sábado, 6 de dezembro de 2008

Prazeres do Jardim

Temos Pena – expressão contemporânea que se instalou na verborreia, veiculada pelos mais novos e a que os adultos recorrem, deixando ao léu o gélido vazio que os preenche e a cobardia com que se aquecem, com a acrescida significância de falar por si e pelos demais.

Há um conjunto de indivíduos, com significativa representação em Lisboa, que jamais seria alvo da minha atenção, não fosse o insólito comportamento e a sua crescente proeminência. Não teria grande importância, mas a recorrência – ano após ano, diária e sucessivamente – consegue estragar o prazer aos concidadãos de rumarem aos seus ofícios, gozando a luz da manhã, a beleza desta cidade e a energia inerente às alvoradas quotidianas.

Trabalhei em diferentes zonas da capital e raro foi o trajecto que não incluiu passagem por estabelecimentos de ensino. Faculdades, liceus, primárias, infantários. Públicos e privados. E é exacta e somente à porta dos conceituados privados, onde a educação é bandeira e escrita a caixa alta, que todo o prazer se esgana e a maior boa vontade se esgota, enquanto a dita e douta educação se revela em beleza, passando de pais para filhos através de um exemplo exemplar.

Numa manhã recente, já a faixa de rodagem estava a ser confundida com um parking exclusivo de modelos Station e Jeep das marcas Audi, Volvo, Mercedes e BMW, dou com o meu Opel Kadett de 1991, invadindo o local. Saio imediatamente a reparar o erro. Alerto os legítimos utentes do parking para o facto de a minha viatura não ter permissão para ali permanecer. Aviso que é minha intenção zarpar, se me derem, pois, um jeitinho. E ainda arrisco partilhar que também tenho a criança para levar à escola.

E eis que a expressão toma corpo: – TEMOS PENA. Ora essa, não se lamente. Se o automóvel não cumpre os requisitos... Sabe ilustre senhor, pena, pena, é este nosso Jardim dos Prazeres não ter um único marmeleiro.

DaLheGas

2 comentários:

Anónimo disse...

A soberba ataca, impiedosamente, não escolhe género, nem idade, nem clã, nem cor política, estatuto social, ou profissão, nem conta bancária, nem hora nem local... grassa por aí.

...um dia eles aprendem, que são iguais aos demais, que passarão por doenças, por mortes, por os mais "estranhos" desafios, e que as marcas que usam, os lugares que frequentam, as roupas que envergam, os conhecimentos que tem, os lugares onde já foram, os contactos que possuem, os materiais que empilham, as casas que habitam, ... de nada lhes servirá...

um dia eles aprendem...

não se deixe levar por isso, nem deixe que insinuosamente e sem dar conta se instale outra forma de soberba,

Be, and let Be, siga o seu caminho...

um dia eles aprendem :-)

DaLheGas disse...

eu bem quero seguir o meu caminho a., mas empanco sempre neles

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