quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Lanterna Vermelha


(Continuação de posts anteriores com o mesmo nome)

Clara seleccionou, pessoalmente e uma a uma, todas as raparigas – investigou-lhes o passado, as doenças, os defeitos físicos, as possíveis taras, as preferências, as disponibilidades, as motivações. Recrutou gente com escolaridade básica, com licenciaturas ou mestrados; desafiou russas, polacas, brasileiras, portuguesas, chinesas. Não por uma questão de caridade ou vontade de diminuir o número de desempregados, mas porque conhecia bem o mercado – cada homem tem o seu fetiche, seja um sotaque beirão com a resistência das serranas, um loira russa e alta com um ar de nobreza infeliz, uma brasileira desinibida com um gingar provocante ou uma oriental com um porte felino e um caminhar sem gravidade.
Deu-lhes formação – na forma de falar, de reagir, de cativar o cliente, de lhe perceber as manhas ou as taras, de o fidelizar para uma próxima visita. Volte, Sr. Doutor. Aqui encontra o que não tem em casa. Sinta a minha alma a palpitar por si – e agarrava-lhe a mão e assentava-a sobre o coração, para que ele percebesse um peito firme a cobrir um coração saltitante. E o senhor doutor voltava, porque se perdia por aquele afecto e por aquele seio que sorria para ele; o engenheiro voltava porque a russa gemia na sua língua natal enquanto se entregava nos braços e nos afagos de um homem habituado a testar a resistência dos materiais; o manageiro do ponta-de-lança voltava, porque a beirã lhe lembrava a serra e lhe citava Aquilino, mencionando a terra ingrata onde a urze a custo crescia. E ele sorria, só de pensar no fraseado, porque não conhecia o Aquilino, a não ser aquele negro que tinha sido irradiado do futebol por se dopar de uma forma óbvia; e o mestre-de-obras voltava, porque a chinesa - uma felina do oriente em cima de um monte de banha - o atormentava com um pino, uma acrobacia.
Clara queria controlar tudo, porque visualizava o futuro: as entradas e saídas, o cash-flow, o consumo de bebidas, os problemas. A casa começaria a ganhar fama e a ter mais clientela a quem se exigia uma jóia pesada, porque a sociedade de hoje já não se dividia pelos nomes, mas pela conta bancária. A empresária acabaria por ter de contratar mais pessoal e usaria dos mesmos métodos e critérios: entrevista, inspecção médica e física, história de vida, habilitações académicas, hábitos e gostos. Mais ucranianas, francesas, algumas africanas – aqueles corpos grandes e bem torneados eram a perdição de muitos que tinham vindo do continente negro ou de outros que mantinham hábitos colonialistas – e duas ou três nórdicas, porque se acreditava que elas sabiam mais coisas do que as outras, eram proprietárias de um saber que não se partilhava, que estava na genética de quem descendia dos Vikings e era de um loiro genuíno e erótico.
Clara circularia, receberia os clientes com uma palavra de quase amizade, a indagar se estava tudo bem, se a brasileira era do agrado, se a portuguesa mantinha o Aquilino, se a chinesa continuava ágil, se a russa evidenciava o ar de uma nobreza que acabara em simultâneo com o fuzilamento bárbaro e bolchevique dos Romanov. As exigências de qualidade subiriam ao mesmo ritmo que as jóias de entrada. A empresária já imaginava licenciadas, pós-graduadas, doutoradas, criaturas com dissertações filosóficas publicadas nas revistas da especialidade.
Por último, escolhida a força humana que estaria em contacto com o cliente – sendo que o conceito cliente assumia uma dimensão verdadeiramente corporal – Clara entendeu dar igual relevância a quem estaria na recepção, verdadeiro cartão-de-visita da sua casa. Hesitou entre a necessidade do respeito físico que um homem geralmente impõe e a sensibilidade de uma mulher. O processo de selecção esgotou-se na primeira candidatura, após este diálogo elucidativo e conciso:
- Queres dizer-me, Amália, porque motivo havia de te contratar? Desculpa a franqueza, mas tens uma cicatriz que te desfeia ligeiramente um olho e coxeias claramente de uma das pernas… Esta casa pretende ser um oásis de fantasia e beleza, pelo que poderemos ter uma contradição. Dá-me um bom motivo e juro que te contrato.
- Eu sou a realidade.
- Como?
- Sim, a realidade. Quando os seus clientes entrarem neste espaço de ilusão, a última coisa que verão sou eu – a realidade. Quando saírem, depois de regularizadas as contas, e ainda inundados de uma satisfação sem dimensão, eu serei o contraponto, porque a realidade também pode ser uma cicatriz, o coxear de uma perna. Eu, Amália, despertá-los-ei para o choque da vida porque o aconchego de uma mulher desconhecida – ainda que deslumbrante - num quarto de cores sensuais dura 1 hora, e o dia tem mais 23.
- Estás contratada. Começas 2ª feira.

(continua)

MTS

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