quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Deixa-me rir...

Achei este texto tão bonito que não resisto a publicá-lo. Não é da minha autoria - I wish! - mas isso não constitui um problema num blogue aberto e eclético como este. Por isso leiam, se quiserem, e deixem-se embalar pela Sonata de Outono do Padre Tolentino de Mendonça e pela extraordinária Dinah Washington.

Sonata de Outono
E o Outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles que se saboreiam no verão.
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata de Outono:

O que é bonito neste mundo e anima / é ver que na vindima / de cada sonho / fica a cepa a sonhar outra aventura... / E que a doçura que se não prova / se transfigura / numa doçura / muito mais pura / e muito mais nova

Neste arranque de Outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.

Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tectos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso se diz que não dependem propriamente da idade os Outonos interiores que atravessamos.

Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».

O Outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a "transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.



PCP

7 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia C,
Muito a correr: obrigada - muito bonito e inspirador com bom som ainda por cima!
ML

Anónimo disse...

QUe máximo! Linda a junção do texto Tolentino com o som D.Washington. Thanks a lot, MZ

Anónimo disse...

Muito obrigada, caras leitoras. Tenham um bom resto de dia. pcp

Philip disse...

Dear pcp, wonderful post, and wonderful song that I am not familiar with. I came across another version by the same Dinah Washington, this time accompanied by the violin of Max Richter. Very beautiful, much more melancholic, though somewhat reminiscent of Samuel Barber's Adagio for Strings.

http://www.youtube.com/watch?v=6hJ1Ph7pUF8

Thanks, PO

Philip disse...

Dear pcp, to add to my earlier comment, I just discovered that Max Richter is a contempoary composer of electronic music. He mixed DW's original song into his own instrumental piece called On The Nature of Daylight as part of a film soundtrack. Slightly disappointing that DW was not a knowing collaborator, but I still think the result is beautiful. PO

Anónimo disse...

Thank you, P, for your comment. I will listen to your suggestion later on in the day. I am sure it is beautiful too. I have a marvellous CD of Dinah Washington hits. She was, indeed, fantastic. Such a pure voice, you could understand every word she sang. As for the text: unfortunately it is not mine! It was written by a fabulous priest/poet whom Ana knows well. She had to defend her MA thesis in front of him (don't know how to say this in English!!). Something else: I am surprised you did not comment JdB's Beatles from 8th December! Such a great song! Bjs, dear P, have a wonderful weekend. C

Anónimo disse...

molto intiresno, grazie

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