quinta-feira, 19 de maio de 2016

Crónicas de um pré-doutorando tardio (próximas leituras obrigatórias)


A Carta de Lorde Chandos, publicada em 1902, é uma missiva ficcionada a Francis Bacon, em que Lorde Chandos, atravessado por uma crise literária e filosófica, explica porque não é capaz de continuar a escrever. O texto corresponde a uma crise do seu autor. Em 1901, Hofmannsthal renunciara à carreira universitária, reviu a sua obra poética, casou com Gerty Schlesinger e foi viver para uma pequena povoação próximo de Viena. Debate-se com a falta de sentido da expressão poética e literária e com o absurdo dos conceitos abstractos, e pensa que um novo começo só pode surgir de uma atitude, a decência de ficar calado.

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Lila, de quatro ou cinco anos, vive negligenciada numa casa de imigrantes algures no Midwest, na década de 1920. Ninguém parece preocupar-se minimamente com ela. Passa o tempo aninhada debaixo de uma mesa e quando não consegue conter o choro, mandam-na para fora de casa. 

Uma vez, ao anoitecer, Doll, uma jovem vagabunda de rosto desfigurado, decide levá-la consigo para longe. Ambas sobrevivem juntando-se a um grupo de nómadas em busca de trabalho pelos campos fora enquanto o país enfrenta a Grande Depressão. Os anos passam até que Doll desaparece misteriosamente, e Lila continua a fazer aquilo que parece ser o seu destino, deambular para sobreviver. 

Um dia para se abrigar de uma tempestade, entra na igreja de uma pequena localidade na altura em que o reverendo John Ames proferia o seu sermão. A partir deste momento, assistimos a mudanças profundas que marcarão para sempre a vida destes dois personagens.

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Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso porque de certa forma o estudo e a contemplação retiram a nossa alma para fora de nós e ocupam-na longe do corpo, o que é um certo aprendizado e representação da morte; ou então porque toda a sabedoria e discernimento do mundo se resolvem por fim no ponto de nos ensinarem a não termos medo de morrer. Na verdade, ou a razão se abstém ou ela deve visar apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve ter como objectivo, em suma, fazer-nos viver bem e ao nosso gosto, como dizem as Santas Escrituras. Todas as opiniões do mundo coincidem em que o prazer é a nossa meta, embora adoptem meios diferentes para isso; de outra forma as rejeitaríamos logo de início, pois quem escutaria alguém que estabelecesse como fim o nosso penar e descontentamento? 

Michel de Montaigne, in 'Ensaios' [De como filosofar é aprender a morrer

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