domingo, 1 de abril de 2018

Do controlo da imperfeição *

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB     

* publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2015

1 comentário:

Anónimo disse...

Do controlo da imperfeição, é um pequeno texto. Muito do ali escrito tem-no sido ao longo de milénios por homens.
O senhor conseguiu prantá-lo em poucas linhas. Ainda bem, porque a nossa dificuldade em compreender a imperfeição não aguentaria muitas mais linhas.

Cumpreimenta,
eo

Acerca de mim

Arquivo do blogue