terça-feira, 23 de dezembro de 2008

História de Natal II

A terra não pedia muito.
Leve e escura, dava em muitos dobros
o que se lhe espetava
e bastavam-lhe
dois dedos de falatório ao fim da tarde
para se ver paga.
Pelas sete horas, Inverno ou Verão,
descia a caminheira das pereiras
e ia junto à chã do poço
contar à horta as coisas do dia e da vida.

«- Logo temos consoada... Mais uma.
Fez-se depressa o ano.»

A chuva caía miúda e a noite vinha aí.

«- Fez-se depressa o ano ...»

O bom ouvidor faz a conversa corrida
e iam por aí fora
sobre coisas de muito e de pouco,
sem pesar nem medir,
que é aí que está o gosto.
De quando em vez paravam de remar
e seguiam o embalo, fazendo caminho.
O vento cheirava a preparos de ceia.
Sentado no muro de pedra solta,
aconchegou a samarra e cuspiu longe.
Para a horta a conversa era um regalo
e a ele, no fim de contas, não lhe custava nada.

«- Parece que foi ontem.»

Que sim, que parecia.

«- Santas noites, até amanhã.»
«- Adeus, saudades ao Deus Menino.»
«- Serão presentes.»

Ele a virar a curva da eira e o Menino a chegar.

«- O João ?»
«- Ainda agora abalou. Mandou saudades.»
«- É sempre assim ...»

JCN

2 comentários:

Anónimo disse...

Fantástico, Parabéns! Rita Ferro

Anónimo disse...

Esqueci-me de dizer que me lembrou o Torga! Ou vice-versa? RF

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