segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vai um gin do Peter’s?

Mais do que um grande filme «A CONSPIRADORA»(1) é um grande argumento, subtilmente trabalhado por Robert Redford, numa realização muito natural, que reforça a narrativa.

A trama baseia-se em factos, logo após o assassinato clamoroso do promissor Presidente dos EUA, Abraham Lincoln, a gerir a difícil crise da Guerra da Secessão. Foi ele a última e a mais eminente vítima pública do sangrento conflito, que opunha sulistas a yankees. Um crime ingloriamente perpetrado seis dias antes do Sul se render e da paz retomar o seu caminho. Renascer das cinzas e conter a ordem tornaram-se logo nas prioridades dramáticas do novo Governo interino pois, além de Lincoln, outros membros do seu Gabinete tinham sido alvejados, na mesma data. Felizmente, nem todos com sucesso. Tudo se precipitou na noite de Sexta-feira Santa que, em 1865, calhou a 14 de Abril.

A justiça americana actuou com velocidade relâmpago, prendendo dezenas de suspeitos, até chegar ao núcleo duro dos envolvidos na conspiração, em número de oito, incluindo um actor popular: John Wilkes Booth, que baleara Lincoln. Tudo isto num par de semanas, constituindo logo o tribunal marcial para o julgamento célere dos civis comprometidos no homicídio. Um caso sem precedentes submeter civis à duríssima lei marcial, por se tratar – alegava o novo Presidente Andrew Johnson – de um acto de guerra. Releve-se a história (omissa no filme) de que, em escassos três meses, tudo ficou resolvido, após uma maratona de sessões em que depuseram 366 testemunhas!

Aqui entra o protagonista, jovem advogado, herói de guerra pela União, o Coronel Frederick Aiken (1837-1878), mandatado para defender um dos conspiradores: Mary Surratt, dona da pensão onde o grupo se costumava reunir e mãe de um dos desordeiros.


Com o advogado de defesa entra em cena o próprio sonho americano e o mais puro American way of life, em que o cavaleiro solitário se bate pela justiça universal, em favor de todos, incluindo um possível homicida. Nada óbvio! Nem politicamente correcto, à época. De facto, no final do processo (e da película), o advogado fica reduzido a uma pálida sombra do seu início fulgurante, onde aparecera rodeado de amigos e acarinhado por todos, a começar pela atraente noiva, que vai cedendo à cortina de rejeição que se abate sobre ele. Pagou caro o preço da luta pela verdade, segundo o seu entendimento! Herói para a pobre condenada, mas vilão traidor para os seus pares, Aiken ergue-se corajosamente como o combatente incompreendido, igual a todos os profetas antes de tempo… que antecipam as mudanças.


Reclusa agradece a Aiken a sua defesa renhida no tribunal, em contracorrente. Encontrou no advogado o apoio que nunca tivera do filho. 



A noiva desespera de tanto esperar, deixando-se intimidar pela hostilização galopante a Aiken. 

Isso nos explica Redford, na conclusão, assinalando as mudanças constitucionais decorrentes do julgamento irregular de Mary Surratt e as críticas tecidas pelo jovem advogado na sessão derradeira, o único na barra a pugnar por um dos sustentáculos da democracia – a Justiça. Mas estranhamente em contramaré, no seio da primeira nação nascida e talhada em democracia.

O desempenho sóbrio e forte da condenada, faz-nos vacilar em face da onda punitiva do tribunal marcial, sedento de bodes expiatórios e de vingança sumária. Ora, é sobre os escombros de um tribunal com um julgamento predefinido, testemunhas chantageadas, e uma derrota no curto prazo (de Aiken), que o argumento reflecte sobre a matriz dos princípios fundadores do país da liberdade. Espantosamente, o foco incide sobre a raiz da liberdade: a Verdade. A coincidir (se houver coincidências) com a interpelação firme da filha da condenada a Aiken: «Have you ever cared for something greater than yourself ?». Como será a vida em sociedade se cada indivíduo for a única medida da realidade?

De facto, fora em nome da verdade que Aiken arriscara toda a carreira e vida social, parecendo ter desgraçado o futuro que se lhe afigurara risonho, antes daquela fatídica Sexta-feira. Mas é em nome da mesma verdade que o país, poucos anos mais tarde (outro feito notável) lhe reconhece esse mérito, publicando no Washington Post uma homenagem inequívoca(2), ao noticiar a sua morte prematura, aos 41 anos:

«Aiken was one of the most active workers in the Democratic cause, and his brilliant pen and eloquent voice were incessantly employed. When that unfortunate victim of Republican fury, Mrs. Mary Surratt, was dragged from her bed at midnight by the brutal minions of Stanton, and hurried before a court-martial organized to convict, Col. Aiken was one of the gallant few in the District that dared to lift his voice in behalf of justice and right at the imminent risk of his life and nobly undertook to conduct her defense. His defense of Mrs. Surratt is one of the... most praiseworty efforts on record. Col Aiken’s memorable speech on that occasion will be long remembered as fulfilled prophecy, everyone now believing her to have been innocent. (…)»

Respira-se no filme a mundividência americana, a começar pela rapidez no diagnóstico das falhas e uma certa humildade a reparar os erros, acrescentando as emendas necessárias à Constituição fundadora do país! Para termos uma escala cronológica plausível, vale a pena lembrar que os meses precisos aos EUA para operar essa mudança fulcral (no séc. XIX), têm correspondido a anos em Portugal para alterações bem menores (no séc. XXI)… Digo isto, com esperança de um dia destes mudarmos. Além do mais, os EUA provaram ser para Aiken a terra das oportunidades, abrindo-lhe uma carreira jornalística de sucesso fulgurante, mal desistiu da advocacia.

Muito americano também o costume de revisitar o passado com enorme sentido crítico, sem medo de apontar culpas nem de pôr em cheque figuras públicas, até mesmo as mais aclamadas. Não há ali «intocáveis».

Muito americana também a importância dada às exéquias fúnebres do Presidente Lincoln, em especial na forma de exorcizar publicamente o desgosto e os reveses, envolvendo toda a nação no trágico acontecimento. Recorde-se que a urna percorreu o país, a fim de poder ser vista e homenageada por todos. Uma democratização máxima do luto. Repetiu-se este ritual com John Fitzgerald Kennedy, cujas exéquias foram difundidas, à exaustão, por via televisiva. Qualquer dos dois foi assassinado no auge da carreira e da esperança.

Muito americana ainda a eficiência da polícia, a conseguir capturar além-fronteiras, na Europa(2), o único insurrecto que continuava a monte: precisamente o filho da conspiradora. Em escassos 16 meses, John Surrat foi repatriado e submetido a julgamento. Curiosamente, foi o primeiro beneficiado pela nova emenda constitucional suscitada pela condenação precipitada da sua mãe. Acabou por sair em liberdade, em face da escassez de provas concludentes. A condenada – que fizera tudo para salvar o filho – acabou por conseguir um feito maior, salvando muitos outros filhos para além do seu, ao inspirar uma revisão legislativa com efeitos directos na Justiça. Nesse aspecto, não terá sido totalmente vã o seu enforcamento.


Muito americana toda a forma de o realizador (comummente apelidado de «neo-liberal») conceber a democracia que – aqui é evidente – está inscrita no ADN desta grande federação democrática, para lá dos defeitos que também tenha, ou não envolvesse seres humanos... Ainda assim, vale a pena sublinhar um dos traços fortes do filme, a mostrar quanto o património democrático resulta da soma de inúmeros gestos individuais, destemidos e enérgicos, em prol da comunidade, frequentemente com custos avultados para o próprio. A exigir muita generosidade e profissionalismo. Nisso, a pátria que alberga a Estátua da Liberdade (presente francês, onde a doutrina tende a superar, em muito, a prática…) será sempre um exemplo para o lado de cá do Atlântico, cuja democracia atravessa tempos hostis, apenas sustentada na crença da maioria numérica.  




Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
THE CONSPIRATOR
Título traduzido em Portugal:
A CONSPIRADORA

Realização:
Robert Redford  (já premiados com Óscares)
Argumento:
James D. Solomon (do filme)
James D.Solomon e Gregory Bernstein (editorial)
Produzido por:
Greg Sapiro

Duração:
122 min.
Ano:      
2011
País:
EUA

        Elenco:

James McAvoy  (Aiken)
Robin Wright     (a conspiradora, Mary Surrat)
Kevin Kline         (Edwin Stanton, Ministro de Guerra de Lincoln)
Tom Wilkinson  (Reverdy Johnson, o advogado tutor de Aiken)
Evan Rachel Wood (filha da condenada)
Local das filmagens:

Nos EUA:  124 Abercorn St, Savannah, Georgia, USA

Site oficial:

http://www.conspiratorthemovie.com/the_conspirator_about_the_film.php


 (2) Facto omisso no filme. 


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