segunda-feira, 9 de maio de 2016

Largo da Boa-Hora *

Sentado no banco que digo meu, arrisco pensar: a vida não tem sentido.
A vida do ser humano é um processo biológico que tem o surgimento, a duração e o desaparecimento.
Não vem ao caso agora nem o surgimento nem o desaparecimento biológico. O que centra a minha especulação é, precisamente, o trajecto entre esses dois pontos, ou seja, a vida.
O que teorizo é que a vida, objectivamente, não tem, nem tem de ter, para ser biologicamente perfeita, qualquer sentido. É suficiente para que o trajecto se complete que sejam garantidas as necessidades funcionais de subsistência, de sobrevivência.
Cada vida não traz, como componente, nenhum sentido a ser cumprido. Cada vida é um “vazio” biológico, desprovido de qualquer teleologia.
Ora, não vindo originariamente pré-determinado e revelado o sentido da vida, começam as complicações – e sérias – para o ser humano.
Efectivamente, é uma angústia comum a todos este tema do sentido da vida. Reflectimos, perguntamos, concluímos, sob estas ou outras formas: que sentido tem a minha vida? a minha vida não faz sentido! Não encontro sentido para a minha vida. Perdi o sentido da minha vida? Falhei o sentido da minha vida!...
Esta angústia permanente deriva da percepção de que viver não pode ser somente sobreviver funcionalmente por uma sucessão de actos de conservação.
Cedo constatamos a existência do espírito que anima a matéria, (um acervo de espiritualidade, inteligência, curiosidade, sensorialidade, sentimentalidade, sensibilidade, sensualidade, cultura, história), que nos impele e obriga a projectos, sonhos, criações, realizações, obras, dimensões, a cujo conjunto chamamos sentido da vida.
O que sucede, pois, é que temos a necessidade aflitiva de ter um sentido da vida. Mas como encontrá-lo?
Excluo a religiosidade ou outras fortíssimas e determinantes formações ou convicções, para assim encontrar o maior denominador comum.
Sebastianismo é a primeira variante da busca que me ocorre. Efectivamente, muitos esperam (e desesperam) que num qualquer dia surja, vindo do nada, uma força que imponha o sentido da sua vida, na qual confiarão e a à qual se devotarão. Esperam um guião, trazido e ofertado por quem seja redentor de vazios. Confiam que o amanhã trará a boa nova, reconfortando-se no fado que explica o ontem perdido na espera, e vivendo o hoje apenas como véspera desse amanhã inovador e grandioso. Sempre numa sucessão de presentes desperdiçados e consumidos a olhar a bruma, porque D. Sebastião não virá. Nunca.
É penoso, porque sofrem ao não entenderem o que sucede, ao resignadamente aceitarem a vida como ela se vai ajeitando. São presas fáceis da melancolia, do tédio, da tristeza, da depressão, porque vêem e compreendem tão só a árvore, mas não a floresta. Claudicam num dia sem agenda, ensombram por haver nuvens no céu, tremem em noite de solidão.
Mimetismo, é a segunda variante. Muitos constroem-se por imitação dos paradigmas que elegem. Confiam que esses outros, elevados a ídolos, descobriram e seguem o caminho certo, são estrela polar na rota pelo breu. Não importa nem a direcção, nem a intensidade do caminho; importa seguir, seguir sempre aquela estrela e fazer como ela.
O resultado dessa despersonalização, do “transfer” de identidade para terceiros idealizados, da renúncia a si próprio, não pode ser outro senão uma representação caricatural.
A ânsia da vivência em cópia de outros, porque nunca conseguida, tem a inevitável consequência do arrastamento para o pântano das comparações, onde tudo e todos acabam sugados. Desmerecimento, insuficiência, incapacidade, são os qualitativos que atingem à exaustão todos os que formam o núcleo ao redor da existência. Frustração inevitável, porque o libreto é de outra ópera, para outros artistas e para outro palco. Erro fatal.
Falha pois o sebastianismo, como falha o mimetismo.
Tenho, porém, a convicção de que, apesar de simples, há uma via que é eficaz e suficiente. Chamo-lhe a via do comprometimento.
O início é interiorizar, como certeza absoluta, como dogma, de que cada um tem no seu círculo de relacionamento e de modo permanente, variando apenas de intensidade consoante a proximidade e importância do laço, pessoas que precisam, esperam e confiam em mim, mas também que essas mesmas pessoas, em reciprocidade, crêem que eu preciso delas, espero por elas e confio nelas.
Concluído este início de reconhecimento e interiorização da dupla relação com o(s) outro(s), de recíproca dependência, imprescindibilidade mútua, resta comprometermo-nos firmemente a não desapontar cada uma dessas pessoas, agindo, vivendo ao serviço e para o serviço desse compromisso.
Trata-se pois de realizar o que de mim precisam, esperam e confiam, e, ao mesmo tempo, consentir que em mim se realize a necessidade e querer do outro, que me pede e oferece a sua imprescindibilidade .
Numa imagem: ele precisa do meu abraço e ele precisa que eu precise igualmente do seu abraço. Abracemo-nos pois.
Ter um sentido de vida, colmatando assim a lacuna biológica original, pode, pois, ser o constante preencher dos outros, dando o que precisam receber, recebendo o que precisam dar.
Talvez chegue para ser feliz, para a vida ter sentido, sabermos e cumprirmos os outros que nos rodeiam.
Se bem virmos, agir no comprometimento vai preencher todos os espaços, tempos e modos da nossa vida, porque são infindáveis as oportunidades e circunstâncias de aplicação. Variará a natureza, a intensidade, a gravidade e o conteúdo desse agir, mas todos os actos serão gratificantes, todos eles contribuirão para a felicidade e paz., derrotando-se a angústia.

ATM

* publicado originalmente em 10.12.2008

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