sábado, 20 de dezembro de 2008

Palheta na calçada


Lisboa, dia de semana e quem sabe é Primavera.
Um rancho de homens remodelou o pavimento.
Podia ser hoje. A calçada portuguesa veio para ficar.

Chega pra lá.
Dá o mascoto e acerta a linha.
Traz das pretas. Põe o molde.
Ando quilhado cu'a patroa.
Atão?
É sempre gente lá em casa.
Hoje não tá a render. Ontem foi à'viar.
Tás com a cabeça noutro lado...
Mas qual gente?
É vizinhas, é a cachopa da padeira, é o velho coxo da guerra, é um sai e entra.
Deixá lá, num quer tar só. Dá lumes. Bota areia.
A minha, é gatos e canzoada. Tudo pra casa. Diz que tem peninha. É cada chuto no gato.
Anda Pacheco!
É meia. Vamos ó tacho?
Sempre co'a pressa. De comer e de receber.
Atão. Melhor, só se for beber e aquilo qu'a gente sabe...
Atenção às beiras, bem calcadas. Dá c'u maço. Vais dando e vais varrendo, p'adiantar.
Inda vais ter saudades minhas.
A flausina?
Não me dá troco. Deve estar servida. Fica tão linda a vender bilhetes. Ficava mais linda comigo ao pé.
Isto tá bera. O calor.
Tá lindo o barquinho.
Barquinho?! É o reclame da cidade, rapaz. Aprende. A Caravela.
Iiiisso, veio a escorregar na tábua lá da província. Qué q'há-de saber?
Inté se borra no carro eléctrico.
Tira a estaca, estica a linha. Traz três brancas, só três.
Acabando, vamos à ginja.
Pro causa da ginja dormi na Estação.
Gastaste-o? É bem feita. Bebesses auga.
"É mais fácil c'uma mão dez estrelas agarrar, fazer o sol esfriar, reduzir o mundo a grude, mas ginja com tal virtude é difícil de encontrar."
Ora viste? Lá goela tens tu. Passa à ponta, troca c'u Quim e ele que venha alinhar o mastro.
Deslarga. Tá na hora.

DaLheGas

3 comentários:

Anónimo disse...

Isto está parco de comentários... devem ter ido prá terra festejar o Natal. Valham-nos os Pachecos e os Quins que por cá ficam para alindar a calçada. Ah! Bem-aventurados os pobres de ambição que, na falta de flauzinas servidas por uns, encontram gáudio na ginginha servida por outros.
Maranathá. Bom Natal.

DaLheGas disse...

pois é Maf, não fossem os provincianos, Lisboa era um deserto :)

ana v. disse...

DaLhe, esta escrita deliciosa e cheia de balanço só podia ser tua!
Beijos e Bom Natal, muito sossego e paz.

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