segunda-feira, 20 de junho de 2011

Vai um gin do Peter’s ?


Dois artistas alemães ímpares, juntaram-se para registar em 3D o génio de uma companhia de dança célebre – Tanztheater Wuppertal. Há décadas que Pina insistia com o seu amigo realizador (que até fora o da ideia), Wim Wenders, para mostrar no écran o trabalho criativo do corpo de bailado internacional, que tem sede na Alemanha. Mas durante décadas, o cineasta resistiu por não se sentir à altura do desafio. Até que cedeu e se lançou no registo da história riquíssima de Wuppertal, à volta da figura mítica da sua fundadora, Pina Bausch (1940-2009), que já não viu o resultado final. Wenders preferiu adoptar o nome de quem pôs o sonho em movimento, na mais plena acepção: «PINA»(1).

Os dois amigos artistas

O efeito em 3D decorre com enorme naturalidade, transportando-nos para o auditório de Wuppertal, no ponto de observação de Pina. O realizador explica como a terceira dimensão foi decisiva: «Pina e eu tínhamos esta vontade há mais de 20 anos. Em meados dos anos 80, sugeri-lhe que fizéssemos algo juntos e isso uniu-nos, desde então. Mas o ballet de Pina tinha toda esta alegria e liberdade, era tudo tão vivo, que eu não sabia como transportar isso adequadamente para o cinema. Foi quando eu assisti pela primeira vez a um filme em 3D que tive a ideia. Ainda estava no cinema, quando lhe liguei a dizer: ‘Pina, já sei como vai ser!’» De facto, percebe-se a importância da volumetria logo na cena inaugural, em que os bailarinos formam uma linha a ziguezaguear por entre cortinas de organza suspensas do tecto, em paralelo. À medida que a onda dos bailarinos as vai tocando, uma a uma, ganham uma ondulação esvoaçante, acertada com a passada da dança. Seguem-se momentos dramáticos da Sagração da Primavera, com o chão coberto de terra escura, a enquadrar esta dança das forças da natureza.


«Sagração da Primavera»

Desde criança que a timidez e a maravilhosa interioridade de Pina lhe dificultaram encontrar palavras para transmitir tudo o que lhe ia na alma. Assim, a sua figura esguia, ágil e suave adoptou a dança para se expressar, encantando os clientes que frequentavam o hotel-restaurante dos pais. A dança – para lá do virtuosismo estético – abriu-lhe uma via de comunicação subtil e de infinitas aplicações, que nunca mais parou de explorar. Trabalhava incansavelmente, com o zelo e o rigor da primeira estreia em palco. Nos testemunhos dos bailarinos, cabe a uma americana espantar-se com o tempo que Pina dedica ao trabalho. Diariamente – relatam os seus companheiros de tablado – dava-se por inteiro a cada instante dançado, a cada espaço de reflexão e de criatividade conjunta e, acima de tudo, a cada bailarino! É tocante ver o trabalho de interacção entre o indivíduo e o grupo (mais ainda quando a mestra intervém), sob a voz doce e confiante de Pina, a oscilar entre a musa inspiradora, a companheira no aperfeiçoamento dos passos e a educadora que congrega talento, liberdade e afectividade.


Liberdade conquistada em todos os ambientes, mesmo por entre obstáculos

As coreografias bem interpelativas, que se desenrolam em cenários inusitados e sob sonoridades muito musicais, misturam os solos com as danças colectivas, incrivelmente bem sincronizadas, mas sem nunca abafar a vitalidade individual naquele corpo plural de muitos eus, que se movem espantosamente unidos. O respeito com que Pina olha cada um perpassa nas danças, executadas com a entrega, o entusiasmo de quem concebe a arte como linguagem suprema de beleza e de Bem, aberta a todos. Expressivamente, um dos bailarinos assume que: a Pina faz-nos sentir fantásticos, capazes de tudo. Vê-se que adoram dar o máximo. De facto, Pina contagiou-os de um dom incrível: um trabalho vivido com paixão!



Em Wuppertal respira-se liberdade. Não por palavras. Mas por actos, que partem do enorme respeito pela individualidade dos bailarinos. O mistério insubstituível da pessoa é um princípio ali reconhecido como sagrado. Pina interpela-os com perguntas lapidares, a pedir contributos, a contar com a riqueza única de cada um.

Ao saleroso dançarino da América Latina, Pina desafia-o a expressar a alegria. E assim nasce uma coreografia festiva, cheia de garra, com gestos amplos e felizes. Uma explosão de movimento em ritmos harmoniosos e velozes.

Ao dançarino que se entretém em graças e dá alguns passos em falso, Pina sugere-lhe uma nova perspectiva, mais atenta, mais consciente: «Assusta-me.» A rir-se, ele conta que resultou… A dada altura, ele diverte-nos com uma coreografia burlesca, num parque público, onde um cão excitadíssimo com as suas passadas bruscas alinha naquela dança anedótica.

À mais medrosa, que se esconde nas franjas do grupo, Pina ajuda-a a superar o pânico, nas palavras da curada: Passados bons anos de cá estar, um dia Pina pergunta-me, com uma voz muito triste, por que tinha tanto medo dela... A partir daí passei a dançar como os outros.

À dançarina contida e algo tensa, Pina deixou um desafio: ganhavas em ser mais maluca.

À brasileira divertida, Pina proporcionou um meio de realização pessoal tão vasto, que a bailarina lhe dedicou uma dança com passos suspensos no ar, para traduzir as asas de que Wuppertal a dotara, permitindo-lhe saborear um céu imenso que agora lhe ficara ao alcance.

No filme, a intercalar os quadros cénicos do bailado vanguardista desfilam, à vez, os bailarinos, partilhando no seu idioma (em inglês quando citam Pina) a sua experiência em Wuppertal, especificamente com a mestra coreógrafa e dançarina. Aqui, a sensibilidade muito humana de Wenders concentra-se em rosto que nos olha de frente, quase sempre em silêncio, num zoom sobre o olhar, como espelho da alma. É em voz-off que se ouve o testemunho pessoal. Desta forma, colocamo-nos na posição de Pina, que investe a maior parte do tempo a observá-los, a envolvê-los pelo olhar, numa atenção cuidada, quase maternal, capaz de perscrutar as figuras, as vidas.



São telegráficas as mensagens verbalizadas por Pina, a dar-lhes ânimo para dançarem sempre, para reinventarem novas expressões, ensaiarem novas mensagens tridimensionais, tornando imparável o sonho de Wuppertal. De todas as perguntas, uma impõe-se pela intensidade e impacto (é, aliás, recorrente): descubram o vosso anseio mais profundo, o que vos move, o sentido da vossa vida! É com pena que deixamos os bailarinos, a música, os passos de dança que lhes vêm da alma e falam muito para lá da materialidade dos corpos. Apetece-nos voar, como a brasileira…

PINA - Dance, dance, otherwise we are lost - International Trailer from neueroadmovies on Vimeo.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(1) FICHA TÉCNICA

Título original (e tradução em Portugal): PINA

Realização: Wim Wenders

Coreógrafa: Pina Bausch

Argumento: Wolfang Bergmann, Dieter Schneider, Gabriela Heuser

Produção: Gian-Piero Ringel

Produção em 3D: Erwin M. Schmidt

Elenco
Pina Bausch

Companhia de Dança de Wuppertal

Duração: 100 min.

Ano: 2010
País: Alemanha /França

Site official - http://www.pina-film.de

Festival Internacional de Berlim, Prémio do Melhor Documentário de 2011 na Alemanha.


«Dancem, dancem sempre, senão estão perdidos.»

3 comentários:

Anónimo disse...

estou à mais de um mês para o ir ver ao cinema,já vi trailers e li várias críticas, acho que este era o incentivo que precisava para definitivamente ir ver. Vamos a ver se ainda está no cinema... mfm

Anónimo disse...

obrigada, mz, por falares tão eloquentemente dum filme sobre uma coreógrafa duma originalidade extraordinária. quero muito ver este filme. agora ainda mais. bjs. pcp

Anónimo disse...

Creio que a Pina é tão extraordinária, que merece ser mto vista, desde que se esteja inspirado para entrar na "onda" muito livre e interpelativa de Wuppertal. Bjs à pcp e à mfm, mz

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