terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dos feitios

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão
O feitio de cada um de nós pode ser um karma. Eu explico: muitas características que temos acompanham-nos desde a nascença, porque as herdámos dos nossos antepassados mais próximos - é o orgulho, a teimosia, a avareza, a forma como gerimos as amizades, a maior ou menor susceptibilidade a críticas, a vontade de fazer a paz ou o sorriso com que vivemos permanentemente. Outras características decorrem das circunstâncias em que vivemos - lares mais ou menos felizes, famílias conflituosas, infâncias sem amor ou atenção, Pais superprotectores ou ausentes, gregariedades inexistentes. 

Assim sendo, e assumindo que o parágrafo acima está correcto, muito pouco do que somos é, verdadeiramente, uma escolha nossa. Isto é, não fomos a uma espécie de supermercado e, frente a um escaparate onde existem qualidades e defeitos, escolhemos ser generosos, amáveis de carácter, com intuitos pacificadores e desdenhámos ser potencialmente adictos, avaros, com iras fáceis.

De uma forma muito simplista, porque sempre podemos mudar alguma coisa, somos o que nascemos e o que as circunstâncias fizeram de nós. Às vezes penso que é mais fácil culpar a genética e os anos em que a nossa personalidade se molda do que justificar defeitos óbvios: 

não, não sou avaro, sou apenas muito poupado

é claro que não sou orgulhoso, já ouviste falar de dignidade?  

eu nao fervo em pouca água, tu é que implicas muito...

não ligo aos amigos? Disparate! Tenho é muito respeito pelo espaço deles...

Olhar o outro (numa visão mais conjugal ou mais geral) é vislumbrar um pacote que também se herdou ou se deixou construir, por incapacidade do contrário. A menos que se assumam - orgulhosa e cegamente - os defeitos como qualidades que mais ninguém vislumbra, mais vale responsabilizar os respectivos antepassados e as circunstâncias próprias. Isto não implica fatalismo, mas isenção de uma responsabilidade que nem sempre é do indivíduo. Mais vale investir conjuntamente as energias em perceber o que dentro de cada um funciona mal, para que possa funcionar melhor. Tout comprendre c'est tour pardonner, diria Tolstoy, mas da sua quota-parte de acção introspectiva ninguém se deve escusar. 

Quando olhamos para cima e culpamos a genética por alguns infortúnios, não esquecer também de olhar para baixo, para aqueles que nos olharão. Filho és, pai serás...

JdB   
   

3 comentários:

ACC disse...

Não me canso de elogiar a simplicidade, clareza e doçura com que discorre sobre estes temas. Devia ficar inibida para responder porque arrisco-me a ser ridícula, mas não me importo.

A ultima frase preocupa-me. Tenho pensado muito nos erros que cometi como mãe. Quase que sei que uns se deveram a mim, ser constituído e responsável, outros á inexperiência, porque durante esse processo de maternidade activa, também eu crescia.
Hoje, passados quase 34 anos da minha primeira noite mal dormida e da memória do cheiro a inocência e beleza pura, acredito que ainda posso compor, alindar e refrescar, dizendo :
Desculpem qualquer coisinha, mas o amor não sabe tudo, apenas ajuda á procura sistemática da perfeição. Ainda vamos a tempo.

Acho que é isso que devemos sobrepor á genética e ás circustâncias, a apesar da certeza de que a perfeição não existe.
Talvez este pensamento se possa aplicar ás relações com os que nos são mais próximos, mas infelizmente faço parte da maioria, primeiro a minha razão, depois a do outro e se houver espaço para valorizar o amor e encaixar alguma humildade, talvez se possa repetir uma frase que ouvi já não sei onde:
Não quero ter razão, quero apenas ser feliz.

Obrigada JB pela doçura

Anónimo disse...

Não percebi bem a passagem entre o olhar para cima e o olhar para baixo.
Talvez melhor apenas olhar para dentro, que isso, por si, já inclui todas as outras direcções.
Nosce te ipsum.
O milagre que o ser humano raramente consegue realizar.
Este destino cruel, milenário paradoxo, ao qual o homem, único entre todos os animais, foi condenado, e que encerra em si mesmo e ao mesmo tempo, o desafio mais duro e a salvação.

Anónimo disse...

Pois eu já acho que há uma espécie de supermercado, como lhe chama, onde num determinado momento antes de nascer, escolhemos os desafios que queremos atravessar e a 'bagagem' que vamos levar para isso.
Mas isso, sou eu a divagar...

Por outro lado, sou um todo :o resultado tangível particular(genético e familiar, que 'não posso' mudar)acrescido de uma componente intangível universal.
A este todo, junto-lhe as condicionantes ('supermercado' onde também fui) ambientais, políticas, familiares, sociais, ... que não me conduzem, nem condicionam, antes propiciam-me condições/desafios que eu terei de atravessar.
A forma como o faço, depende unicamente de mim, do meu grau e qualidade de envolvimento, clareza, entrega, Consciência, etc, com que me deparo, reajo, avanço ou retrocedo, lido, em cada situação que a vida me propõe.

Todas as direções, como diz o comentador acima, sobretudo a que me devolve ao epicentro de mim própria.
E dá-se o verdadeiro milagre, sim, a descida da cruz, a salvação.

''...eu nasci assim, eu cresci assim, serei sempre assim'', da Gabriela, já era.

E tudo está certo, mesmo que eu decida encolher os ombros e resignar-me: à avareza do tio X, ao alcoolismo do avô H, à terra N onde nasci, aos maus tratos de J na escola, etc.
Mas tudo será ainda melhor, se eu em alguma altura da minha vida decidir, que não quero ser ávaro como X, bêbado como H, guardar rancor e ser igual a J, ou perceber o que ganhei tendo nascido em N, mesmo que seja apenas a vontade de sair de lá.

A escolha é minha. E sou e serei responsável por ela. É o que levo comigo.

a.

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