terça-feira, 3 de abril de 2018

Das relíquias

A minha relação com as relíquias religiosas só não é mais queiroziana por algum respeito pela Igreja e manifesta falta de rasgo literário da minha parte. Sendo A Relíquia um dos meus livros de eleição, é nele (também) que vou buscar citações que me divertem com quem as sabe - o meu Pai ou o meu querido amigo fq. O Raposão traria uma relíquia da Terra Santa (e lembremo-nos que Jerusalém era, para o Alpedrinha, pior que Braga, irra!) que provocaria êxtases à Titi - nada mais nada menos do que a coroa de espinhos com que Cristo foi crucificado. Veio, afinal, a camisa de noite da Mary - a Maricoquinhas. Do odor de santidade ao odor de sensualidade foi um instante que marcou a perdição do devasso. 

***

Durante séculos a Igreja e as relíquias viveram excessivamente perto uma da outra. Supostamente provenientes de um santo, um dedo era objecto de veneração, um dente idem idem, uma tíbia em bom estado ou um perónio semi-carcomido pelos vermes e pelo tempo suscitavam uma hiper-ventilação devota. Há relíquias expostas em igrejas mas não lhes encontro mais do que uma porcaria morta, putrefacta, feia, susceptível de crendices e tratadas como se fossem uma preciosidade. Que não são.

Para efeitos do que aqui me traz, o dedo de S. Francisco Xavier é tão relevante para a História da humanidade como o dedo de Isaac Newton ou do merceeiro do meu bairro. A tíbia do Padre António Vieira não faz mais pela salvação das almas do que igual osso do pai do soldado desconhecido, sendo que não se sabe quem é um ou outro (o soldado e o pai...).  Um dedo é um dedo, um osso é um osso, e não consigo perceber por que motivo devemos acarinhar estas ideias peregrinas da importância das relíquias. S. Francisco Xavier foi importante pelo que fez, e a santidade está nele, não num dedo gangrenado e preto colocado numa caixa de madeira nobre. O que os santos fizeram e que devia ser motivo de exemplo ou inspiração não se vê numa tíbia, numa caveira, num cabelo conservado por artes humanas. O importante neles é o testemunho, não a anatomia. Cultivar a devoção à relíquia é cultivar o direito à fezinha, ao meu santo antoninho, ao meu querido s. judas tadeu. Um santo é aquilo que pensou, escreveu, fez. E isso não se vê num fémur - que nem se sabe se é de quem se pensa que é.

Vem este arrazoado cansado e invernoso a propósito do Santo Sudário. Falou-se nesse tema há umas semanas, num almoço de amigos, a propósito de uma conferência. Voltei a ler sobre isso este sábado, no Observador. Vivia com a impressão que já se tinha provado que aquele pano não era do tempo de Cristo; fiquei depois com a impressão que sim, que é. Confesso que não sei bem o que pensar - e não sei se quero pensar muito. Uma parte do sudário é uma relíquia -  um osso, um prego que cravou Jesus Cristo, a coroa de espinhos que o Raposão traria à Titi, uma madeirinha (ou tabuinha?) aplainada por S. José. Uma parte do sudário é, repito, um objecto de devoção que não percebo bem, embora seja evidente a diferença relativamente ao eventual polegar de Santa Escolástica. A importância está em Jesus Cristo, não no que ele usou, mesmo que fosse naquilo que nos redime - a Cruz, a sepultura, a ressurreição.

Ora, há uma diferença no Santo Sudário. Um dedo é um dedo, um osso é um osso, um cabelo é um cabelo e, nesse sentido (e nesse sentido apenas) um cravo seria um cravo, uma madeirinha uma madeirinha. Porém no Santo Sudário há uma diferença substantiva: a manifestação de uma ciência que só poderia ser divina. Jesus Cristo, presumo eu, não foi pintado antes de ser sepultado. Ora, nesse sentido, não há razão, à luz da ciência, para que o corpo de Cristo ficasse marcado (talvez pintado seja demasiado profano...) naquele tecido que o envolveu. Houve uma explosão qualquer - uma libertação de energia, um milagre, algo não explicável à luz do conhecimento actual. É fácil cortar-se  uma falangeta, arrancar uma mecha de cabelo, rapar um bocadinho do madeiro onde Cristo agonizou. Mas ninguém sabia fazer aquilo com o Santo Sudário. É por isso, e só por isso, que eu gostaria que o Santo Sudário fosse verdadeiro. Era o sinal do celeste, do espantoso - de tudo o que está acima da nossa compreensão e que nos remete a uma pequenez saudável. 

Estarei demasiado irreverente?

JdB  

1 comentário:

Anónimo disse...

Jdb, está em maré cheia!
Que longa conversa não viria daqui!

Cumprimenta,
eo

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