terça-feira, 16 de dezembro de 2008

História de Natal

A Julinha colou o chifre solto à vaca e aconchegou o musgo debaixo da burra. Depois pôs ainda na manjedoura duas (com sua licença) porcas e quatro ovelhas.

O artilheiro mais o caçador e o romano ficaram no horizonte junto ao moinho e o moleiro, que era mais alto, foi adorar.

O Menino pediu que lhe endireitassem a estrela por cima da gruta. São José parecia um pouco ausente e a Nossa Senhora ainda estava no caixote cheia de palha do burro.

“ Venite adoremus “.

O Alfredo ligou o mercadorias, que passou, cheio de incenso e mirra, com o Melchior na locomotiva, preto da fuligem .

Pairava sobre Belém um perfume de rabanadas.

Na cozinha, a massa levedada das filhoses esperava a vez de ser moldada no joelho familiar, para cair depois no azeite quente, e dele sair polvilhada em canela e açúcar.

A Tia Doroteia orientava as mais novas nos coscorões, para que untassem bem a tábua com azeite, antes de estenderem a massa e ia mexendo sempre o enorme tacho de cobre onde o vinho verde tinto fervia, ganhando o seu perfume a canela, mel, gemas doces e vinho do Porto.

Ao Tio Valentim cumpria manter entretidos e afastados da cozinha os mais pequenos, e ia com eles discorrendo sobre as elevadas lições dos Livros Santos:

“-Transformar vinho em água é coisa de circo. Fazer da água vinho, isso sim, é que sempre foi obra de Deus. Santo Aiberto, meninos, tornou em vinho a água do Conde de Arnouil. A oração de Marta converteu em vinho a água dos seus hóspedes. E quem é capaz de imaginar a Santa Zita a ir buscar vinho ao odre para o transformar em água antes de o dar ao forasteiro, ou ao próprio Cristo, em Canaã, a fazer do vinho água? E podia falar-vos de Santo Odilão, de São Pedro, o Eremita, de São Vasto, que foi bispo de Arrais e Cambraia, de São Victor de Plancy … Estávamos aqui toda a noite, não era padre Venâncio? “

O padre fazia-se desatento e protestava baixinho, pouco convencido e só por dever de ofício, enquanto, pela oitava vez, provava o arroz doce trazido em pires fumegante pela Deolinda, directamente do tacho para o seu juízo.

“-E agora senhor abade?”

“-Mais raspa de limão, minha filha, põe-lhe mais raspa de limão.”

À perua tinham já tirado o osso do centro e enchiam-na agora com o precioso recheio de frango, fiambre, foie-gras, natas e trufas, para depois a cobrir de toucinho entremeado e a levar ao forno debaixo de folhas de papel pardo engorduradas de manteiga, por duas horas e meia, que era para comer só depois da meia-noite.

O bacalhau em postas bem altas e de molho desde manhã, esperava com as tenras couves e os outros matadores - as batatas, cebolas, ovos e cenouras - o momento da cozedura, que se queria à última da hora.

A Julinha deu os últimos retoques no castelo de Herodes, que tinha, no lago de papel de prata, dois grandes cisnes brancos e um cacilheiro de plástico.

Podia lá haver sítio mais santo!

Do outro lado da serra, esfarrapado um saco inteiro de algodão em rama, o Alfredo fazia a despesa da neve.

A Tia Vitória e o Tio José anunciaram-se com um sonoro “Santo Natal e Boas Festas!” Agora já estavam todos.

O doce de aletria e os bolinhos de jerimu juntaram-se na mesa enorme aos cestos de nozes e passas de uva e figo, de pinhões, amêndoas e avelãs.

Os sonhos iam caindo e alourando, um a um, no lume muito brando, enquanto ao lado alguém preparava a calda com água açucarada, pau de canela e cascas de limão e laranja.

À meia-noite, o Menino Jesus nasceu, respirou fundo e ficou todo consolado.

JCN

1 comentário:

DaLheGas disse...

Vou ali comer qualquer coisinha e já volto :)

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