidade visível pode assumir.
A partir do fim do século XVIII, um surto de novas experiências artísticas começou a atribuir função diversa à Arte, nomeadamente preferindo-a para mensagem de alerta, se necessário permeável a (por vezes, empapada mesmo de) toda a fealdade que o artista quisesse plasmar nela. Exacerbou-se também a subjectividade e enfraqueceu-se o nexo multi-milenar entre o Belo e a expressão artística.
A erupção de novas perspectivas artísticas teve, pelo menos, o mérito de tornar mais consciente e fundamentada a opção pelo trilho clássico, tornando-o numa escolha mais livre e algo corajosa, frequentemente em contracorrente. Dostoievski concentrou-se nesse desafio sempiterno da Arte com notável eloquência, partindo do pressuposto de que: «a Beleza salvará o mundo». Mesmo que não o tivesse verbalizado, o Belo está omnipresente na sua obra. Recuando aos tempos do Império Romano (finais), Santo Agostinho chegou a ter a audácia de interpelar a própria Beleza, fonte e destino da Arte, pois não a tomava por conceito abstracto mas realidade personificada. Lavrou, assim, um dos clamores poéticos mais tocantes da alma humana:
Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava... Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.”
Saltando para o século XX, um outro esteta, à sua maneira, sem quaisquer pergaminhos que se conheçam no mundo artístico, a um mês de morrer, proferiu um discurso algo profético, confiando à poesia o papel de salvaguarda da liberdade da nação. Mais: de purificadora e balizadora do poder político. Naquele discurso, poesia, vida e poder surgem interligados e a Arte é apontada, por aquele governante, como a guardiã da verdade. Insólito? Trata-se da intervenção do Presidente John F. Kennedy (1917-22.Nov.1963), proferida a18 de Outubro de 1963, no Amherst College, aqui abreviadamente citada:
«(…) Poetry (is) the means of saving power from itself. When power leads man towards arrogance, poetry reminds him of his limitations. When power narrows the areas of man’s concern, poetry reminds him of the richness and diversity of his existence. When power corrupts, poetry cleanses. For art establishes the basic human truth which must serve as the touchstone of our judgment.
The artist, however faithful to his personal vision of reality, becomes the last champion of the individual mind and sensibility against an intrusive society and an officious state. The great artist is thus a solitary figure. (…)
If sometimes our great artists have been the most critical of our society, it is because their sensitivity and their concern for justice, which must motivate any true artist, makes him aware that our Nation fails short of its highest potential. I see little of more importance to the future of our country and our civilization than full recognition of the place of the artist. (…) 
Artists are not engineers of the soul. It may be different elsewhere. But democratic society–in it, the highest duty of the writer, the composer, the artist is to remain true to himself and to let the chips fall where they may. In serving his vision of the truth, the artist best serves his nation.
If art is to nourish the roots of our culture, society must set the artist free to follow his vision wherever it takes him. We must never forget that art is not a form of propaganda; it is a form of truth. (…)
I look forward to an America which will not be afraid of grace and beauty, which will protect the beauty of our natural environment, which will preserve the great old American houses and squares and parks of our national past, and which will build handsome and balanced cities for our future.
I look forward to an America which will reward achievement in the arts as we reward achievement in business or statecraft. I look forward to an America which will steadily raise the standards of artistic accomplishment and which will steadily enlarge cultural opportunities for all of our citizens.  (…) And I look forward to a world which will be safe not only for democracy and diversity but also for personal distinction.

Este ano, outro poeta-escritor, que tem procurado devolver à vida o Belo, foi galardoado com o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores – o P.Tolentino Mendonça. Encarando de frente os horrores vividos por muitos e as situações pardacentas em que outros tantos se sentem atolados, o poeta esclarece ao que vem, quando escreve: «O dever humilde de um escritor é também testemunhar a beleza possível, hipotética, latente e arrepiante que é nossa companheira de todos os dias, mesmo quando nos parece que, historicamente, estamos afundados na lama, no conflito e nos bloqueios históricos. (…) É muito necessário fazer o gesto de levantar os olhos daquilo que nos parece o confuso da materialidade dos próprios acontecimentos, dos factos brutos da nossa pequena história e procurar outros pontos de vista, uma grandeza que, muitas vezes, se oculta no fragmento, no insignificante, naquilo que aparentemente não tem qualquer valor».

É reconfortante constatar que vão sempre reaparecendo artistas empenhados em desencantar beleza, até mesmo dos factos brutos da nossa pequena história. Para o provar, nada melhor do que a voz quente e brilhante de Prince (inesquecível), dedicada – claro – à Most beautiful girl in the world(1), onde aposto que cabe toda a população feminina do planeta:


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
__________________________
(1)  A letra de “The Most Beautiful Girl In The World”:
Parte inferior do formulário
[Verse 1]
Could you be the most beautiful girl in the world?
It's plain to see you're the reason that God made a girl
When the day turns into the last day of all time
I can say I hope you are in these arms of mine
And when the night falls before that day I will cry
I will cry tears of joy cuz after you all one can do is die, oh

[Chorus]
Could you be the most beautiful girl in the world?
Could you be?
It's plain to see you're the reason that God made a girl
Oh, yes you are

[Verse 2]
How can I get through days when I can't get through hours?
I can try but when I do I see you and I'm devoured, oh yes
Who'd allow, who'd allow a face to be soft as a flower? Oh
I could bow (bow down) and feel proud in the light of this power
Oh yes, oh

[Chorus]

[Verse 3]
And if the stars ever fell one by one from the sky
I know Mars could not be, uh, too far behind
Cuz baby, this kind of beauty has got no reason to ever be shy
Cuz honey, this kind of beauty is the kind that comes from inside

[Chorus]
Could you be (could you be) the most beautiful girl in the world?
So beautiful, beautiful
It's plain to see (plain to see) you're the reason that God made a girl

[Outro]
Oh yeah! (Oh, yes you are)
Girl (Could you be?)
You must be ... oh yeah!
(Could U be?)
You're the reason... oh yeah
(Could) [x3]

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