segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Vai um gin do Peter's?


Desde cedo que a Sétima Arte foi em parte capturada pelo poder político, ciente do enorme alcance comunicativo desta forma de expressão, que combina magistralmente som e imagem. Por isso, não se estranha que quase todos os regimes ditatoriais (e não só…) dos países mais desenvolvidos o tenham utilizado.

Hitler foi dos líderes que mais e melhor instrumentalizou as várias artes, apropriando-as como bandeira da ideologia nacional-socialista. No cinema, Leni Riefenstahl é só a realizadora de maior talento, carisma e fotogenia do regime, um sucesso que pagou caro no final da Guerra.

Estaline também tem um filme de propaganda marcante, rodado nos anos 30, com uma qualidade audiovisual assombrosa. Tive a oportunidade de o ver numa exposição temporária sobre propaganda política, no Museu de História da Alemanha (Fev. 2007 - Berlim), apresentada com o rigor e detalhe germânicos. Inesquecível aquele arquivo do segundo quartel do século XX. Como inesquecível foram as perspectivas sobre a Praça Vermelha, no tal filme de entronização do déspota soviético. A célebre praça impunha-se pelos pináculos coloridos da lindíssima Catedral de S.Basílio e pela gente simples que a inundava. Sobressaíam as expressões doridas, de aspecto desamparado – uma sensação habilmente acentuada pelo manto de neve a cobrir tudo, açoitado regularmente por rajadas de vento, que lançavam ao ar pesados turbilhões de gelo. O desconforto, tão expressivo, atingia o próprio espectador nesses raids de -30ºC! Dói ver rostos sulcados pela fome e pela escassez de toda a ordem, em camadas de sofrimento acumuladas há gerações. À voz paternalista (e demagógica) do grande líder, a gente simples respondia com um frémito filial e crédulo, a clamar pelo Pai do Povo. Percebe-se que muitos queriam mesmo acreditar. Precisavam, desesperadamente! Seria dali que lhes viria a salvação? Hoje, sabemos a resposta. 

No outro lado do Atlântico, de modo bem mais ligeiro e algo subtil, a Casa Branca também se desdobrava em encomendas a Hollywood, sem cultos de personalidade, nem exaltações populistas. Durante a Segunda Guerra, pretendia-se denunciar a barbárie das Forças do Eixo, apoiar os soldados nas frentes de batalha, criar simpatias a nível mundial e achincalhar o inimigo, que dava azo a rábulas óptimas para o entretenimento de massas nas salas de cinema de todo o planeta.

A Guerra Fria não aliviou a pressão sobre Hollywood, apenas alterou o alvo… Tão pouco mudou o modus operandi dos norte-americanos, continuando a privilegiar a abordagem positiva, cativante. Aliás, basta ouvir a música de rádio num qualquer táxi à saída do aeroporto J.F.Kennedy para se embater nesta boa onda do American way of life.

Em 1941-42, quando Roosevelt precisou de congregar o apoio de toda a América Latina para a causa Aliada, especificamente o Brasil justificou uma investida de charme produzida pelos estúdios da Disney. O próprio desenhador demorou-se no Rio de Janeiro para se embeber dos ares cariocas e realizar uma deliciosa curta-metragem –«AGUARELA DO BRASIL»(1) – da série de título hispânico «Saludos Amigos».

Walt Disney a desenhar num cenário privilegiado

Tudo roda em torno da música e da alegria esfusiante do Zé Carioca, guia de luxo da Cidade Maravilhosa e do ritmo afro-americano do samba. Quase se poderia dizer que duas outras personagens contracenam com o Zé Carioca: por um lado, a beleza deslumbrante das colinas na baia do Rio de Janeiro e, por outro, o som morno e contagiante do samba «Aguarelas do Brasil», escrito por Ary Barroso, em 1939, que inspirou o título do filme.

Cover of the 1942 musical score of “Brazil,” with
lyrics in English, Portuguese and Spanish

É giro observar os caminhos criativos da história, onde também pesam os pequenos reveses e os caprichos pessoais, capazes de interferir no curso dos acontecimentos. Assim aconteceu a Disney, quando em Agosto de 1941 se deslocou ao Brasil, integrado numa missão oficial dos E.U.A., para cumprir a encomenda que o Governo lhe fizera. Zangado por a banda do hotel onde ficara hospedado, em Belém do Pará, insistir em só tocar toadas do seu país, Walt queixou-se ao jornalista que o acompanhava – Celestino Silveira. Em face do protesto, a banda arriscou, ao piano, o novo hit de Ary Barroso, já muito popular no Brasil e q.b. conhecido nos próprios Estados Unidos. Apesar de a execução ter sido bastante sofrível (segundo consta), Disney apanhou-lhe a graça e quis aquela música para acompanhar o seu Zé Carioca.

Com o apoio diplomático, em menos de 24h agendou-se o encontro entre o realizador americano e o compositor brasileiro, aproveitando um cocktail no Consulado dos EUA, no Rio. Assim se fixou a excelente banda sonora do filme, que é uma autêntica filigrana em versão animada. Tudo no filme flúi pacatamente, a começar pelo pincel genial do desenhador. Impressionante, até pelo detalhe de cada cena, sem quaisquer efeitos especiais, nem a facilidade dos computadores.

O novo herói de Disney – o papagaio do Brasil. 


Impera ali o profissionalismo das terras do tio Sam, a par da forma estimulante de os americanos proporem as suas causas, ao serviço de uma campanha de nome inequívoco – Good Neighbor Policy Mission – e directamente coordenada pelo U.S State Department, cuja comitiva (ao Brasil) incluía figuras tão diversas como um realizador-produtor de cinema...

Naturalmente que na tela, o Pato Donald e o Zé Carioca entendem-se às maravilhas, sob o céu quente e luminoso dos trópicos, no ritmo contagioso do samba. À maneira dos EUA, os protagonistas trocam cartões e mostram as suas habilidades um ao outro. Estrategicamente, o Zé Carioca revela um encanto irresistível, só ultrapassável pela elegância festiva das cariocas.

Magia dos desenhos de Disney,
que nos agarram logo ao primeiro passo

Na cena final, num contraluz de tons encarniçados, Donald ginga animadamente na pista de dança, tentando acompanhar o balançar envolvente e hiper musical de uma brasileira salerosa, a deslizar, a flutuar por todo o salão de dança.

Esboços para o trabalhoso filme 

Não se estranha que o filme redunde numa homenagem generosa à boa vida e às belas gentes do Brasil. De facto, fora concebido como manobra de sedução, destinada, não apenas às autoridades, mas a todos aos cidadãos, numa política de aproximação clara entre as populações dos dois países. Digamos que são os norte-americanos no seu melhor, a promover tudo e todos: das pessoas aos produtos cariocas. De facto, o samba de Ary Barroso entrou de imediato nos top de venda, sendo rebaptizado nos EUA por «Brazil» e adoptado por Bing Crosby (entre outros), a quem muitos atribuíram, erradamente, a autoria da canção. Assim correu mundo, com inúmeras versões personalizadas, de Cármen Miranda a João Gilberto, para além das interpretações anglófonas:

http://www.youtube.com/watch_popup?v=_mQHr8bAojU&vq=small

Sente-se quanto o filme está impregnado da vitalidade e da alegria do Novo Mundo. Quem dera que o nosso Velho Continente as interiorizasse com o mesmo entusiasmo do Pato Donald na sua viagem de descoberta dos encantos do Rio… que é como quem diz: de povos diferentes ou, simplesmente, dos outros. No fundo, os votos de Bom Ano continuam a rolar, como diria o Zé Carioca!

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
WATERCOLOR OF BRAZIL

Título traduzido em Portugal:
AGUARELA DO BRASIL

Produção:
Walt Disney
Banda sonora:
“Aguarela do Brasil”, de Ary Barroso (1939) na interpretação de Aloysio Oliveira,
Samba: “Tico tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu (instrumental)
Duração:
8 min.
Ano:      
1942
País:
EUA
        Elenco:

José Carioca (voz de José Oliveira)
Pato Donald  (voz de Clarence Nash)
Local das filmagens:

Brasil, com especial incidência no Rio de Janeiro




2 comentários:

Ana CC disse...

Sou fã do WD e não conhecia isto ou talvez não me lembrasse. Boa dica, como sempre.
Boa semana MZ

Anónimo disse...

Aliás, é impressionante ver a quantidade de realizadores e artistas bons que alinharam com a causa aliada. Note-se que este filme é um contributo mto válido na guerra contra a barbárie nazi. Boa semana e obrig. pelos comentários, MZ

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