terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Duas últimas

Já aqui postei Charles Aznavour, talvez mesmo esta interpretação, com um início de 2'08" menos conhecido. Vale a pena estar em silêncio e escutar a transição nesse momento exacto.

Permitam-me um discurso de uma nostalgia fabril falsa, ao qual quis associar o título e espírito desta letra. Aprendi uma expressão em tecnologia de manutenção / produtividade que não mais esqueci: repor as condições iniciais. O que significava isto? Muito simplesmente, tratar o equipamento de forma a pô-lo, dentro das limitações da técnica, como ele era inicialmente. Não o estragar para além do desgaste normal, não o adulterar, manuseá-lo como se fosse algo de valioso que queremos deixar às gerações vindouras.

Poderemos ver uma máquina com 50 anos, ou por aí, de formas diferentes: quem é que queria aquilo com um design tão triste, naquele tempo é que se faziam máquinas boas, quando a compraram ela tinha um encanto próprio, os nossos olhos é que mudaram e não a máquina, já nada volta para trás, etc.. Olhares contraditórios e, no entanto, todos legítimos. 

Repor as condições iniciais é uma impossibilidade mecânica no sentido mais restrito do termo. A uma máquina usada não conseguimos retirar o desgaste próprio da utilização. Mas uma máquina usada pode tratar-se bem, para se evitarem avarias desnecessárias, custos incomportáveis, obsolescência prematura. Há uma ética de responsabilidade subjacente a esta atitude.

Hier encore é uma música que fala da época desaproveitada de quem tinha vinte anos, ontem. É uma música que reflecte o desencanto das certezas ocas num tempo que se malbaratou. Repor as condições iniciais é um convite a uma espécie de sonho contrário: olhar para um equipamento e encontrar-lhe o encanto de uma origem sadia, tratá-lo como se fosse o nosso próprio corpo, acrescido, não da destruição ou da vacuidade das ilusões, mas do desgaste próprio das coisas


Há quem lhe chame equipamento, há quem lhe chame vida. Afinal, cada um de nós vive os seus vingt ans em épocas diversas.  

JdB


3 comentários:

Ana CC disse...

Isto não é música do meu tempo e por isso não tenho sabedoria, nem o gosto apurado para apreciar,
no entanto gostei imenso da associação à máquina quase obsoleta e da expressão " num tempo que se malbaratou".
Bom dia JdB

Anónimo disse...

Que texto tão bom, JdB! Tão, tão bom. Mas, helas, é a condição humana... pcp

Anónimo disse...

Aprende-se muito nas fábricas, quando se está atento!
Um grande texto, na linha de muitos outros.
CA é sempre uma boa escolha.
Abr
fq

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