quarta-feira, 11 de abril de 2018

Vai um gin do Peter's?

HÁ 500 ANOS, OS MERCADORES ITALIANOS VIAJARAM COM A MADONNA DI LORETO 

É conhecida a frase de Darwin sobre o trunfo dos animais que melhor sobreviveram à turbulência climática e geológica do planeta. Primeiro, o investigador desfez o equívoco do costume: não foram as espécies mais inteligentes, nem as mais fortes, maiores e/ou majestosas. Os campeões tinham sido os mais versáteis, pela destreza em adaptar-se às novas condições de vida, suplantando dificuldades e ameaças.   

Três séculos antes de Charles Darwin, os mercadores italianos(1) provaram a validade da sua tese, ao desencantarem uma resposta à altura do rombo comercial provocado pela chegada de Vasco da Gama à Índia, na Primavera de 1498. 

Viagem das 3 naus com um navio de abastecimento.
Lisboa - 8.Jul.1497 »»  Calecute - 17.Maio.1498

Já em 1453, a conquista de Constantinopla pelos otomanos tinha aberto brechas irreversíveis no monopólio das especiarias, tornando arriscada a rota do Mediterrâneo. No entanto, a estocada final deu-se com a inauguração da via marítima Atlântico-Índico, que desviou para o Tejo o poderoso circuito comercial das preciosidades exóticas orientais. 

Com enorme diligência e esforço, considerando a precariedade dos meios de transportes quinhentistas, inúmeras famílias de Florença, Veneza, Génova, Cremona e Piacenza decidiram instalar-se em Lisboa. A rapidez e radicalidade do transplante poderá ter sido influenciado por inside information sobre a revolução comercial iminente causada pelos portugueses, uma vez que muitos dos especialistas estrangeiros contratados pela coroa nacional para preparar a navegação em oceano, vinham de Itália. Por iniciativa do Infante D.Henrique, Portugal transformara-se num laboratório científico e tecnológico, onde se apuravam as técnicas de marinharia(2) através dos progressos registados na matemática, na astronomia, na construção naval, ou no equipamento náutico, para permitir navegar em alto mar – um meio infinitamente mais hostil do que as águas seguras e conhecidas do Mediterrâneo.  

Duas décadas depois do desembarque em Calecute, o grupo de italianos radicados em Lisboa já se impunha em número e importância. A capital portuguesa convertera-se numa metrópole rica e fervilhante de europeus e gentes de outras raças, entre curiosos, cientistas, espiões, navegadores, mercenários, comerciantes, artesãos, artistas e imigrantes.

À época, Lisboa podia orgulhar-se de ser a única capital europeia, onde se passeavam transeuntes africanos, como o ilustra a pintura flamenga «Chafariz D’El Rei», datada entre 1570 e 1619 pelas duas prestigiadas especialistas britânicas neste período – Annemarie Jordan e Kate Lowe.
Actualmente, pertença da colecção Berardo.

Ciosa das suas raízes, a comunidade da língua de Dante tratou de angariar fundos para comprar um terreno junto à muralha fernandina, onde veio a ficar a torre Norte da Porta de Santa Catarina, para ali erigir uma igreja dedicada à Madonna di Loreto. A italianidade impregnou a obra, sob a batuta do arquitecto Filippo Terzi. A própria independência territorial também ficou assegurada, com a integração do novo templo na paróquia mais importante de Roma, situada a 1.800 kms de Lisboa: S.João de Latrão! Ainda hoje mantêm o vínculo directo à Santa Sé, sob a gestão da ordem missionária Dehoniana (desde 1953). 

Recuando 500 anos, até ao dia 8 de Abril de 1518, dava-se a inauguração do espaço sagrado que os lisboetas conhecem por «Igreja dos Italianos». Logo na fachada exterior principal, que ainda é a original (séc.XVII), o nicho alto ostenta uma imagem de Nossa Senhora do Loreto com o menino, trazendo para Portugal a devoção já muito popular em Itália, desde o século XIV. Sobre a porta, persistem as armas pontifícias ladeadas por dois anjos, do escultor Borromini. Nos nichos laterais há duas estátuas de estilo italiano, mas atribuídas a um escultor francês. 



A segunda imagem do Loreto encontra-se na capela-mor, também conhecida pela sua abóboda de berço e pelo retábulo de mármore policromado italiano. Esta devoção evoca a forma milagrosa como a casa da Sagrada Família, em Nazaré, escapou aos saques dos sarracenos e foi transportada por anjos desde a Terra Santa até à Europa. Começou por “fazer escala” na Croácia mas, pouco depois, “aterrou” na povoação italiana de Loreto, onde se mantém, continuando a atrair peregrinos dos lugares mais recônditos. Não por acaso, foi escolhida para Padroeira da Aviação, aludindo ao modo como chegou à costa norte da bacia mediterrânica.  



Na decoração interior da Igreja predomina o mármore italiano, numa disposição em nave central com doze capelas laterais, intercaladas pelas grandes pinturas murais dos doze apóstolos a parecerem esculturas portentosas, a par das imagens dos evangelistas em pedra. 

As vicissitudes por que passou, consumida violentamente por dois incêndios – em 1651 e no terramoto de 1755 –, não atrapalharam a comunidade italiana de Lisboa que, no espaço de 2 décadas, se lançou nas obras de reconstrução, quase de raiz. O segundo projecto já tem cunho português, num projecto neoclássico de Joaquim António dos Reis Zuzarte, depois concluído por José da Costa e Silva.

Na fachada ocidental, o tom pastel em azul-esverdeado,  deu maior sofisticação à Praça Camões

A anteceder as comemorações do quinto centenário, houve novo restauro, terminado em vésperas do Natal de 2017. Mal os andaimes foram retirados, a nova iluminação suspensa do tecto trouxe à luz a variedade dos murais, a beleza das imagens e dos painéis do revestimento superior (séc.XIX), além de realçar as telas sobre os altares laterais. A Igreja renasceu com um interior festivo e colorido, até ali escondido sob um pó escuro, que lhe dava um aspecto triste e empobrecido. 

O painel central é da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho (1810) e a parte periférica do tecto, além dos murais com os 12 Apóstolos, são de Cirilo Volkmar Machado (1823). A soberba elipse suspensa, repleto de focos luminosos cirurgicamente apontados, veio de Espanha.  

A sacristia também vale uma visita, para se apreciarem os azulejos do ceramista espanhol Gabriel del Barco e as pinturas de António Machado Sapeito. Outra das preciosidades escondidas desta Igreja é o arquivo histórico luso-italiano, que preserva documentos de origem, um deles do século XV.  

As comemorações do quinto centenário envolvem um programa intenso de concertos, conferências, visitas(3), que darão pretexto a redescobrir a nova decoração do Loreto, consistentemente italianizada. 

Quem conheça bem o Chiado e esta Igreja, saberá que um dos seus carismas, invulgar na Lisboa de hoje, é a confissão, num horário alargado, 360 dias por ano com raras falhas. Nem ali falta o sotaque e o salero italianos, a fazer jus ao cunho original da primeira comunidade de expatriados vindos das belíssimas cidades, que só se reuniram sob a mesma bandeira em 1870. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

(1)  Como país unificado, Itália data de 1870.
(2)  Os dois gins dedicados à exposição da Gulbenkian «360º Ciência Descoberta» focam-se nesta convulsão da arte da navegabilidade: sobretudo 20 de Maio de 2013; parcialmente também 22 de Abril de 2013. 
(3)   Site da Igreja: http://igrejaloreto.wixsite.com/lisboa e dois artigos muito elucidativos da RR:   http://rr.sapo.pt/noticia/110191/500-anos-igreja-do-loreto-lanca-programa-de-comemoracoes


2 comentários:

Anónimo disse...

Como também estudei, cometo a vilania de criticar quem estudou:
Os 'italianos' que ajudaram na organização da Marinha Portuguesa eram genoveses. Chamados por D. Dinis. Ver o “Contrato de Vassalagem de Manuel Pessanha”. Manuel Pezagno (ou Pessagno, Pezagni) — em Português Pessanha — e que guardassem os segredos.
D. João I dispensou Manuel Pezagno e os genovêses, não só por não terem guadado os segredos (em 'Itália' apareceram mapas da Terra do Lavrador, da Terra Nova e da costa do Canadá), mas também porque os portugueses cedo se tornaram mais eficazes no corso, na guerra marítima, que os genoveses.
Desde essa altura Portugal foi um bom local de negócios. Nos últimos dois séculos vieram muitas famílias do Sul de Itália para se establecerem no Algarve (Olhão) como pescadores/conserveiros.
Dom Henrique não fez 'a escola de sagres'. É uma analogia. Quem impulsionou as descobertas e a criação de um império foi Dom João II, herdeiro legal e funcional de Dom Henrique (Ordem de Cristo).

Anónimo disse...

Só lhe agradeço a precisão dos dados. De todos os modos, a referência a "italianos" que tb fiz no "gin" foi a forma possível para referir os habitantes que vinham do território unificado em 1870 com o nome de "Itália". Na vaga de imigrantes do fim do XIV e início do XV, havia gente de variadíssimas cidades italianas. Muitos aportaram em Lisboa; outros na ilha da Madeira, quando começou a colonização. Volto a agradecer o seu comentário cheio de informação. MZ

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