segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da vida militar

Fotografia tirada da net

Gosto de filmes de guerra, ou de uma espécie de filmes de espionagem, confesso. Mas, devo também afirmá-lo, não sou movido pelo jorro de sangue nem pelos ruídos de uma metralhadora que dispara sem cessar; não sou movido por um belicismo fardado, nem pela ideia do fundo moral dos filmes que manda que os bons acabem por triunfar; não sou movido pela tecnologia usada em combate nem pelos efeitos especiais do realizador. No fundo, o que me motiva, por mais estranho que possa parecer, é a dimensão fabril por trás de uma guerra ou de uma operação especial / militar. O que quero ver é a organização dos 4 M's - Men, Machine, Material, Method - ao serviço de um objectivo. Nesse sentido, tanto se me dá que sejam os bons a ganhar como os maus. Não há moral nem ética na ficção, pelo que a organização mais eficaz é a que me suscita maior interesse. 

(Vi duas vezes, uma por curiosidade e a outra por desfastio, o filme que retrata a detenção (?) e morte de Bin Laden. O que queria mesmo era ter visto a organização da operação militar algo que é, quanto a mim, muito pobremente retratado.)

Sempre pensei que uma parte do que sou conviveria bem com uma vida militar. Talvez até por isso havia quem achasse que eu tinha um ar empertigado e marcial. Não tendo nenhum antecedente próximo na vida castrense, sempre me questionei de onde poderia vir esta vaga tendência. Agora percebo: é o meu lado de engenheiro de fábrica. Não me interessam (no sentido de não ser uma motivação forte) as guerras, os mortos, a defesa da Pátria, a luta contra um inimigo manhoso e traiçoeiro que ameaça os nossos valores, a praxe ao recruta ou as ordens dadas aos gritos. Interessa-me a norma, o planeamento, a regra, a uniformidade voltada para a máxima eficácia, a flexibilidade dinâmica, ponderada e arrumada mentalmente, a rotina que dá segurança, a constância dos padrões. Ser-se engenheiro numa fábrica ou um oficial numa unidade militar são, para esse efeito, equivalências.  

Talvez nunca tenha querido ser tropa, mas apenas um elemento numa organização onde a hierarquia fosse uma virtude, a organização uma condição de sobrevivência e o rigor uma ferramenta imprescindível. Podia ser uma fábrica ou um quartel. Coube-me a fábrica.

JdB

1 comentário:

Anónimo disse...

JdB
O que lhe calhou não foi o melhor de entre as duas possibilidades , porque máximo deste seu ideal é precisamente o quartel, dado que todo o «dispositivo» é para gerar um «nada», absolutamente pretendido , um « não acontecimento» , enquanto na fábrica há essa consequência, tipo mal necessário, que é o produto com utilidade intrínseca e que, por isso mesmo, desvaloriza o culto da «máquina» como conceito, modelo de existência e fim em si mesmo.
«Tudo para nada» é um lema que lhe proponho...
Proponho a leitura do "Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati.

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